Incluir Direitos Humanos na Agenda Política

 

O Brasil foi o primeiro país do Cone Sul a fazer a transição da ditadura militar (1964-1985) para a democracia. O regime militar resistiu, criou as condições ideais para realizar o que ficou consignado como a transição lenta, segura e gradual. Em 1979, o general João Figueiredo, o último ditador, enviou ao Congresso Nacional o projeto de lei que concedia a anistia para os presos e perseguidos políticos, entre eles os exilados e banidos.

Em vinte e um anos de ditadura, entidades da sociedade civil e personalidades do mundo cultural, jurídico, religioso e político denunciaram nacional e internacionalmente inúmeras violações dos direitos humanos, como a tortura, prisões, assassinatos e o desaparecimento de patriotas.

A luta em defesa dos direitos humanos, para muitos no Brasil, passou a simbolizar em primeiro plano as campanhas pelas liberdades, contra a censura, em favor do direito a manifestação e organização de partidos políticos, direitos suprimidos pelo regime militar.

Ao ser concluído o processo de transição, a democracia foi referendada através de eleições livres e da Assembleia Nacional Constituinte, que deu origem à nova ordem constitucional. O desmanche do arcabouço jurídico institucional não aconteceu de maneira automática. As resistências surgiram em todas as áreas do Estado brasileiro. E os setores mais comprometidos com a luta antiditatorial de um modo geral se bastaram com a defesa dos direitos humanos, quando o violador era o Estado ditatorial brasileiro.  

 A sociedade civil demorou a compreender que no momento pós-ditadura, a luta em defesa dos direitos humanos deveria ser ampla e focada nos setores mais vulneráveis. As bandeiras propostas inicialmente pelos partidos de esquerda foram se esvaindo com o lento cessar dos ecos ditatoriais.

O Estado brasileiro mantém-se como um violador contumaz dos direitos humanos, agora – desde 1988 − regido por uma nova ordem constitucional, mas com vícios antigos e com um aparelho de segurança ainda sob forte inspiração do período ditatorial, traduzido no militarismo adquirido no pós-64.     

As políticas públicas implantadas pelo Estado brasileiro têm os seus principais adversários nos remanescentes do período ditatorial: corporações militares, parlamentares direitistas, conservadores identificados com grupos de extermínios, setores da mídia, áreas do Poder Judiciário, entre outros.

O desafio posto é a transformação das políticas de promoção, proteção e defesa dos direitos humanos em bases centrais da política de Estado. Assim como o combate a inflação se transformou numa quase obsessão nacional e que, ao fim e a cabo, vem logrando êxito independentemente do partido político que esteja governando.

A afirmação dos direitos humanos não pode ser uma palavra de ordem, e muito menos um recurso de marketing utilizado pelos governantes em efemérides ou em solenidades realizadas em salões palacianos. A afirmação dos direitos humanos se dará na construção de ambientes do Estado brasileiro, nos três poderes. Quando se tratar da execução das políticas públicas, os três níveis do Executivo (União, Estados e Municípios) devem atuar em sintonia, no financiamento das políticas, na execução, na avaliação, no controle e na prestação de contas.

A integração das políticas públicas modificará, no médio e no longo prazo, a concepção do agente público, resultando na inevitável transformação da relação entre governos e sociedade. A implantação de políticas afirmativas de direitos humanos é o caminho mais curto para a superação da barbárie.            

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A voz da minha avó

Acordei ouvindo uma voz que me era muito familiar. Levantei, fiquei de pé para ter a certeza de que estava realmente acordado. De fato estava acordado, mas permanecia com a sensação de que estava ouvindo a voz. Era uma voz suave, pausada, carinhosa. Era a voz de dona Rosinha, minha avó. Passados tantos anos da sua morte, voltei a me lembrar de dona Rosinha, que era assim conhecida, mas fora registrada como Rosa Soares de Moura.

Logo após a sua morte, passei muitos anos com o som da sua voz em minha cabeça. Quando acordava, antes de ir dormir, na hora do banho, caminhando na praia...

         A lembrança me acompanhou por muitos anos, mas fazia algum tempo que não me ocorria lembrar. No entanto, isso não significa que tenha esquecido seu jeito carinhoso e afável. A saudade me acompanha aonde quer que eu vá.

