Blog do Celio Gomes

As garotas na mesa redonda falam de futebol como craques

Jô Soares está de volta à televisão. E como comentarista de futebol. A estreia do humorista foi na noite desta quinta-feira. Contratado pelo canal Fox, ele participa de uma mesa redonda, o Debate Final – Especialistas. No primeiro programa, Jô trocou ideias com um quarteto de treinadores brasileiros: Abel Braga, Jair Ventura, Wanderley Luxemburgo e Carlos Alberto Parreira. A mediação foi do experiente narrador Téo José. Para começar, não comprometeu, mas pode melhorar muito.

 

Há uma hiperinflação desse formato de programa na TV brasileira. Todos os canais abusam. A coisa já extrapolou, faz tempo, os limites do tolerável. Certamente a explicação mais lógica para isso é o baixo custo de produção. Muito mais caro é produzir reportagem de fôlego. Mas o bate-boca faz parte do jogo e tem lá suas qualidades. Claro que isso vale para quem acompanha futebol. Mais ainda, vale para quem gosta de ver o jogo. De todo modo, falamos de dramas e lances do acaso. 

 

Na Globo, como já era do conhecimento até das torcidas do Flamengo, Irã e Marrocos, a linha editorial é a papagaiada. Garotos-propaganda disfarçados de jornalistas capricham nas caretas, nos trocadilhos debiloides e na vigarice em geral. Nenhuma surpresa. Não há jornalismo nos programas globais sobre a Copa. Galãs de novelas viram “comentaristas”. Tudo tem de ser “divertido” e “emocionante”. Para garantir a audiência, a receita padrão impõe um desfile de idiotices.

 

Na cerimônia de abertura do evento, Ronaldo Fenômeno estava lá como representante dos craques do esporte. Escolha errada. Horas depois, ele já aparecia na mesa do SporTV, batendo ponto na empresa de seu parceiro de negócios, o Grupo Globo. Até onde vi, ao falar das seleções do Uruguai e Egito, fez piada com o Ramadã e, bisonhamente, bajulou a Fifa, a sua outra parceira comercial. Desde que se aposentou dos gramados, Ronaldo virou um negociante oportunista.

 

Nos canais Fox Sports, uma maravilha. Nesses dois dias, o melhor programa de TV sobre a Copa, disparado, é o Comenta Quem Sabe, uma mesa de debate formada exclusivamente por mulheres. Cinco profissionais com desempenho impecável. Vanessa Riche, Daniela Boaventura, Nadine Bastos, Isabelly Morais e Livia Nepomuceno estão arrasadoras. Não há concorrentes à altura.

 

Um dos muitos pontos fortes do programa com as jornalistas é o requinte das análises. Bem longe dos bordões manjados e das falsas polêmicas, elas destrincham táticas, jogadas duvidosas e decisões inesperadas, sempre com clareza, precisão e valiosas informações. De quebra, tudo numa combinação perfeita de descontração e elegância de sobra. Um golaço incomparável.

 

Quem passa por este blog de vez em quando sabe que o futebol é uma pauta com alguma regularidade. Durante a Copa, pretendo importunar os leitores com textos diários sobre o que me chamar atenção nos jogos e na cobertura da imprensa. Afinal, é um mês inteiro com a bola no centro do mundo. Mas os demais assuntos continuarão em foco. Bom é assim: chutar pra todo lado.

Uma vitória da democracia

Finalmente o Supremo Tribunal Federal acertou uma. Depois de um longo inverno de aberrações contra direitos fundamentais previstos até na Constituição, acabou a farra das famigeradas conduções coercitivas. No fanatismo justiceiro que tomou conta da Polícia Federal e do Ministério Público, esse mecanismo virou mais uma porta escancarada ao criminoso abuso de autoridade.

 

O placar apertado de 6 a 5 reafirma a divisão que se instalou no STF. Vê-se que a ala disposta a legislar e atropelar princípios básicos do Direito segue na ativa. É um perigo permanente. São os justiceiros de toga. O quinteto populista do juridiquês. A turma da demagogia dos tribunais. Eis os celerados: Carmen Lúcia, Edson Fachim, Roberto Barroso, Luiz Fux e Alexandre de Moraes.

