Artigo: A falta de Bauman para a “Multidão Solitária”

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A morte “prematura” do gigante polonês Zygmunt Bauman, abre uma fecunda discussão sobre a continuidade de suas ideias e a percepção de quão vulnerável está essa “Multidão Solitária” chamada sociedade moderna – que habilmente o autor chamava de “sociedade líquida”.

Escrevendo sobre as mais diversas questões do mundo atual, Bauman partiu da constatação dos desastres sociais aos quais a sociedade contemporânea chegou: miséria, catástrofes ambientais, desigualdades sociais extremas e a barbárie que passamos. Para ele, muitos elementos contribuíram para a passagem do estado sólido da modernidade para uma qualidade fluida,  identificando  alguns fatores dessa passagem. Analisando a condição urbana, ele entende que as cidades são, por excelência, os locais onde acontecem todos as contradições, onde se vivem os paradoxos da globalização, principalmente os que derivam do mal-estar que leva a sensação generalizada de insegurança.

Sob sua óptica, analisando de forma profunda as relações de solidariedade, nossa sociedade vive o fenômeno em que as pessoas convivem lado a lado, mas dificilmente aprofundam os contatos, o que torna cada vez mais raro o relacionamento genuíno entre dois indivíduos. Entende que as pessoas se tornam coisas que podem ser adquiridas, consumidas e descartadas – critica: “é preciso diluir as relações para que possamos consumi-las”.

Quando me deparei com a leitura de “Amor Líquido” no começo do nosso século, já não conseguia perceber as nuances de um mundo em transformação, já que ainda vivia a vã  esperança da ideologia. Ele jogou na nossa cara e percebeu que a pessoa se torna uma mera imagem sensual a ser consumida e ejetada sem maiores delongas do círculo de contatos e do próprio âmbito da percepção pessoal. A sandice das relações virtuais e a descartabilidade do que denominou como “relacionamentos de bolso” são a tônica do “amor líquido”, pois pode-se dispor quando necessário e depois  guardá-lo.

Mostrou que, nesse mundo de incertezas, temos relacionamentos instáveis, pois as relações humanas estão cada vez mais flexíveis. Acostumados com o mundo virtual e com a facilidade de “desconectar-se”, as pessoas não conseguem manter um relacionamento de longo prazo. Pessoas estão sendo tratadas como bens de consumo, ou seja, caso haja defeito descarta-se.

Enfim, em linhas gerais, afirmou o paradoxo de um mundo em letargia, incapaz de conseguir alcançar forças para reagir. Deixa um legado e um ensinamento. Não nos mostra o caminho da salvação, mas diz o problema - a transformação que pode ser resumida nos seguintes processos: a metamorfose do cidadão, possuidor de direitos, em indivíduo em busca de afirmação no espaço social; a mudança  de estruturas de solidariedade coletiva para as de competição; a queda dos sistemas de proteção estatal às vicissitudes da vida, possibilitando um permanente ambiente de incerteza; e a colocação da responsabilidade dos fracassos no plano individual.

Trouxe-nos a culpa como castigo para os “Indivíduos por Fatalidade”, incapazes de enxergar um palmo . Segue em paz gênio.

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A questão dos refugiados no mundo e os desafios éticos

          Com a saída do Reino Unido do Bloco europeu abriu-se uma lacuna ética com relação as consequências da presença de estrangeiros, em especial os provenientes do Oriente Médio, no Velho Continente. Além da própria crise instalada na economia, o debate sobre a permanência e as questões de impregabilidade dos milhares de retirantes acidificarram ainda mais a defesa dos que votaram a favor do Brexit (a saída do Reino Unido do bloco econômico). Acompanhe agora o texto de uma de nossas alunas do projeto paralelo Redação em Debate, Paula Galvão, o qual, resumidamente, aponta diversas questões sobre esse tema tão importante na atualidade.

 

Redação da aluna Paula Galvão

 

          O renomado filósofo Immanuel Kant defende, sob a forma de imperativo categórico, ou seja, dever moral de todos, a tese de que a razão humana deve nortear a definição de leis universais. Para ser considerada moral, a ação tem que ser autônoma e refletir a máxima que o indivíduo quer ver se transformar em princípio universal. Todavia, Kant parece estar cada vez mais ausente da realidade do mundo competitivo e individualista criado, ao longo de séculos, pelo próprio homem. Faz-se mister, então, que o drama dos refugiados seja encarado como responsabilidade de todos, sendo fundamental a sensibilização que reforce a sua prioridade e urgência dentre as questões mundiais a serem solucionadas

          Não haverá harmonia enquanto não houver diálogo, tal como sugere o pensador Jurgen Habermas. Sob a égide de tal filósofo, o diálogo democrático, horizontal, no qual há a exposição de argumentos e o direito ao questionamento fundamentado, é o caminho que conduz ao consenso, sendo este, portanto, resultado de uma conjuntura de respeito, igualdade e liberdade numa socieadade marcada pelo preconceito, pela intolerância e pela discriminação, contudo, não torna possível esse acordo. A responsabilidade está, primordialmente, no diálogo político, sendo necessário um novo modelo de discurso que atinja o valor de ética universal.

