Marcelo quer falar o que Moro não quer ouvir

          Escolhemos a pior forma de combater a corrupção e outras mazelas da vida pública. Escolhemos o caminho da personificação dos males em um partido. Por essa lógica a corrupção e as pedaladas fiscais só configuram crime na esfera federal. A posição do MP em relação a delação de Marcelo Odebrecht diz muito a respeito disso. Marcelo tem muito a falar, mas pro MP importa apenas saber a suposta ligação da Odebrecht com obras em um certo sitio em Atibaia.

          A Odebrecht está enraizada até a alma na construção de obras tocadas pelos governos estaduais, pagou propinas pra "Santos, Mineirinhos, Atletas e Nervosinhos. Porém colocar o dedo nessa ferida agora é de certa forma desvelar o véu de relações apartidarias que dinamitaria o sistema político como um todo. Não convém fazer isso agora pois que o objetivo político da Lava-Jato está muito próximo do seu desfecho. Agora curiosamente não interessa revelar aos governados como agem nas sombras os seus governantes. Não convém agora comprometer uma narrativa que foi cuidadosamente construída ao longo de dois anos. Os crimes cometidos pelo governo federal tornam-se pequenos desvios toleraveis quando são reproduzidos em outras esferas.

          Esquece-se convenientemente que temos uma estrutura federativa e que a oposição governa alguns importantes Estados dessa federação. Agora exdruxulamente Marcelo quer falar e Moro não quer ouvir, e isso me lembra aquela birra de garotos quando um fala enquanto o interlocutor fecha o ouvido e canta tralálálá. Não deixará de ser simbólico a cena quando após um eventual impeachment o presidente Temer envolvido na Lava-Jato transmita o cargo pra Eduardo Cunha para sua primeira viagem internacional. Nesse momento os movimentos que combatem a "corrupção" não terão tempo pra esboçar um protesto pois estarão ocupados demais comemorando a queda do Lulopetismo e pedindo cadeia pra Lula. A corrupção estará definitivamente personificada como convém ao roteiro original.

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Brasil: procura-se um santo

          O Brasil chegou ao pior dos consensos e a pior das divergências. O consenso em torno de um projeto econômico que já não é mais objeto de discussão pelos atores políticos, nos leva a discutir apenas que partido ou coalisão teria mais capital político para implementá-lo.

                A divergência, portanto, assume um caráter inócuo e subjetivo na medida em que não estamos mais debatendo um projeto de país e sim, quem vai implantar um programa e uma agenda que é supostamente o produto de um consenso nacional.

É forçosamente, nesses momentos, que uma sociedade reduz o debate político a uma questão meramente moral.

          Quando um debate político se reduz aos aspectos morais numa democracia jovem, caracterizada pela promiscuidade da relação entre agentes públicos e privados, pavimenta-se, então, o caminho perfeito para a judicialização da política.

          As duas últimas décadas redesenharam o perfil das principais agremiações políticas no Brasil de modo a operar uma falsa dualidade ideológica entre o PT e o PSDB, caracterizando uma espécie de bipartidarismo arbitrado por uma terceira força política encarnada no PMDB, que retiraria a sua força da sua lógica cartorial.

          De alguma maneira, a falsidade desse antagonismo, precisamente no momento atual, se assemelha com a também falsa dicotomia entre conservadores e liberais nos tempos imemoriais do império.

          Do ponto de vista sociológico, se levássemos a sério essa dualidade, seria forçoso observar que ela estaria condenada ao fracasso, pois, um país com formação e demandas tão complexas jamais caberia nessa agenda esquemática e propositalmente polarizada.

          Ao chegar ao poder no inicio dos anos 2000, O PT já havia abandonado, por meio de sua direção majoritária, boa parte da semiose classista que esteve na base da sua formação e tinha incorporado na esfera discursiva o programa social democrata que ironicamente está nos alicerces de formação do PSDB.

          O movimento pendular que levou o PT a incorporar o discurso socialdemocrata o levou rapidamente a assimilar uma agenda de direita na qual a interlocução com o trabalhador foi substituída pela interlocução com o povo e o discurso da luta de classes foi substituído pelo discurso da conciliação que resgatava a utopia de humanização do capital.

          Em meio a revezes eleitorais e assistindo a corrosão do diálogo com a sua base social original, o PSDB se viu empurrado para a extrema direita e aceitou ser instrumentalizado por essas forças conservadoras.

          A despeito dos sentimentos e paixões que se tornam mais agudos em determinados momentos, há muito que o PSDB e o PT pauperizaram o vocabulário político e unificaram grande parte da sua agenda econômica; o discurso pauperizado precarizou ainda mais a inteligibilidade da sociedade sobre os nossos reais e dramáticos problemas.