 

Esse grupo é o favorito da Globo para o Conversa com Bial. Os cinco vivem a passear pelo Brasil dando palestras sobre democracia. Sob essa fachada de guardiões da moralidade nacional, vomitam uma antologia de baboseiras para agradar plateias sedentas por linchamento judicial a qualquer preço. Nessa toada, Barroso e Fux são os campeões das delinquências intelectuais.

 

No julgamento do caso sobre as conduções coercitivas, a dupla repetiu o palavreado que se tornou o eixo de uma trapaça argumentativa. Para os dois elementos, assim como também para Fachim, qualquer defesa dos direitos individuais é estratégia para proteger corruptos. Isso é demagogia das grossas. Por esse raciocínio pilantra, ninguém jamais será considerado inocente.

 

Já escrevi aqui vários textos sobre o que está em jogo neste caso. Sendo repetitivo, o suposto combate a qualquer tipo de crime não pode ocorrer à base de ações igualmente criminosas. Isso é de uma obviedade escandalosa. E isso não é assim para proteger bandido. É proteção essencial a todos os cidadãos. Mas o que não falta hoje em dia é gente disposta à execução sumária.

 

O resultado de agora no STF naturalmente não põe fim a essa onda obscurantista. Patrocinada pelos que deveriam fazer o contrário, que é zelar pelo respeito às leis, a truculência de autoridades está mais firme do que nunca. Barroso, Fux e companhia encontram terreno fértil na mentalidade rasteira de figurões da política e da imprensa. É sempre mais popular defender a degola geral e irrestrita.

 

E os que agem desse modo, é claro, saltitam no picadeiro com discurso de moralistas da consciência da pátria. É o circo perfeito para todo tipo de horrores na contramão do respeito às liberdades individuais. É preciso combater essa distorção que agride valores intocáveis numa sociedade democrática. Nos últimos anos, a moda no Brasil é exatamente o inverso disso. Andamos para trás. 

As Copas do Mundo na TV e o monopólio da Rede Globo

A primeira Copa do Mundo que os brasileiros assistiram ao vivo pela TV foi a de 1970. Que estreia! Quis o destino que o novo tempo nas transmissões de jogos da nossa seleção nesse torneio fosse inaugurado com a conquista do tri. Ainda em preto e branco, as imagens direto do México representavam, por aqui, uma revolução no jeito de acompanhar uma partida de futebol.

 

Naquele tempo, bem menos da metade dos lares possuía um aparelho de televisão. Nada parecido com o apogeu que se daria nos anos seguintes. Conta a história que as confusões, brigas e rasteiras para garantir os direitos de transmissão, entre as emissoras, começaram também ali, em 70. O mal é de origem. Depois de um tremendo impasse, Globo, Tupi, Band e a antiga Record exibiram o Mundial.

 

De lá para cá, apenas duas vezes houve o monopólio da transmissão na TV aberta: em 1982 e em 2002, a Globo – é claro – exibiu sozinha os duelos pelo título mais importante do futebol. Pois agora, esta anomalia se repete. O império carioca tem outra vez o controle total do espetáculo televisivo. A única alternativa é o canal Fox, se o torcedor tiver uma assinatura de TV fechada.

 

A outra opção também fora da rede aberta é o Sportv, mas que igualmente pertence aos Marinho. Duro mesmo é se você tiver de aguentar as tenebrosas narrações de Galvão Bueno, aquela mistura irretocável de desinformação, ufanismo e cretinice. O padrão globo de antijornalismo chega ao ápice nesta Copa, com a cobertura oficialmente sob controle da área de entretenimento.

 

Veja que ironia. Em termos de monopólio da Globo, há hoje um retrocesso descomunal. Em plena democracia, a emissora domina os direitos sobre um evento como uma Copa, como não conseguiu fazer em plena ditadura. Em 1974, seis televisões transmitiram os jogos: Cultura, Tupi, Record, Band, Gazeta-SP, além da Globo. Quatro anos depois, em 1978, as mesmas seis televisões estavam lá.