         Demorou muito tempo para que eu entendesse – e não era segredo de família − que a dona Rosinha não era a minha avó e sim a bisavó. Quando minha mãe (Marinalva) nasceu, seu pai, meu avô Moisés, morreu. O fato de a avó Novinha (Maria Fidelis de Moura) ter ficado viúva fez com que ela entregasse a criança para a bisavó criar.

A criança foi registrada como filha da avó dona Rosinha. É por isso que eu chamo e sempre chamei de Vó Rosinha ou dona Rosinha.

         Nunca passou pela minha cabeça, nem quando era criança, e hoje também não me preocupo em saber o que ela fez na vida. O que me atraía era a sua fala mansa, pausada e, claro, os seus mimos, distribuídos sem sovinice.

         As lembranças dos tempos em que eu era criança e fazia travessuras em sua casa ou para lá corria, fugindo de punições certas de minha mãe − não sem razão, pelas diabruras que realizava. A sua casa, arejada, com um quintal grande e com um pomar bem cuidado, era o meu esconderijo preferido.

         Surras não eram permitidas. A casa da Rua Nova era território liberto. Ninguém ousava usar castigos físicos; nem minha mãe, com sua vocação autoritária, ousou. O meu refúgio sempre foi a casa de dona Rosinha.

         O quintal-pomar tinha as frutas da minha preferência em abundância: sapoti, pitanga, manga-rosa, manga-jasmim, goiabas brancas e rosas, um pé de romã. E tinha o melhor: a Josefa, fiel escudeira, uma negra alta, de mãos grandes e habilidosas, uma artista na cena doméstica. O que de melhor comi foram os quitutes feitos pela Zefa. A minha memória afetiva me conduz: lembro-me dos sabores e dos prazeres da cozinha e da casa de dona Rosinha.

         O lanche das tardes era sagrado. Doces de coco com mamão, leite, caju, broas de goma quentinhas, pé de moleque. O forno a lenha estava sempre aceso. O café passado na hora, torrado em casa. Tudo ou quase tudo era caseiro. As broas começavam a ser preparadas após o almoço.

Dona Rosinha, sentava na sua “cadeira da vovó”, que ficava na sala de visita, ajudava na confecção das broas de goma. Quem fosse chegando era convocado para o trabalho artesanal de produção de broas de goma, iguaria também conhecida como sequilho, feito da farinha de mandioca.   

         No sábado, dia da feira, a despensa da casa era abastecida com os mantimentos. A energia elétrica era a grande novidade na cidade, e a geladeira − aliás, dona Rosinha, acredito, não chegou a conhecer esse bem, hoje indispensável a qualquer residência.

A água tratada para consumo humano era outra novidade. Demorou alguns anos para que todas as casas tivessem ligações e pudessem consumir água tratada e fornecida pela Casal. O abastecimento de água da casa vinha da cacimba e era armazenada nos potes de barro. Estes eram cuidadosamente colocados num dos cantos da cozinha, do lado da sombra, para manter em temperatura amena, assim resfriando o líquido, observando-se o cuidado para que não entrassem insetos.       

         Esse ritual demorou alguns anos; não foram muitos, mas como tudo naquela casa era simples e comum, talvez por isso tenha sido tão marcante para mim. Essas lembranças que emergem durante um sonho ou quase sonho, para mim, constituem uma evidência de quão importante são as avós. E como é saudável a infância quando é bem vivida − e se for numa pequena cidade, melhor ainda.

         A mesa da casa era o parlatório. A sala de visita era um ambiente confortável, mas onde pouco tempo ficávamos. O melhor lugar da casa era a sala de refeições, área interligada, separada apenas por uma meia-parede com a cozinha.

 Esforço-me para lembrar se em alguma ocasião houve alteração na sua voz. Se houve algum grito, esporro ou resmungo.  

         Resmungar é uma condição, dizem, inerente aos velhos, chatos e mal-humorados. Em nenhuma dessas categorias é possível enquadrá-la. A forma como dona Rosinha se dirigia aos adultos e a nós crianças era a mesma: carinhosa e educada. Hoje, percebo o quanto ela prestava atenção em nossas falas.

         Os conselhos, as orientações e as repreensões eram dados sem que houvesse constrangimentos. Os resmungos, esses sim, algumas vezes eram feitos por nós, ao sairmos da mesa. 

 

A dona Rosinha sabia das coisas.   