          A inteligência nacional que se origina desse debate distorcido é essa que hoje vaga a procura de um santo para encaminhar a resolução dos problemas nacionais. E é ai que os problemas começam.

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O Drama dos Refugiados Árabes no Cinema

          No dia 7 de março o projeto Saber em Debate, em parceria com o professor Jaguar Neto, dá início a uma série de eventos realizados às segundas-feiras no espaço do Cine Arte Pajuçara.

          No primeiro evento, os professores Luiz André Medeiros e Gustavo Pessoa darão a largada para o projeto Diálogos & Debate e debaterão, numa perspectiva filosófica e humanística, o drama dos refugiados árabes no continente europeu.

          Para enriquecer o debate, convidaremos pensadores como Kant, Slavoy Žižek e Jurgen Habermas. Em seguida, os professores Jaguarassu e Jaguar Neto fecharão a noite em grande estilo com uma super aula de matemática básica, competência bastante exigida no ENEM.

          Reafirmando o nosso compromisso de manter um diálogo humanitário, o aluno deverá levar uma lata de leite Ninho, que será doada para a organização de apoio aos doentes em tratamento contra o câncer. Para não ficar de fora garanta a sua vaga no Mais Isoladas. Inscrições até sexta.

Evento: Aulão 40% Redação e Matemática

Local: Cine Arte Pajuçara

Quando? segunda-feira, sempre às 18h:30min.

Inscrições: Mais Isoladas 3031-3610 mediante uma lata de leite ninho.

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Sobre anos que não acabam e relógios parados

        Martin Luther King disse certa vez não se importar quanto tempo viveria na vida, pois que sua grande preocupação era como viveria no tempo.

        Nós, profissionais da História nos relacionamos com o tempo com uma grandeza incerta, pois que há momentos em que a História  acaba por dar razão a Trótski e o relógio se acelera.

        A intensidade do que se processa em um dado momento histórico pode deixar sequelas e produzir transformações fantásticas na história de uma sociedade. É a tal da História de curta duração.

        1968 talvez tenha sido isso: um ano que valeu por séculos e o Maio de 68, então, foi o mês que valeu por décadas. Com uma sincronia poucas vezes vistas na história, flores começaram a desabrochar em várias partes do mundo sob a forma de revoltas que questionavam um modelo de sociedade que as gerações mais antigas desejavam petrificar.

        Era até natural que aqueles senhores, que já haviam passado dos 60, transpirassem profundo conservadorismo quando lembramos, que aqueles outrora moços e moças, tinham visto a sua juventude escapar pelas mãos na tragédia das duas grandes guerras mundiais.

        Para aqueles cansados anciãos franceses, lutar pela estabilidade e pela supremacia do prosaico era a grande utopia. Nada que pudesse carregar em si o germe da transformação era bem recebido.

        Pois, é justamente nesse contexto lacônico e de relações congeladas que se dá a erupção do vulcão de 68, que com o seu magma crítico se põe a questionar o cotidiano e rompe o invólucro dos insossos padrões comportamentais.

        De Stanford a Nanterre, passando pela UFRJ, estudantes do mundo inteiro pareciam ter acordado com uma sentença de morte na cabeça e era preciso correr contra o tempo para que os sonhos fossem realizados.

        Quem quer conter as transformações jamais irá compreender o que se passa na cabeça de um revolucionário. Charles de Gaulle sabia de Daniel Conh Bendit tanto quanto Luis XVI sabia de Jean Paul Marat e ambos não tinham a menor noção a respeito da força histórica com a qual iriam se debater.

        Reza a lenda que Luis XVI teria indagado a um dos seus acessões sobre os acontecimentos de Paris e se aquilo se tratava de uma revolta, no que o assessor respondeu se tratar de uma revolução.

        Quase duzentos anos depois, Charles de Gaulle perguntaria perplexo a um dos seus assessores porque os estudantes e aos estudantes de Nantes, faziam tanta questão de dormirem nos mesmos dormitórios, se podiam se encontrar nos cinema e nos jardins. A surpresa de ambos, é um sinal de que sem corda, o relógio da história pode parar, mas, mesmo com relógios parados, o tempo continuará embalando dias, tardes e noites.