 

A partir de 1986, a coisa ficou mais engraçada, com a chegada de SBT e Manchete às transmissões da Copa. As coberturas com vozes distintas, e com infalíveis doses de maluquices, seguiram até 2002, quando, como já disse, tudo ficou nas mãos de Globo e Sportv. A partir daquele ano, o negócio foi se afunilando. Até a ESPN, Band e Bandsport caíram fora este ano. É a força da grana.

 

Para quem é curioso sobre futebol, jornalismo e TV, a internet é uma janela para alguns momentos sensacionais dessa longa história. São impagáveis alguns debates (ou apenas comentários) de figuras como João Saldanha, Jô soares, Zagalo, Armando Nogueira, Luciano do Valle, Juarez Soares, Gerson, Tostão e mais uma multidão de jornalistas e personalidades do futebol que marcaram época.

 

Se tudo ficou mais profissional nas transmissões televisivas, como gostam de pensar os idiotas da objetividade, perdemos em diversidade de vozes, opiniões e linguagem – perdemos no jeito de contar os lances desse jogo mirabolante. Por falar nisso, a bola entrou em campo. Rússia e Arábia Saudita travam um duelo para o estádio lotado, num deserto de craques. E pintam os primeiros gols.

 

Só por curiosidade, vejo pela Fox, na transmissão de João Guilherme (narrador) e comentários de Paulo Vinícius Coelho, o PVC, e Zinho, campeão mundial no insosso torneio de 1994. Mas claro que, ao longo dos jogos, darei uma olhada e outra, de vez em quando, nas presepadas de Galvão e da Globo. Afinal, preciso ter informações para poder esculhambar as porcarias. Não será difícil.

Shopping center explica o Brasil

As cenas em um shopping center de Salvador traduzem um Brasil que segrega os cidadãos entre quem pode e quem não pode frequentar certos ambientes. Um menino esmolambado, que vende confeito e chiclete na porta do luxuoso centro de consumo, aborda um rapaz e pede um lanche. O baiano que recebe o pedido então leva o garoto para dentro do shopping e compra almoço para os dois. Um segurança decide que isso é vetado ali. O caso ganhou imediata repercussão nacional.

 

De fato, o que se vê nas imagens gravadas por celular e espalhadas pelas redes sociais causou tremendo impacto e gerou uma verdadeira comoção. No meio da discussão entre o cara que pretende almoçar com o menino e o funcionário, aparece um gerente (ou supervisor) que acaba apagando o incêndio. No fim da confusão, a criança senta à mesa na praça de alimentação e pode comer ao lado de seu camarada inesperado. Como explicar o que se passa nesse acontecimento?

 

Primeiro, o segurança. Ao agir com intolerância, e proibir a presença do garoto naquele espaço, ele repete várias vezes uma frase reveladora: É o meu trabalho. O que isso quer dizer? Parece lógico deduzir que ele está nos informando que está cumprindo ordens. Faz parte de seu “trabalho” zelar para que o público padrão do lugar não seja perturbado por tipos inconvenientes. (Aliás, o final feliz, digamos assim, só foi possível por causa das gravações que levariam tudo à internet).   

 

Não tenho dúvida que é exatamente isso que vigora nos shoppings do país inteiro – principalmente nos que se querem destinados à “elite”. Resistem entre nós os muros invisíveis e não declarados da discriminação mais abjeta – de cor, posição social, renda etc. E o shopping é um emblema perfeito desse apartheid tacitamente normatizado. Em Maceió, existem três desses centros. Não por acaso, aquele considerado o mais “popular” está ali na Via Expressa, nas proximidades do Benedito Bentes.

 

No extremo oposto, perto da praia e dos bacanas, instalou-se o mais suntuoso dos nossos shoppings. Ao primeiro sinal de uma presença destoante, os seguranças começam uma discreta troca de informações pelo rádio de comunicação. Quando isso ocorre, o penetra desavisado passa a ter seu percurso monitorado. Repito: o padrão é nacional. A regra é um clássico: cada macaco no seu galho.

 

Nossa tradição em discriminar é tanta que isso ocorre até ao ar livre, naquele que é tido como “o espaço mais democrático do país”, que é a praia. Embora irregular, o documentário Faixa de Areia, lançado em 2007, tem o mérito de capturar, em vários depoimentos, a tolerância zero entre muitos que gostariam de selecionar seus vizinhos de bronzeado e mergulho. Imagina no shopping.