        

 

 

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É Preciso Lutar

Admiro o cientista político Marco Aurélio Nogueira, professor titular da Unesp, desde o final da década de 1970, nessa época um jovem e influente intelectual da esquerda paulista. Essa admiração cresceu mais ainda com o tempo.    

Entrei em sua página no facebook, como de costume, e li um dos seus textos, com o qual tenho total concordância: “Uma coisa é quando a direita ataca a esquerda e os democratas com grosserias e infâmias. É da cultura dela fazer isso. Outra coisa é quando a esquerda se vale dos mesmos procedimentos fascistas para atacar, não a direita, mas as esquerdas e os democratas. A questão não é de mais ou menos vitimização, mas sim de mais ou menos honestidade, critério e fidelidade às próprias tradições. É uma questão que tem a ver com o método de fazer política e explicitar diferenças. Dizer que bato nos outros porque eles bateram antes em mim e por isso tenho o direito de mentir e difamar não é coisa de gente de esquerda. Nem de gente séria”.

 

        As campanhas eleitorais há muito tempo não são dirigidas pelos partidos políticos e menos ainda se inspiram em ideias dos seus intelectuais orgânicos, nem os acadêmicos, como era a tradição dos partidos de esquerda, centro ou de direita, até 1990. Esse marco temporal pode ser um pouco antes ou um pouco depois. Fica na margem de erro ou margem de segurança.

        As diretrizes das campanhas, os temas, as falas dos candidatos são emanadas dos marqueteiros e principalmente do que se apura nas pesquisas de opinião pública, as chamadas pesquisas qualitativas ou “qualis”, como são tratadas na intimidade.

        A disputa da presidência da República esta acontecendo entre duas mulheres, ambas com trajetórias de esquerda, e entre dois partidos com histórias que se cruzaram nos últimos 29 anos, para ficar nesses dois pontos, aparentemente convergentes.

        Mas quando o centro da campanha é a desconstrução da adversária, como faz Dilma Rousseff contra Marina Silva, tudo que se havia criticado e combatido, que a direita fazia de maldade, baixarias e mentiras, até bem pouco tempo antes da chegada ao poder, agora é natural, é parte da estratégia de campanha.

        Vergonhoso é perder, mas para ganhar vale tudo, até golpe abaixo da linha da cintura.

        Aguardemos o próximo round.

         

       

 

 

 

 

 

 

 

 

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Jatiuca, essa é a minha praia

[...] Como o mar de Jatiúca

Vive trágico, vive aflito

Perguntando se os coqueiros

E as jangadas vão restar

Pra passear no mar [...]

 

 (Música de Beto Leão)

 

        A urbanização de Jatiúca, iniciada na década de setenta, mudou o bairro definitivamente: foram abertas avenidas, ruas; conjuntos habitacionais construídos e inaugurados. O saneamento básico na área central do bairro foi efetuado. Os sinais de modernização chegaram com a urbanização dessa região que vivia apartada do resto da cidade.   

Em pouco tempo ocorreram mudanças tão significativas, que alteraram toda a paisagem e a vida do então bucólico bairro de pescadores.

A beleza natural estava escondida da maioria dos habitantes da cidade, mas com a urbanização houve a descoberta do belo − poucos tinham o privilégio de desfrutá-lo. O coqueiral, o mar e a Lagoa da Anta, ao serem apresentados ao grande público, pareciam um objeto exposto à venda na vitrine da loja.

Os pobres, que se banhavam nas águas mornas da Lagoa da Anta, sobreviviam − muitos deles − retirando o sustento da família do mar, do lindo mar de Jatiúca. Passaram a observar o desempenho das máquinas aterrando os manguezais, derrubando os coqueirais, alterando a paisagem do lugar.

O acesso à praia foi aberto pelas avenidas Álvaro Otacílio, João Davino e pelas outras que passaram a fazer a ligação entre o bairro e a praia: Amélia Rosa, almirante Álvaro Calheiros, Jatiúca e deputado José Lages. Foi dessa maneira que definitivamente Jatiúca entrou no mapa da cidade.     

        A longa barreira formada por coqueiros gigantes foi destruída. As novas gerações não têm a ideia de quanto era bonito o coqueiral que vigiava a orla de Jatiúca. Mas, infelizmente, as denominadas urbanização e reurbanizações foram engolindo os coqueiros e a faixa de área marinha. A prefeitura vem se dedicando sistematicamente a derrubar os coqueiros, a impermeabilizar o solo e usar cada vez mais o asfalto, desnecessariamente.  