          A persistência dos conflitos políticos representará a perpetuação desse trágico cenário, atualmente vivido, segundo dados da ACNUR, por mais de 65 milhões de pessoas. Adultos, jovens e crianças continuarão a protagonizar penosas e indigestas cenas de fuga, almejando encontrar acolhimento em algum lugar que lhes ofereça proteção e possibilidade de sobrevivência. Logo, a sensibilização consiste na ajuda imediata aos refugiados, mas também na imaturação, por parte da sociedade, da postura egoísta e imoral dos Estados envolvidos e na elaboração de políticas duradouras que visem dar condições de acesso a setores como saúde, educação e trabalho, para assegurar não só a vida dessas pessoas, mas a qualidade dela.

          Por conseguinte, é fundamental a cobrança da ONU para que potências mundiais, como EUA, ofertem asilo aos refugiados, com o fito de diminuir o sofrimento destes e dividir a tarefa com os países europeus. Para tal, é essencial uma maior sistematização do processo de acolhimento dos imigrantes, por meio do cadastramento de informações dos indivíduos e da criação de centros em locais estratégicos, como a África, destinados a abrigá-los. É oportuno, ainda, que a ONU sugira aos governos desses países o estabelecimento de cotas destinadas à subisistência daqueles que adentrarem seus territórios, buscando auxílio na condição de refugiados.

 

Nota da Aluna:

 

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O tropeço do Gigante Europeu - será esse o início do fim do bloco?

 

          A Europa foi palco de alguns dos mais sangrentos conflitos da história, foi o teatro de operações principal das duas grandes guerras mundiais. Em 1945 era um continente destruído, repleto de nacionalidades amorfas que buscavam o resgate da sua autoestima em meio as ruinas físicas e psicológicas do nazifascismo. Sob esse cenário apocalíptico jaziam 6 milhões de judeus e 20 milhões de russos, dentre outras etnias dizimadas

          Foi nesse contexto que teve inicio de forma embrionária a ideia de uma união entre os estados europeus como forma de integração e pressuposto para a superação de conflitos históricos.

          A ideia da unificação, naturalmente, encontrava obstáculos nas identidades culturais solidamente construídas em tempos imemoriais e em nacionalismos extremados que sobreviveram ao debacle da Segunda Guerra e se fortalecem no contexto de crises econômicas.

          A utopia de uma grande nação europeia capaz de se contrapor a liderança norte-americana e soviética no contexto da Guerra Fria, devolvendo ao velho continente um papel de destaque na geopolítica internacional, se enfraqueceu profundamente a medida que o bloco foi se tornando cada vez mais um instrumento de espoliação da Alemanha sobre os outros países membros.

          Ditando a política da austeridade fiscal, os alemães passaram a se sentir cada vez mais alemães e bem menos europeus e passaram a se enxergar como a locomotiva sobre a qual pesava dezenas de vagões vazios.

          O reforço do nacionalismo germânico por sua vez, acabou por reforçar nacionalismos periféricos que recrudesceram com a crise dos refugiados árabes e o temor produzido pelas mais recentes ações terroristas.

          O fracasso da União Europeia reflete de certa forma o fracasso dos projetos de austeridade fiscal ecoados pelo eixo Berlim-Bruxelas, ao tempo que aponta para o triunfo de projetos chauvinistas marcados pela intolerância e pela xenofobia.

          Hoje, definitivamente, não é um bom dia para aqueles que alimentam esperanças por um mundo mais justo tolerante e democrático. Festejam os Trumps, Bolsonaros e Le Pens. A saída do Reino Unido da U.E. é um retrocesso civilizatório que exige de nós, progressistas, uma reflexão importante.

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Proteção social e livre mercado: uma convivência possível

          Nessa quinta-feira trazemos uma novidade em nosso blog, uma redação de um dos nossos alunos do projeto paralelo: Redação em Debate. Lá, a fim de gerarmos argumentos para o nosso objetivo principal, a redação dos vestibulares, levamos à sala de aula diversos temas de suma importância no contexto sociológico atual, temas esses bastante semelhantes aos que debatemos aqui em nosso blog.