 

Muitos engraçadinhos por aí, que se acham modernos liberais, fazem piada sobre racismo e discriminação em geral, classificando tudo como “mimimi”. O que há, para essas bestas, é o critério da “meritocracia”. Pois é. Nem precisava, mas o que acaba de ocorrer no shopping da Bahia prova que deve ser isso mesmo. O Brasil continua um belo exemplo de respeito a todos. Vai vendo!

O falso dilema da camisa amarela

Vocês devem ter lido por aí que muita gente se recusa a vestir a camisa amarela para torcer pela seleção na Copa da Rússia. A bola começa a rolar nesta quinta-feira. Já o Brasil, estreia no próximo domingo, dia 17. A torcida que rejeita o uniforme oficial diz que a peça virou símbolo máximo dos “patos”, aquela massa que foi às ruas para pedir a queda da então presidente Dilma Rousseff.

 

De fato, embora não faça parte de nenhuma igreja política, nem à esquerda nem à direita, reconheço que os engajados na Patolândia traduzem algum ideal próprio de uma piada grotesca. Sair por aí enrolado em bandeira e beijando uma peça de roupa não me parece um comportamento muito saudável. Apelar ao patriotismo sempre foi, em qualquer tempo, sinal de obscurantismo.

 

Mas torcer ou não torcer não é um caso de agora. Isso não é exclusividade dos tempos de Copa. Para um torcedor típico, desses que se exibem apaixonados por um time ou pela seleção, deve ser inexplicável que alguém se declare indiferente. Mais grave ainda, para quem vibra no êxtase da vitória ou cai no choro da derrota, é ver o sujeito torcer contra seu próprio país. Mas é natural.

 

E torcer contra não é algo ligado necessariamente a um protesto pela situação política de uma época. Também não significa menosprezo pelo futebol. Além de ver muitos jogos, acompanho com algum método o noticiário e os debates amalucados que atravessam a imprensa de ponta a ponta. Mas, ao longo do tempo, enquanto o interesse se fortalecia, a alma de torcedor foi se congelando.

 

Estrada afora, até o “time do coração” – que na verdade nunca me fez agir com fanatismo – virou vidraça. Estou mais pronto para o ataque do que para a defesa apaixonada. Vejo com certa estranheza marmanjos que perdem tempo brigando por seus times, trocando insultos ou apenas sacando piadas contra os adversários. É a parte mais sem graça nesse universo fantástico.

 

Tanto faz se, no Brasileirão, der Flamengo, Vasco, Corinthians ou Palmeiras. Ou qualquer outro. Ganhar e perder é o de menos. Espero a surpresa, o lance mais improvável, o triunfo do acaso. Hoje mesmo, vi na TV o São Paulo bater o Vitória por 3 a 0. No primeiro tempo, o meia são-paulino Nenê abriu o placar com uma obra de arte. Logo ele, um veterano que já foi vaiado por sua torcida.

 

A primeira Copa na memória é a de 1974. (Sou de antigamente). Em 1978, assisti, revoltado, ao juiz acabar o jogo com a bola em pleno ar depois da cobrança do escanteio que Zico completaria para o gol. Nunca houve um lance tresloucado como aquele. Em 1982, foi chocante ver a Itália eliminar a segunda maior seleção de todos os tempos – a primeira, claro, é a mitológica formação de 70.

 

É só um jogo de bola, dizem alguns, e é verdade. Mas futebol também é alta literatura. Eduardo Galeano, García Márquez, Albert Camus, Nelson Rodrigues. Tostão. Eis aí uma breve seleção de gênios que levam a banalidade desse jogo a dimensões do sublime. Da lista, Tostão é o único vivo. E é ele, disparadamente, o melhor texto na produção atual na imprensa brasileira.

 

Por fim, é obrigatório lembrar o incontornável: a experiência de ir ao estádio beira a epifania. Nem adianta explicar. Pensando e vivendo o futebol desse jeito, só posso entender como irrelevante o dilema de, por razões políticas, vestir ou não a camisa amarela. É apenas uma imensa tolice. Quem resume um drama existencial a esses termos, deixa claro que não entende o que está em jogo.