O sociólogo pernambucano Gilberto Freyre disse que o alagoano é um povo anfíbio. No entanto, isto não sensibilizou o governador e o prefeito quando entregaram a Lagoa da Anta aos proprietários das Casas Pernambucanas, à família Lundgreen, que aterrou a lagoa e sobre as suas águas ergueu o imponente Hotel Alteza Jatiúca. O primeiro cinco estrelas de Alagoas nasceu engolindo as águas mornas e límpidas da Lagoa da Anta.

A outra margem foi entregue ao ex-governador de Sergipe, para construir um conjunto habitacional, o Parque Jatiúca. Hoje a região é um bairro consolidado. A ironia é que um dos hotéis recentemente construídos chama-se Ritz Lagoa da Anta.  

        O crime perpetrado deixou, como todos os crimes, suas marcas. Restou da Lagoa da Anta apenas um espelho d’água poluída e represada que, “generosamente”, o Hotel Jatiuca protege. Os turistas tiram fotos e se admiram da beleza do local.   

Em dias de maré alta a praia amanhece com os surfistas se equilibrando em pranchas que deslizam sobre o dorso das ondas que crescem e vão quebrar no Mata Garrote, nome primitivo dessa área da praia de Jatiúca que foi substituído pelo “carioca” Posto 7.

Na antiga Lagoa da Anta, os casais de namorados às tardes e noites andavam desviando-se dos coqueiros e estacionavam à sombra ou sob a luz da lua. Abriam as portas do carro para a brisa fresca do mar entrar. O som que se ouvia eram as ondas quebrando na areia.

Os coqueiros foram derrubados e em seu lugar foram erguidos edifícios que passaram a ser vistos como a paisagem do bairro. É um novo bairro, aquele bucólico sumiu, restando o apenas o mar, o lindo mar de Jatiúca.

Andar a cavalo à beira-mar, pescar, jogar futebol, acampar, subir nos coqueiros são coisas de um passado cada vez mais distante.

        A orla está decorada com alguns poucos coqueiros, sobra daqueles coniventes das tardes e noites de amor livre. É possível, sem muito esforço físico, contá-los.

      A beleza tem sido punida em Maceió. É uma tara nefanda. Não duvidem se um dia qualquer for publicado no Diário Oficial decreto municipal com os seguintes termos: “Fica terminantemente proibido olhar a beleza do mar em Jatiúca”.

       

         

       

         

                     

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Eleições no Brasil têm Emoção, Perda da Noção e Ódio

O fenômeno das redes sociais é revelador do quanto as pessoas podem se despir no mundo virtual. O impulso em curtir, compartilhar e opinar sem a preocupação mínima em fazer a leitura, rápida que seja, no caso do texto, escutar o áudio ou prestar atenção no vídeo, tem levado ao absurdo, ao trágico e também ao hilário.

A campanha eleitoral está em curso e todo tipo de crítica – fundada ou infundada – é veiculada pelas redes sociais. Se faço a crítica na internet, em maior ou menor grau, não há como retroceder e muito menos como domesticá-la. Essa é outra discussão.  

Há empresas especializadas em postar conteúdos sérios, programáticos e inteligentes. Há também o lado B. Esse lado é o da maldade. A empresa que posta conteúdos sérios e inteligentes também pode inundar as redes sociais de difamações e calúnias, que muitas vezes atingem a honra das pessoas, candidatos a cargos eletivos ou não.

Diante da realidade cruel das campanhas no Brasil, me socorro de uma licença poética para usar um verso da música “Pois é”, do grande compositor mineiro Ataulfo Alves: “[...] a maldade dessa gente é uma arte [...].”

Tenho evitado entrar em polêmicas eleitorais; nem sempre consigo, mas pego leve. Acontece que amigos fraternos, gente com quem tenho convivido nas últimas décadas, estão vivendo um alto nível de excitação eleitoral. Algo que beira o descontrole. Não os acho fundamentalistas, pois não é caso, pela complexidade da afirmação.

Eu os definiria como fanáticos torcedores de futebol. Se os denominasse de holligans das redes sociais não estaria, creio, exagerando na classificação. O ímpeto belicoso tem sido até o momento retórico, mas nada garante que num acesso de fúria ajam com violência física, até.

Essas pessoas com quem convivo e de quem sou amigo(a), quando são contrariadas em seus “argumentos” revelam uma face autoritária, malcriada e deselegante. Alguns, claro; outros até escutam, mas não conseguem realizar uma reflexão sobre o tema tratado.