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O Brasil de Darcy Ribeiro

Foto: Saber em Debate 1861194b c14d 49fc 9791 ff752fb9194d 10ª Turma de Redação

          O Brasil talvez tenha sido palco da maior miscigenação ética ocorrida na história. Tal processo alimentou em determinados intelectuais o mito da democracia racial. Em outros momentos, quando muitos buscavam respostas para os nossos inúmeros problemas, a miscigenação foi vilanizada e passou a ser responsabilizadas por nossas deformações sociais.

          Para esses, a superação dos nossos obstáculos pressupunha uma estratégia de branqueamento do país através do estimulo a imigração europeia.

          Coube a Darcy Ribeiro enfrentar esses mitos; durante a sua longa trajetória pela vida o carioca, que nos deixou há 19 anos, foi um dos sujeitos mais interessantes desse tal povo brasileiro, que ele tanto lutou para conhecer.

          Professor, antropólogo, senador da República, ministro de Estado em duas ocasiões, idealizador e primeiro reitor da UNB, o velho Darcy se alimentou de duas obsessões: descobrir a origem dos nossos problemas e elaborar uma política educacional que pudesse dialogar com um país de dimensões continentais e formação cultural tão multifacetada.

          É de Darcy a tese, depois amplamente aceita por historiadores, de que o processo de miscigenação no Brasil obedeceu  a uma lógica violenta, na qual o elemento europeu acaba por subjugar os negros e os ameríndios, esses últimos exilados na sua própria terra.

          “Ninguendade” é o termo criado por ele para se referir aos milhões de ninguéns (mamelucos e afrodescendentes) que vagavam a procura desesperada de uma identidade ou de alguma relação de pertencimento com o lugar onde haviam nascido e estavam inseridos.

          O processo de formação do povo brasileiro passa, portanto, na visão do mestre, pela negação parcial ou total das identidades étnicas e culturais dos seres que aqui já estavam (índios) e dos que aqui chegaram (negros e europeus), para no final, acentuar o patamar civilizatório do elemento branco e cristão.

          Como todo povo que se forma a partir da negação das suas identidades, o brasileiro seria um ser marcado pelo signo da incompletude, eternamente em busca da sua árvore genealógica e pouco orgulhoso daquilo que se tornou.

          A sua grande obra conseguiu articular como em poucos casos, a teoria e a práxis e aqui nos referimos a uma prática militante: o ativismo de quem montou trincheiras contra o golpe militar de 64 e havia lutado anos antes pela criação da UNB[1] na recém-inaugurada capital do Brasil.

          Na semana em que recordamos mais um ano de sua morte, esse espaço, voltado para a educação, não poderiam deixar de homenagear Darcy Ribeiro um dos principais formuladores da LDB[2] e um dos principais ativistas na luta pela educação no país.

 

 

[1]Por ocasião da criação da Universidade de Brasileira (UNB) havia muitas vozes  discordantes que afirmavam que a concentração de estudantes no centro do poder geraria com o tempo instabilidades políticas que deveriam ser evitadas.

[2] A Lei de Diretrizes e Bases da educação foi criada no ano de 1996 com a  finalidade de regulamentar a educação brasileira.

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Alguma coisa está fora da ordem

Já se vão quase 60 anos daquela campanha radicalmente polarizada na qual Kennedy venceu Nixon com uma diferença de 0,1% do eleitorado, mas que se traduziu em ampla vantagem no colégio eleitoral pelo triunfo nos estados mais expressivos.

O país já havia encerrado a sua lua de mel com Eisenhower e começava a sentir os efeitos de uma crise econômica que se manifestava através do aumento da inflação e das taxas de desemprego.

Foi também a primeira grande campanha eleitoral do Ocidente na qual o papel desempenhado pela televisão foi um fator decisivo para influenciar a escolha do eleitorado, até hoje os quatro debates realizados ente os dois candidatos continuam sendo objeto de estudo para o marketing político.

No auge da guerra fria, Kennedy era um jovem e promissor político católico de Massachussetts enfrentando Nixon, um verdadeiro animal político com larga experiência acumulada como vice de Eisenhower.

O jovem e milionário político, descendente de irlandeses criticava a indiferença do Estado em relação aos graves problemas do país e denunciava as limitações do mercado para corrigir as graves distorções sociais, sobretudo aquelas que aprofundavam o fosso entre negros e brancos e entre o sul e o norte do país.

Exatos 56 anos depois, os resultados parciais das prévias de New Hampshire revelam, novamente, que o bipartidarismo norte-americano reassume a coloração ideológica perdida nas últimas décadas, diminuindo e enfraquecendo o discurso dos setores moderados de ambos os lados.

Desde o polêmico governo de Ronald Reagan que as diferenças entre republicanos e democratas haviam sido reduzidas a questões pontuais, quase sempre relacionadas a política externa do país.