Precariado

Depois de uma geral pelo noticiário na manhã de hoje, descobri que bolsonaristas acordaram em êxtase com o encontro entre Donald Trump e Kim Jong-un. Pelo que entendi, a manada de rapazes apaixonada pelo pistoleiro analfabeto dispensa até as namoradas, em pleno 12 de junho, para festejar o que consideram uma vitória da ideologia que professam. É um caso de demência incurável.

 

Por falar em guerra ideológica, os meninos e marmanjos que se encantaram com a macheza do Jairzão do fuzil fizeram, nos últimos tempos, uma descoberta formidável: para eles, repara só, a Globo é um antro de comunistas. Você aí, que vive acusando a emissora dos Marinho de reacionária, direitista dos infernos e golpista, está por fora. Os intelectuais da bala reinventaram a roda.

 

Mas isso não é da minha conta; vou deixar os cidadãos de bem curtirem seu Dia dos Namorados sonhando com um chamego do ídolo valentão. Cada um escolhe o parceiro que combina com seus desejos mais inflamados. É ou não é? Enquanto isso, acompanho na Globonews marxista a informação sobre a farra de políticos em São Paulo, que agora decidiram explodir o teto salarial.

 

Se a moda pega, daqui a pouco nossa Assembleia Legislativa é bem capaz de seguir o mesmo caminho. Afinal, uma boa ideia tem tudo para se espalhar. E o que não falta em Alagoas é categoria do funcionalismo estatal disposta a dar sua contribuição para o equilíbrio das contas públicas estaduais. Têm razão. A qualidade inquestionável dos serviços merece a extinção de todos os tetos.

 

Outro assunto na imprensa brasileira é a tal desanimação com a Copa. Bastaram uma pesquisa e uma opinião mais desencantada, e pronto: todos os jornalistas agora posam de indiferentes com os destinos da seleção. Parece que pega bem entre as patotas demonstrar esnobismo com as caneladas de Neymar e Phillipe Coutinho. Ainda bem que posso reler Nelson Rodrigues.

 

E hoje também é dia de fogueira. Se bem que a tradição, esta sim, parece que vai decaindo ano a ano. Antigamente, como diriam os dinossauros, a essa hora a correria já era grande na procura por pedaços de pau e madeira para garantir as labaredas mais vistosas. Tenho a impressão que quase nenhuma rua monta mais aquele arraiá que entrava pela madrugada. É, o mundo mudou.

 

Mas suponho que, entre os alagoanos mais antenados com a cultura popular, a tradição deve ter sido repaginada. Algum DJ deve animar uma festinha vintage, com sonoridade antiforró e cardápio gourmet à base de comidinhas personalizadas. Milho assado é para os meliantes da periferia. É por isso que, no Brasil e em Alagoas, vivemos dias melhores. Estamos no rumo.

 

Pensando aqui na trilha sonora para hoje. Acho que vou nas ondas do Wado. Ele acaba de botar na praça mais uma obra de arte raríssima. Precariado reafirma que o maior talento da música entre nós, alagoanos, na verdade é um legítimo catarinense. Para tristeza dos filósofos da alagoanidade.

 

Wado é universal; poeta do som e da palavra. É obrigatório. Não bastasse tudo isso, de vez em quando chuta o pau da barraca. Sempre com precisão e refinamento. Assim é a grande arte.

Dois malucos se encontram

Acompanho ao vivo pela TV, na noite desta segunda-feira, o encontro entre o presidente americano Donald Trump e o ditador da Coreia do Norte, Kim Jong-un. Cem por cento da imprensa mundial classifica como “histórica” a reunião entre os dois líderes que mais parecem dois malucos. E daí? O que isso tem a ver com o Brasil e com a vida dos brasileiros? De repente, nada. Mas ver o acontecimento com tamanha indiferença, vamos reconhecer, não seria lá muito inteligente.