A ameaça eleitoral é fator de ira e ódio explícitos. Nada que não entendamos com racionalidade, afinal está em jogo a presidência da República.

As sentenças acusatórias são peremptórias. Marina Silva é contra o Brasil. Está a serviço dos banqueiros nacionais e internacionais. É uma evangélica fundamentalista. É tutelada pelo pastor Silas Malafaia. Quando se trata da assessoria econômica de Marina Silva, o economista Eduardo Giannetti da Fonseca é identificado como neoliberal.

E a mais hilário até o momento: Marina Silva está sendo apoiada pelo Clube Militar, organização de oficiais direitistas e de extrema direita. O Clube Militar através de uma nota oficial desanca o pau em Marina e Dilma e anuncia o apoio a Aécio Neves. Não fiz outra coisa: ri.

Li na minha página no Facebook uma série de “análises”, sempre com um recorte de “esquerda”. O apoio do Bispo Edir Macedo, proprietário da Rede Record de Televisão e Rádio. Não vejo nada de anormal nesse apoio e aliança política; Edir Macedo tem uma sigla partidária, tem bancada no Congresso Nacional.

Nem sou daqueles que ficam estupefato com a ida da presidente-candidata Dilma Rousseff ao Templo de Salomão. E também nunca me senti traído pelo ex-presidente Lula, quando nomeou o tucano e banqueiro Henrique Meireles para presidir o Banco Central.

Lula não cometeu crime de lesa-pátria também ao nomear o representante do agronegócio Roberto Rodrigues para o Ministério da Agricultura.

O presidente Lula tinha como ministros Roberto Rodrigues, Dilma Rousseff e Henrique Meirelles. O ex-presidente formou um grupo de conselheiros econômicos de amplo espectro político e ideológico. E o célebre economista da ditadura militar Antônio Delfim Netto pontificou e continua sendo, no governo Dilma, ouvido e considerado.

Finalizou com a mais estonteante aliança realizada nos últimos anos: Lula, Dilma x Maluf. Confesso que me senti incomodado. Mas como não sou petista, nem voto em Dilma Rousseff, constato que há um nivelamento por baixo.

Delfim Netto era uma espécie de secretário do demônio para a esquerda de um modo geral, e o Paulo Salim Maluf, a encarnação do demônio.

Usei aqui a expressão demônio propositalmente, já que o maniqueísmo tem predominado e a perda de noção é uma evidência clara. Eleição não é jogo de futebol. E os meus amigos e companheiros não são holligans, apesar de se comportarem como tais.

 

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As Origens do Policiamento Comunitário

Arthur Woods, comissário de polícia, trabalhou em Nova Iorque de 1914 a 1919. É possível que tenha sido o primeiro norte-americano a pensar na aproximação da polícia com a comunidade. Embrião do que atualmente se conhece em diversos países do mundo como Policiamento Comunitário. 

Esta ideia surgiu no ambiente de polícia, foi acompanhada de intensos e acalorados debates e logo se tornou tema de estudos e conferências na Universidade de Yale.

         O principal objetivo de Arthur Woods não era tão somente “incutir nas camadas rasas do policiamento uma percepção da importância social, da dignidade e do valor público do trabalho do policial” (Skolnick e Bayley: 2002:57). Buscava também tentar modificar a visão da polícia sobre a comunidade enquanto ator coletivo e social e em relação ao indivíduo, numa época em que os direitos civis, consagrados posteriormente, não eram tratados com o necessário respeito.  

Woods foi um tipo que não pode ser classificado como um teórico descolado da realidade. A polícia por ele dirigida era uma instituição racista, violenta e com desvios éticos e morais consideráveis, inclusive com altos níveis de corrupção.

Os problemas mais visíveis da sociedade americana foram superados. A segregação racista foi o principal deles. Nem por isso se podem fechar os olhos ao rastro de violência e corrupção que perdurou por muitos anos. O racismo como se manifestava nos EUA, pelo menos a sua face mais cruel e pública, foi sendo desconstruído a partir das manifestações públicas e pacifistas pelos direitos civis, dirigidas pelo líder negro Martin Luther King e por tantos outros.

Os milhões de negros foram vitoriosos, mas para tanto ocorreram batalhas com custos exorbitantes, inclusive com o sacrifício de inúmeras vidas de cidadãos norte-americanos e do próprio Martin Luther King, assassinado em Memphis em 1968.   