          E para rechear de bom contéudo nossa página, trazemos a redação do aluno Deryc Cleyner sobre o tema: "Proteção social e livre mercado: uma convivência possível". Confira agora a redação de nosso aluno na íntegra:

 

Redação do aluno Deryc Cleyner

          Sob a óptica dos filósofos iluministas, o Estado surgiu para garantir os direitos fundamentais, mas não deve interferir na economia. Dessa forma, torna-se possível conciliar a proteção social e o livre mercado. Porém, essa convivência encontra dificuldades no Brasil em razão da ausência de valores meritocráticos e das disparidades sociais e econômicas.

          No livro “Uma Teoria da Justiça”, o filósofo político John Rawls defende o liberalismo com o “princípio da igualdade de oportunidades”, em que o Estado teria a responsabilidade de capacitar os indivíduos de maneira justa. Em contrapartida, tal ideologia é vista como impossível no país, já que os brasileiros têm pouca confiança nas empresas privadas quanto no sistema de governo.

          Certamente, essa desconfiança é agravada devido às intensas desigualdades presentes na nação onde grupos reprimidos histórica e culturalmente são atingidos direta ou indiretamente pelas falhas sistemáticas na proteção social. Ao mesmo tempo, o acesso dessas pessoas ao mercado de trabalho se torna mais complicado, o que diminui a população economicamente ativa.

          Portanto, para que haja convivência entre proteção social e livre mercado, é necessário que o Estado garanta o acesso de grupos sociais excluídos ao ensino, utilizando-se de programas de incentivo de adesão às escolas e faculdades, além de melhorar as instituições educacionais públicas com reformas estruturais e pagamento de salários justos aos profissionais. Ademais, as ONGs precisam facilitar a divulgação de informações relacionadas às leis não regulamentadas, como o Imposto sobre Grandes Fortunas, para que a população cobre do governo a efetivação dessas leis, garantindo, assim, a equidade social.

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O BRASIL E A CULTURA DO ESTUPRO: UMA INVENÇÃO DE 500 ANOS

          Gilberto Freyre, inegavelmente, foi um dos responsáveis pela criação de certos consensos que fundamentam a visão do povo brasileiro a respeito de si mesmo e da sua sociedade.

          Talvez, seu mais grave equívoco, tenha sido atribuir certa docilidade às relações escravistas, o que terminou por escamotear questões que resultariam num debate inevitável sobre a cultura do estupro, pouco questionada embora, amplamente nutrida em nosso país.

          Resgatamos aqui, que a miscigenação étnica foi e permanece sendo um dos aspectos mais interessantes da nossa cultura, contudo, os meios para que ela se forjasse, nos remetem a uma sociedade patriarcal e escravista, na qual o macho alfa, branco e ibérico, não conseguia conter os seus impulsos de visitar a senzala a certas horas da noite.

          Tais visitas se consumavam em relações sexuais foçadas, estupros, naturalizados e assimilados, pois, que a vítima não era apenas um personagem indefeso e vulnerável e sim, uma coisa, um objeto de seu algoz e, sabemos, não é dado a ninguém o direito de questionar o que o sujeito faz com aquilo que lhe pertence.

          É sempre bom lembrar que o protagonista do enredo acima saciava seus desejos inconfessáveis ao tempo em que se enojava da sua própria atitude, pois, até reconhecia na mulher negra determinadas qualidades, mas não conseguia atribuir a ela um caráter humano. Logo, tais qualidades a ela atribuídas, eram as mesmas associadas a um animal.

          Ora, ninguém se envergonha de atribuir beleza a um cavalo, contudo, seria degradante admitir desejos sexuais pelo equino...

          Na esteira de tais relações embrionárias, semeou-se determinadas relações sociais nas quais a mulher, particularmente, as negras, passaram a ser historicamente vistas como objeto de desejo a ser possuído na condição de seres inferiores e reificados, que como tal, deveriam se encaixar perfeitamente ao estereótipo delineado pelo elemento masculino, que se impõe como sujeito balizador das relações amplamente aceitas e sedimentadas.

          É nesse ambiente que grande parte da sociedade, não só naturaliza como se orgulha e ridiculariza a ideia da mulher frágil sendo possuída pelo elemento masculino, esperto, viril e dominante.

          Como transformar tais relações? A resposta para a pergunta pressupõe amplas discussões acerca do papel das instituições no interior da nossa sociedade e sobre o papel dos indivíduos no núcleo dessas instituições, uma vez que entendemos que a ampliação dos elementos coercitivos para os casos de estupro, ainda que seja imperativo, não modificará consensos historicamente criados e cristalizados no imaginário coletivo de uma sociedade ao longo de seus 500 anos.