 

O aperto de mãos entre as duas cabeleiras inclassificáveis tem como objetivo um planeta mais seguro. Pelo menos é isso o que está oficialmente nas alegações dos dois lados – e que todos os países não têm como contestar. Todos querem os norte-coreanos longe dos ímpetos de sacar seu arsenal nuclear contra os Estados Unidos ou a Coreia do Sul. Era o que o baixinho vivia ameaçando.

 

O encontro ocorre em Singapura, um território neutro para acomodar duas das figuras mais esquisitas – bizarras, você pode dizer – do cenário mundial. Nas primeiras imagens do bate-papo entre eles, transmitidas em tempo real, ambos pareciam decididos à cordialidade. Estão empenhados em passar a ideia de dois estadistas sóbrios e equilibrados, na contramão de suas trajetórias.

 

Segundo diferentes analistas, o surpreendente diálogo entre os antigos inimigos tem dois objetivos imediatos, um para cada presidente. Kim sobe de patamar na geopolítica planetária, deixando a condição de pária, sendo reconhecido como estadista que negocia com a maior das potências. E Trump demonstra que está além do tosco tuiteiro, tornando-se candidato natural ao Nobel da Paz.

 

Por aqui, como sempre, notórios modelos da direita e da esquerda fazem a leitura que se adapta a suas incompatíveis visões de mundo. Sem dúvida, enquanto uma turma exalta a iniciativa de Trump, o outro lado tenta subestimar o alcance da investida do americano. Quem sabe, todos estejam certos.

 

Ainda que o passo inicial não dê em nada logo adiante, não é possível minimizar o que estamos vendo agora. 11 de junho de 2018 já garantiu seu lugar definitivo e incontornável nos livros de História, nos ensaios e estudos que virão por aí. Por isso, você está lendo o que acabo de escrever.

Propaganda do governo de Alagoas não tem Alagoas

Eu não sei quanto a vocês, mas para mim as coisas por aqui estão mudando. É mais ou menos com essas palavras que começa a mais nova peça publicitária do governo de Alagoas na TV. (Não uso aspas porque não decorei o texto ao pé da letra). E então vemos uma bonita jovem dirigindo um Jipe, deslizando sobre rodovias com asfalto em estado impecável. É uma produção digna de Projac.

 

Devo reconhecer que se trata de publicidade realmente original. Ao contrário do que aparece nos demais anúncios, não se vê uma obra grandiosa, uma maravilha de escola, nenhuma brilhosa viatura policial, nenhum modelo fantasiado de gente comum falando sobre as realizações incomparáveis do governo. Todo o filme se resume ao passeio da beldade guiando o rústico automóvel.

 

Imagens captadas por drones (é claro) mostram a moça cortando pontes e atravessando paisagens de lindos coqueirais. Lagoas e praias também pontuam o enredo milimetricamente esquadrinhado pela ciência do marketing oficial. Depois de uma mostra do território alagoano, a propaganda chega ao fim no alto de falésias, aparentemente no litoral norte dessa terra abençoada por Deus. Paraíso.

 

Fiquei imaginando como a equipe de propaganda chegou a essa inusitada ideia. Devem ter pensado mais ou menos o seguinte: vamos fugir do óbvio; vamos evitar o “mais do mesmo”; vamos surpreender essa ralé com um produto que somente um time cabeça como o nosso é capaz de produzir. O cara que pensou num Jipe, e não num carrinho da moda qualquer, é um caso à parte.

 

A invenção é tão peculiar, que mereceria uma análise mais erudita, a partir de teorias que passeiam entre a Semiótica e a Estética do Signo Visual. Mas ignoro as ferramentas valiosas para isso. Deixo tal missão para os doutores em Comunicação e Publicidade que esbanjam sabedoria em nossas universidades. Aqui, levo tudo a uma visão rasteira – até uma obra de arte.

 

Sim, porque o que sei é que, no governo estadual, a produção de anúncios é tratada como questão de alta cultura. E isso tem um preço. Mas, como estamos diante de uma prioridade absoluta, para vender o peixe, dinheiro não é problema. Prova disso é que a aventura da garota ao volante é atração nos intervalos do Jornal Nacional, do Fantástico e da novela das 21h. Horário nobre.