As ideias formuladas e difundidas a partir da segunda década do século 20 ganharam capilaridade no quase impermeável ambiente policial norte-americano. Tanto nos EUA como em outros países, a Polícia Comunitária é sinônimo de modernidade e de novas práticas policiais. Outros conceitos de atuação policial foram experimentados, e a relação direta da polícia com a comunidade gestou um novo ambiente de boa convivência e, sobretudo, de confiança mútua.

O tema tem sido cada vez mais discutido em academias de polícias, universidades e entre pesquisadores de segurança pública. A aproximação traz como resultado a valorização do papel da polícia e do policial enquanto cidadão e profissional de segurança pública. Esse é o ganho essencial para a sociedade em todas as suas dimensões. Aos poucos, impõem-se esses valores historicamente desprezados, embora o que se verbalize no interior do ambiente policial é o estado de beligerância e confronto iminente com um suposto inimigo interno, identificado como o cidadão nacional.

Os tipos de policiamentos comunitários são desde suas origens atividades restritas e especializadas. Muda de acordo com as situações de cada país e até mesmo de estados, cidades e regiões. O crescimento de áreas onde a atuação do policiamento comunitário tem trabalhado com a prevenção aos crimes transformou-se numa referência para a sociedade e para as polícias.

Isso não significa que a implantação do policiamento comunitário ocorra sem resistência. Há muita resistência interna, na corporação e entre os governos. A aceitação desse trabalho policial pela população acontece quando o policiamento comunitário cuida especificamente das suas atribuições, ocorrendo a separação desse trabalho de outras operações e ações em curso.

Woods não vivia isolado numa torre de marfim, porém “tinha um conhecimento profundo dos obstáculos consideráveis a uma reforma, inclusive da corrupção policial na cidade de  Nova Iorque. Desconfiava tanto do Serviço Civil como dos políticos, os quais, acreditava, iriam usar inescrupulosamente a polícia e o departamento policial para alcançar seus fins políticos particulares” (Skolnick e Bayley: 2002:57). 

O policiamento comunitário tem sido implantado nos EUA, Canadá, Suécia, Noruega, Dinamarca, Japão, Austrália, países desenvolvidos e em países em desenvolvimento como o Brasil. É possível voltar o olhar para as experiências do estado do Rio de Janeiro e Pernambuco, por exemplo.

A polícia comunitária não significa a resolução dos graves problemas da segurança pública, da criminalidade como fenômeno social e até mesmo da ordem pública. O policiamento comunitário é o elo essencial da Polícia com a comunidade. Desse modo, o diálogo estará aberto e os inúmeros conflitos sociais tendem, na maioria dos casos, a ser resolvidos entre os litigantes na própria comunidade.

 

 

 

Fonte:

Policiamento Comunitário. Skolnick, Jerome H. & Bayley, David H., São Paulo, Ford Foundation, Nev – Núcleo de Estudos da Violência – USP, Edusp, 2002, p. 57.

 

 

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Guido Mantega é o Nome do Bode

A política econômica do governo federal, quem definiu foi a “gerente da casa”, a presidente Dilma Rousseff. Desde a sua posse a presidente interfere nos rumos da política econômica. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, executor da política presidencial, agora que os resultados negativos se apresentam, sobrou para ele o saldo negativo debitado em sua conta-corrente: o fracasso da economia, o baixíssimo crescimento nos últimos quatro anos e a recessão. 

          “O Guido já me comunicou que ele não tem como ficar no governo em um segundo mandato por razões eminentemente pessoais, que peço que vocês respeitem” − esse foi o teor do comunicado de Dilma Rousseff aos jornalistas.

         O mais longevo ministro da Fazenda do período republicano foi sacrificado. Alguém teria de ser sacrificado, e Guido Mantega está sendo conduzido ao cadafalso. Perdeu o pescoço na guilhotina.

A explicação encontrada pelos estrategistas da campanha e/ou do governo foi a queda nas intenções de votos, a opção do empresariado nacional, que descontente fez opção por Aécio Neves ou Marina Silva, pelo menos parte considerável dele. A indústria atinge índices de crescimentos negativos. E o desemprego começa a ser uma evidência.   

         Sacrificar o ministro da Fazenda é um detalhe sem importância nesse jogo. O inusitado é o Brasil em meio às eleições ter um ministro da Fazenda que não comanda mais a politica econômica.