As eleições primárias para a escolha dos dois postulantes ao posto de homem mais poderoso do mundo, revelam um eleitorado mais permeável ao discurso ideologizado e mais rarefeito à moderação.

É nesse contexto que podemos enxergar fenômenos como Donald Trump e Bernie Sanders; o primeiro, encarnando o espírito doutrinário do Tea party, postula um liberalismo radical no campo econômico, simbolizado pela crítica incisiva ao Obamacare, amalgamado com um conservadorismo moral que se traduz na defesa intransigente do fechamento das fronteiras, recentemente chegou a  propor que o governo mexicano arcasse com os custos orçados em 8 bilhões de dólares para a construção de um muro na fronteira entre os dois países.

Sanders, por sua vez, tornou-se o pesadelo de Hillary Clinton, resgatou o discurso social democrata, a tempos adormecido nas principais fortalezas democratas, denunciou o desastre das intervenções externas do país e propôs uma repactuação com base em um novo New Deal, atribuindo ao Estado um papel decisivo como indutor de um novo modelo de crescimento econômico. É também de Sanders as críticas mais contundentes ao que ele tem chamado de consensos artificiais em torno das políticas austeridade fomentadas por Wall Street.

Sanders e Trumph podem até ficar pelo caminho, é até provável que na reta final o eleitorado americano opte por soluções menos intempestivas, mas o desempenho de ambos reforça o raciocínio de Noam Chomsky que enxerga semelhanças entre o atual momento com o período entre guerras, em que os radicalismos alteraram o estabelichment politico, solapando os discursos mais moderados.

                Talvez seja cedo para dar razão a Chomsky, mas os fenômenos do norte, certamente, apontam para um horizonte de profundas alterações na ordem mundial.

 

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O Brasil é uma nação (ainda) a ser descoberta

          Em 1889, logo após a proclamação da república, o Brasil era um país habitado por 14 milhões de pessoas das quais apenas 7 mil tinham curso superior. Nesse imenso país cuja superfície territorial equivale a soma de quase todos os países europeus, havia, no máximo, 3 mil escolas.

          A Imprensa escrita começava a ganhar alguma musculatura, porém, os jornais eram objeto de leitura de uma pequena classe média letrada a quem caberia, a partir desse momento, desempenhar o papel de difundir no imaginário coletivo, sobretudo nas grandes cidades, uma versão sobre a história do país.

          Nas pequenas cidades ainda se cultivava o hábito de reunir parte da população analfabeta em praça pública, que assistia atenta a leitura de jornais, geralmente, feita por alguns poucos “sábios”.

          O primeiro ministério da educação só viria a surgir bem depois no governo provisório de Vargas; fomos uns dos últimos países do continente a ter uma universidade[1]; para efeito comparativo, é importante registrar que já haviam universidades em pleno funcionamento na República Dominicana e no Vice-Reino do Prata[2], ainda no século XVI.

          No Brasil, a elite católica criou, conscientemente, fortalezas materiais e ideológicas que dificultaram o acesso a literatura. As sequelas dessa arquitetura histórica permanecem abertas num país que hoje cultiva, no seu imenso território continental, menos salas de leitura do que a capital da Argentina.

          Bem à frente da nossa realidade, nos Estados Unidos do sec. XVII, as universidades de Harvard e da Pensilvânia já atuavam na produção do conhecimento, num ambiente marcado pelos baixíssimos índices de analfabetismo.  

          Ler é o primeiro passo para a libertação dos indivíduos, além de ser a  seiva que pode alimentar nos atores sociais um espírito público, pelo qual os sujeitos passam a  exercer a grandiosa tarefa de se autogovernar.

          A literatura, dentre todas as manifestações artísticas, talvez seja a que mais pavimente o processo de humanização dos sujeitos e a que melhor expresse a genialidade humana. Negar o acesso a literatura foi a ação mais irresponsável dentre as muitas protagonizadas por uma elite política e econômica, que com isso, esvaziou o espírito público do nosso povo, privatizando para si o controle do Estado e dos seus aparelhos ideológicos.

          No inicio do sec. XXI ainda temos diante de nós o desafio de criar pontes que tornem possível o acesso da população ao mundo mágico e imaterial da Literatura. O Brasil é uma nação (ainda) a ser descoberta.