 

E a faixa do horário nobre, amigo, é o topo da tabela na Rede Globo. Ali, só aparece quem tem negócio, quem pode bancar trinta segundos a peso de ouro. E bota ouro nisso. Não estou dizendo que há alguma coisa errada com o investimento. É do jogo, digamos assim. O governo de Renan Filho não está inventando moda. Está apenas reproduzindo o velho padrão estabelecido desde sempre.

 

Suspeito que o marqueteiro responsável pela “arrojada” criação é fã dessas propagandas da Copa do Mundo. É uma escola. Está tudo de acordo com os manuais de agências badaladas: as imagens passam por tantos filtros, recebem tantos retoques, é tanta coisinha delicada, que a realidade simplesmente desaparece. E o que pretende ser sutil e despojado, vira um belo monstrengo.

 

Se, no fim das contas, toda publicidade forja um simulacro da vida real, a nova sacada marqueteira do governo alcança o paroxismo: a despudorada maquiagem apaga Alagoas da geografia alagoana. Favelas, violência, analfabetismo, nada disso existe por aqui. Nem o povo existe. O que se vê na tela é um filme de ficção. Até o velho Jipe perde o jeitão bruto, e parece coisa de efeito especial.  

Um eleitor chamado “Mercado”

Quem decide a eleição é o voto do eleitor. Mais ou menos. Digo isso porque se os candidatos a presidente dedicam tanto empenho para conquistar a preferência de todos nós, o esforço não é menor para ganhar o apoio de Sua Excelência, o Mercado. Tanto faz se o postulante a governar reza na cartilha do mais romântico marxismo ou é um adepto das firulas neoliberais – sem a confiança do mercado, é bronca. Alguns tentam disfarçar, mas a reverência a essa entidade é a marca de todos.

 

Desde a redemocratização, quando recuperamos o direito de eleger diretamente o governante do país, a cada quatro anos o debate está de volta. Vamos lembrar da primeira eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002. Você está cansado de ouvir aquela explicação – mais repetida que a gíria “pistola” hoje em dia: o petista só ganhou a disputa sobre José Serra após publicar a famosa Carta aos Brasileiros. Na real, o nome mais preciso deveria ser Carta ao Mercado. Foi tudo isso mesmo?

 

Não importa. O fato é que a ideia virou uma verdade absoluta. E nas eleições de 2018, quem é o favorito do sistema financeiro? Ninguém assume tal condição. Nenhum dos candidatos, por mais queridinho que seja entre megaempresários e banqueiros, sai do armário para admitir a condição um tanto inconveniente. Todos garantem ao eleitorado que são “independentes”.

 

Quando cai a noite, é outra conversa. De Ciro Gomes a Guilherme Boulos; de Jair Bolsonaro a Marina Silva, os presidenciáveis falam grosso nos palanques para plateias aliadas, mas afinam em sabatinas para o público dono do dinheiro. Por isso, é altamente arriscado cravar certezas sobre as intenções dos que estão aí pedindo o seu voto. Depois da eleição, a surpresa pode ser arrasadora.

 

O caso Marina Silva em 2014 é emblemático. Após assumir a liderança na corrida, com muita chance de vitória, caiu na armadilha do PT. A proposta marinista de um Banco Central independente foi transformada, pela campanha petista na TV, em sinônimo de fome na casa do brasileiro. Em dois tempos, os votos evaporaram. Reeleita, Dilma fez tudo o que condenara em sua adversária.

 

No atual processo eleitoral, a situação mais inusitada é a de Bolsonaro. Ignorante completo em economia, sempre foi um ferrenho defensor do mais jurássico estatismo. Agora, milagrosamente, morrendo de medo das forças ocultas do mercado, virou liberal desde criancinha. Para se enfeitar de moderno candidato do liberalismo, se agarrou a Paulo Guedes, um radical das privatizações.

 

O economista Guedes é um velho amigão de especuladores, sócio de bancos e guru desses antros de lobistas chamados de “consultorias”. O homem foi um dos formuladores do programa de governo de Guilherme Afif Domingos, presidenciável na remota eleição de 1989. Três décadas depois, está de volta como o ideólogo bolsonarista no campo da macroeconomia. Nada de novo no Brasil.