Dilma Rousseff tenta atabalhoadamente mandar sinais aos investidores, ao mercado e ao empresariado nacional de que vai mudar a política econômica.

De improviso em improviso a recessão se aproxima e passa a ocupar um espaço que o Brasil não lhe oferecia faz muitos anos.

O ministro Guido Mantega é o bode. Para resolver o imbróglio, demite-se o ministro.

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Petrobras

Petrobras

 

       Eleição no Brasil e em muitos países não tem limites éticos e morais, pois tudo é utilizado para se chegar ao Poder. Mentir, difamar, criar e recriar “fatos” faz parte do cardápio.

        Eu sou dos que não acreditam no “jornalismo” praticado pela revista Veja. Quanto ao direito  de ser  a porta-voz da direita nacional e internacional, não censuro. Agora, quanto ao tipo de jornalismo, ah, nesse eu não confio.

        A  revista  tem  feito  uso  de  requentar  e  de até  criar “notícias”, como a matéria  sobre  Paulo  Costa, ex-diretor  da Petrobras, preso em Curitiba, acusado de corrupção e que tenta obter o benefício da delação premiada. Para isso “vazou” nomes de políticos envolvidos com a corrupção na Petrobras. Isso merece ser aprofundado.

Vejamos: o ex-governador Eduardo Campos orientou as bancadas do PSB na Câmara dos Deputados e no Senado Federal a votar a favor da instalação da Comissão Parlamentar de Inquérito. Para a Direção Nacional do PSB, não há acusação digna de honesta consideração. Há, apenas, malícia.

Eduardo Campos, ainda em 2013, defendeu publicamente uma completa, ampla e transparente investigação das denúncias de corrupção dentro da Petrobras – inclusive sobre as obras da Refinaria Abreu e Lima.

O jornalismo honesto não desconsidera tal fato. Mas, como se aproximam as eleições e o candidato da elite econômica nacional e internacional está desidratando e a candidata à reeleição, Dilma Rousseff, está ameaçada eleitoralmente pela ex-senadora Marina Silva, não custa tentar alavancar o candidato Aécio Neves.

Isso vale também para os partidários da candidata à reeleição. Tentam colar em Marina Silva tudo aquilo de que no passado foram vítimas. Caluniam, apresentam denúncias infundadas, destilam ódio.

É o vale-tudo para permanecer no poder.

Não vamos desistir do Brasil, gente.

 

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Resistência à Ditadura em Pariconha

A Comissão da Memória e da Verdade Jayme Miranda (CMV-JM) realizou uma sessão pública no dia 2, no plenário da Câmara Municipal de Pariconha (AL), para ouvir ex-presos políticos e familiares.

 

A comissão foi representada por quatro dos seus membros: o coordenador e advogado Delson Lyra, a professora Alba Correia, a funcionária pública Olga Miranda e o historiador e assessor voluntário Geraldo de Majella.

 

         A Comissão ouviu Josué Correia, Arlindo Perigoso, José e Jaime Correia. Os depoentes, visivelmente emocionados, prestaram informações e relataram o sofrimento imposto pela repressão durante as prisões e também as perseguições após serem soltos.

 

        Jaime Correia, um dos perseguidos, denunciou à comissão as circunstâncias pelas quais a sua esposa perdeu o primeiro filho. “Pariconha tinha apenas quatro carros, e por discriminação política, três proprietários recusaram-se a socorrer a minha esposa. Não havia médico em Água Branca. Quem precisava de tratamento tinha de ir até Delmiro Gouveia. Nós não tínhamos carro, e o fato é que durante muitas horas a minha mulher ficou sofrendo, perdendo sangue. Quando conseguimos chegar ao hospital, não foi possível salvar o nosso filho, pois num parto complicado a criança morreu. Esse fato desumano marcou a nossa família e dói até hoje.”

 

A presença de militantes da Ação Popular (AP) em Pariconha tinha como objetivo a organização e a formação política dos trabalhadores rurais. A AP influenciou decisivamente na organização do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, na criação da Cooperativa dos Trabalhadores e também na criação do Clube de Mães.