 

[1] Data de 1920

[2] País hoje conhecido com Argentina

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O Pensamento Civil e as Teorias Sociais

        Gilberto Freire e Sérgio Buarque de Hollanda foram, talvez, ao lado de Florestan Fernandes, os três grandes responsáveis pela gênese de um pensamento sociológico genuinamente brasileiro. Mas, olhando em retrospectiva, a exceção de Florestan, os dois primeiros, elaboraram impressões sobre o Brasil que parecem, à luz dos nossos tempos, carecer de base científica. 
        Freire romantizou a escravidão e construiu um projeto sociológico que pretendia negar o racismo a partir de uma visão segundo a qual, o negro foi incorporado a sociedade brasileira através de um processo permeado por docilidade e afeto.
Por essa perspectiva, os entremeios entre a casa grande e a senzala seriam separados por aspectos culturais, negando assim, um racismo calcado em elementos científicos, que atribuía ao negro a sua condição “natural” de sujeito inferior.
Buarque de Hollanda, a sua maneira, se debruçou por sobre o mito, anteriormente criado por Freire, para elaborar a sua teoria do “homem cordial”, segundo a qual, o brasileiro seria uma espécie de ser que traria na sua natureza uma aversão as instituições, naturalizava-se a partir daí, a imagem do brasileiro como um sujeito afetuoso, indolente e suscetível à corrupção.
        Essa sociedade civil, amorfa, iletrada e gelatinosa, seria facilmente manipulada pelos donos do poder que na visão de Raimundo Faoro, utilizaria um Estado de bases patrimonialistas na qual a fronteira entre o publico e o privado desapareceria em beneficio do enriquecimento pessoal e da manipulação de amplos extratos sociais.
        A esfera pública desapareceria dando lugar a uma sociedade privatizada e um povo sem espirito público. Portanto, a sociologia clássica brasileira que precedeu Florestan foi construída sob o tripé mitológico da negação do racismo/homem cordial/estado patrimonialista.
        As evidências desse tripé não lhe conferem um caráter cientifico e tanto Freire quanto Faoro e Buarque criaram uma inteligência coletiva assimilada majoritariamente pela sociedade brasileira, e, nesse contexto, o brasileiro absorveu sobre si mesmo, a imagem de sujeito dócil, avesso a rupturas, passivo diante de um estado corrupto e que historicamente procurou ignorar o ódio.
        Mas, uma rápida pesquisa histórica revela que o ódio sempre esteve entre nós. Num momento em que celebramos os 150 anos de Euclides da Cunha, é oportuno lembrar que naquela ocasião, dois países se enfrentaram: o Brasil do litoral – dos brancos racistas – no fundo odiava o Brasil dos sertões – de negros, bárbaros e fanáticos. 
Muito mais do que o estado brasileiro a destruição de Canudos atendia a uma demanda das nossas elites.
E nesse jogo de ódios mútuos, aquela chama de esperança acabou sendo violentamente apagada por uma república nova e irresponsável, tão irresponsável quanto até hoje se mantém.

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O Cidadão do Mundo

As primeiras questões da ideia de cultura-mundo vêm da Grécia Antiga na visão de Alexandre  - através da noção do mundo cosmopolita, é um dos valores mais importantes da tradição intelectual no ocidente. Dante já escrevia “Minha pátria é o mundo em geral” e Schiller, no final do século XVIII, dirá que o sentimento de pátria é um “instinto artificial”, declarando:

“Escrevo na qualidade de cidadão do mundo. Bem cedo perdi minha pátria para trocá-la pelo gênero humano”. Nossa intenção, nesse espaço, é buscar um humanismo universal que não quer enxergar nos outros inferioridade, que se recusa a pensar como um homem da cidade, e sim como um cidadão do mundo.

O projeto Diálogos & Debate inicialmente foi pensado para ser um espaço interativo entre intelectuais e estudantes fomentado discussões sobre os temas mais candentes do mundo  atual numa perspectiva histórica, filosófica, antropológica  e sociológica. Nesse espaço daremos voz a pensadores como Nietzsche, Foucault, Locke, Marx, Hegel, Arendt, Sartre, e a teóricos de nossa existência como Habermas, Zizek, Fukuyama, Lipovetsky, Bauman e outros. A princípio, o Diálogos  & Debate seria voltados apenas a vestibulandos.

Mas, posteriormente, tornou-se  maior do que aquilo que foi pensado e, hoje, ganha um perfil diferenciado, sendo um polo de atração  para todos aqueles  que se interessam  pelos grandes  debates contemporâneos  num mundo em que a informação  se tornou um capital valiosíssimo.

Estejam todos convidados a participar do nosso blog com a certeza de que se em algum momento foi difícil ler os clássicos, muito mais difícil, nos dias de hoje, é ler e compreender a realidade.

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