 

Dá pra levar a sério? É claro que não, mas está aí a prova da influência mortal que o tal do mercado exerce nos rumos de uma eleição. Nosso voto é decisivo, não resta dúvida, mas os candidatos se ajoelham mesmo é diante dos senhores da grana. Até o valentão adepto do fuzil e da tortura vira um gatinho manso no colo do sistema financeiro. Direita? Esquerda? Que nada; isso é só fantasia.

Deus não joga bola

Em primeiro lugar, toda honra e toda glória a Nosso Senhor Jesus Cristo. É assim, com esse palavreado entre a alienação, o messianismo e o oba-oba, que jogadores de futebol começam suas entrevistas logo após o jogo. Geralmente, a declaração precede as explicações sobre o êxito obtido no gramado. Se o cara ajudou na vitória com um gol, primeiro vem a saudação à força divina.

 

Essa religiosidade supostamente fervorosa é uma tradição na história do futebol brasileiro. Não sei quando começou, mas especulo que a origem seja por demais remota. Décadas atrás, artilheiros alagoanos deram pra repetir a seguinte explicação esotérica para o eventual sucesso numa partida: “Quem trabalha, Deus ajuda”. O sentido, mais sintético, é o mesmo das palavras de hoje.

 

Nos últimos tempos, as manifestações de fé se tornaram mais ostensivas no jogo – particularmente, claro, depois de um gol. Levantam-se as mãos para os céus, com o olhar fixo também para o alto e, fechando a encenação, trava-se um verdadeiro diálogo entre o goleador e a entidade sobrenatural. Daqui a pouco, os jogadores vão rezar o “Pai Nosso” para comemorar o golaço.

 

Disseminada nos clubes, a rezaria é marca registrada na seleção brasileira. Uma das imagens mais lembradas na trajetória de conquistas em Copas do Mundo é a comemoração de Jairzinho após seus gols nas partidas de 1970. O camisa 7 saía em disparada, já com as mãos para o alto e, na lateral do campo, de joelhos, fazia o sinal da cruz. Acho que é um precussor dos crentes atuais.

 

Em anos anteriores, na seleção, jogadores como Kaká e Lúcio passaram do ponto e tentaram transformar o local de concentração quase em templo religioso. Militantes evangélicos, pretendiam levar pastores para rituais coletivos. Hoje isso é oficialmente proibido pela CBF. O veto foi reafirmado agora mesmo na gestão do técnico Tite. Mas a decisão não diminui a suposta fé da turma.

 

Depois de marcar um dos gols na vitória sobre a Croácia, o coroinha Neymar postou agradecimento a Deus em suas redes sociais. É difícil acreditar que o mercenário deslumbrado pratique em sua rotina bilionária toda essa devoção ao Todo Poderoso. Não combina. É evidente que isso não passa de jogada de marketing. A religião do camisa 10 do Brasil está na igreja da fama e da ostentação.

 

Com o perdão da heresia, por que diabos esses sujeitos acreditam que o pai de Jesus olha, especificamente, para eles? E o adversário? Não merece a mesma atenção do Senhor? Não há nenhuma variável no mundo racional que sustente a crendice verde e amarela. A única explicação que encontro está, digamos assim, no princípio pós-teológico segundo o qual “Deus é Brasileiro”.

 

É por isso que a Bahia, laboratório maior do nosso colorido e carnavalesco sincretismo, legou ao mundo a equação definitiva: se macumba ganhasse jogo, o Campeonato Baiano terminava empatado. Há controvérsia sobre a autoria desse aforismo transcendental. Há quem atribua tamanha demonstração de sabedoria ao jornalista e técnico João Saldanha; outros dizem que seu autor é Neném Prancha, roupeiro e massagista do Botafogo. Seja quem for, é verdade incontestável.

 

Muita coisa nesse mundo não tem nenhuma explicação. Mas eu entendo: o autoengano alivia nossa brutal e escandalosa miséria. Acreditar em energias do além reconforta a existência atormentada e absurda. Nossos boleiros, sejam craques ou pernas de pau, nem desconfiam, mas é por isso que celebram o milagre de Deus, toda vez que a bola estufa as redes e a torcida vai ao delírio.

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