 

Os depoimentos revelaram em detalhes as circunstâncias em que se deram as prisões e as sessões de torturas físicas e psicológicas. A Polícia Militar prendeu Maria Auxiliadora Cunha Ferreira (Dodora) com os filhos André e Priscila, e Rosemery Reis Teixeira (codinome Rosa) e a filha Rita, trazendo-as com as crianças para o Quartel Geral em Maceió, onde permaneceram durante alguns meses, numa sala imunda da Policlínica da PM.

Os ex-lideres estudantis Aldo Arantes e  Gilberto Franco Teixeira, maridos das presas, na ocasião das prisões  estavam viajando. Ao retornarem à Pariconha foram presos e levados para Maceió.

 

Os homens foram presos na delegacia do Dops, de onde, alguns meses depois, conseguiram fugir com a ajuda de militantes de AP e de um dos dirigentes do PCB, o médico José Albuquerque Rocha.

 

Em Pariconha ocorreu mais de uma dezena de prisões. Alguns dos presos foram levados para a delegacia de Água Branca (naquela época Pariconha era um distrito e  pertencia a Água Branca); outros presos foram para Maceió.

 

Família Correia

 

A família Correia foi uma das mais atingidas pela repressão. Os principais líderes eram José, Josué e Jaime Correia.

 

Esse ramo da família tinha dez membros entre os pais e filhos com militância sindical e política no sertão alagoano, em Pariconha (Água Branca) e em São Paulo, para onde a família migrou no final da década de quarenta.

 

Jaime Correia, com quem conversei, foi quem detalhou as atividades dos membros da família. Disse que João Correia Sobrinho e Maria São Pedro Correia, os pais, e os oito filhos (José, Josué, Jaime, Geraldo, Gelza, Judite, João e Gilberto Correia) iniciaram a militância através da luta sindical e no processo de formação sindical ocorreram os primeiros contatos com a militância de AP. Esse fato foi marcante e mudou a concepção política de todos os membros da família e de muitos outros trabalhadores rurais e líderes sindicais da região.

 

Curso na China

 

O líder sindical José Novais era a principal referência politica e sindical de Água Branca. Após o golpe militar foi enviado pela direção nacional da AP para fazer um curso político-militar na China. A experiência chinesa levou o líder sindical alagoano a montar uma Escola de Formação Político-Militar em Pariconha. Vários militantes estiveram clandestinamente na região e também muitos militantes da região participaram desses cursos.

 

Esse capítulo da História de Alagoas vem ganhando luzes, e a sessão realizada pela Comissão da Memória e da Verdade Jayme Miranda contribuiu para que fossem revelados fatos novos, contados pelos personagens dessa história que também é nossa.

 

 

 

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Marina Silva Segue Firme

 

A entrada de Marina Silva na disputa presidencial não era previsível, pelo menos para os analistas e estrategistas das duas principais campanhas. Aconteceu em decorrência do desastre aéreo que vitimou Eduardo Campos, os assessores e os dois pilotos. Diante da nova realidade, a ex-senadora se tornou uma séria concorrente ao cargo de presidente do Brasil.

A Marina Silva, professora, militante política e ambientalista, senadora representante dos povos das florestas, ao divergir do núcleo dirigente do PT, ou seja, da burocracia política, foi arremessada em direção ao ostracismo. Essa era a intenção dos dirigentes, mas não foi possível: em 2010 disputou as eleições presidenciais e recebeu quase 20 milhões de votos.

Daí em diante cresceu ainda mais o seu potencial eleitoral e a penetração social, no Brasil e no exterior.  Marina é o principal nome do ambientalismo nacional.   

A disputa pelo poder não é para amador, dizem os profissionais. O processo de “desconstrução” está em curso. As redes sociais têm sido o principal território de ataques. É o vale-tudo, sem nenhuma cerimônia. Não há nada novo nesse universo.

A cada pesquisa anunciada, Marina Silva vem crescendo, e na última pesquisa realizada pelo Datafolha e divulgada no dia 29 de agosto, Marina e Dilma estão empatadas com 34% cada uma; o terceiro colocado, Aécio Neves, com 15%, continua em queda livre e vai se consolidando na terceira posição, com menos intenção de votos a cada pesquisa.

A cada ponto percentual em favor de Marina, mais pancada sofrerá. Até prova em contrário, a pancadaria tende a aumentar, é previsível. Acontece que as intenções de votos vão crescendo em seu favor.

O fundão da floresta amazônica pode ter uma representante no Palácio do Planalto: Marina Silva. Pelo menos é o que indicam as pesquisas de intenção de votos.     

 

 

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