          É de Gramsci a ideia segundo a qual os indivíduos portadores de uma energia transformadora, podem atuar dentro das instituições como aquele sujeito que poeticamente se viu “no centro da própria engrenagem para ser a contra-mola que resiste.”

          É essa relativa independência dos indivíduos em relação as instituições em que estão inseridos, que legitima a escola enquanto espaço capaz de se reinventar em torno da construção de uma nova cultura, plural e emancipadora, edificada em relações autenticamente humanas. E é aí, que nos vemos diante da inevitabilidade da discussão de gênero.

          Não custa lembrar que, hoje, muitas das pessoas que manifestam a sua indignação com o estupro bárbaro no Rio de Janeiro, amplamente veiculado pela mídia, são os mesmos que fazem apologia a discursos ultra machistas personificados em figuras como Jair Bolsonaro.

          Até quando ficaremos reféns da espetacularização midiática para que, enfim, possamos transformar em objeto de debate aquilo que se repete cotidianamente na nossa sociedade?

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A perversidade da desigualdade social e o planejamento familiar

          Não é novidade que o presença de disparidades sociais é uma constante em nossa nação. Por vezes, governos com propostas mirabolantes de auxilio a esses grupos sociais menos desforecidos parecem reduzir a distância alarmante entre ricos e pobres, mas a solução definitiva para equalizar tal situação é a promoção da educação para os indivíduos. Dentro desse enorme leque a ser discutido nos orgãos públicos, está a presença de uma educação voltada ao planejamento familiar, projetando, a médio e longo prazos, uma melhoria nas taxas de natalidade e mortalidade infantil.
          Dentro desse contexto, incluímos em nossa postagem de hoje a redação de Lília Mariana de Almeida Santos, aluna do projeto Redação em Debate, o qual vem apresetando excelentes resultados nos últimos anos para a provação nos mais variados vestibulares pelo país. Acompanhe agora, na íntegra, a redação dessa jovem voltada para esse tema tão importante na realidade brasileira:

          Historicamente, a cultura de possuir muitos filhos está ligada ao momento em que a sociedade era primordialmente agrícola, e a prole numerosa significava mais mão de obra. O êxodo rural, no entanto, promoveu a saída da população do campo e sua urbanização, acarretando, entre outros fatores, a favelização das cidades. Tanto a ausência estatal, quanto o poderio religioso sobre a ignorância dos periféricos passaram a ser agravantes do não planejamento familiar.

          É perceptível, até nos dias atuais, o poder que as decisões da igreja católica têm sobre a vida dos brasileiros. A contracepção torna-se, portanto, um tabu, principalmente nas regiões mais pobres do país. É preciso que haja uma abordagem mais clara do governo em escolas e, principalmente em comunidades carentes, sendo a informação o meio mais eficaz de diminuir a maternidade desenfreada e sem planejamento.

          É fundamental apontar os inúmeros casos de gravidez na adolescência e o abandono, principalmente paterno. Acaba por ser contraditória uma sociedade que julga o aborto um crime, mas que tolera o abandono de crianças, pela irresponsabilidade masculina, apoiado em uma cultura machista e cruel. Dessa forma, faz-se necessário o equilíbrio de responsabilidades entre homens e mulheres sobre seus filhos.

          O governo deve atentar para o fato de sua laicidade e não permitir interferências religiosas em suas decisões, implantando nas escolas tanto a educação sexual, como os métodos contraceptivos, além da prevenção da gravidez na adolescência. As prefeituras devem lançar campanhas que alcancem as regiões mais pobres, por meio de agentes de saúde contratados para fornecer informações. É papel do Estado liberar verba para coletivos feministas que palestrem em periferias, com o objetivo da valorização da mulher, do seu corpo e da responsabilidade masculina sobre os filhos.

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A extinção do MinC e a economia da inteligência

           É incrível a miopia que permeia determinados comentários sobre a extinção do MinC. Nas redes sociais o MinC é tratado como uma autarquia criada pra alimentar vagabundos. Desprezando toda história de 500 anos de um país escravista ignora-se que a violência a que nossas minorias foram submetidas não se restringiu ao aspecto físico.

         Ignora-se a violência cultural que esteve presente em muitos momentos da nossa história e que silenciou manifestações artísticas ao tempo que empurrava grande parte da nossa gente pro pântano de uma arte insossa, degradante e alienante, bem ao sabor do mercado e daqueles que usufruíam do poder. Agora não visão desses não precisamos do Minc pois que o estado é um ente neutro sem suas conexões com os interesses de elites dominantes e reorienta-lo pra impulsionar uma arte crítica seria um crime. Deixemos que o mercado selecione aquilo que pode atender as demandas nacionais e seremos definitivamente o país dos "Safadões". Sugerimos a esses que tentem ao menos compreender um pouco o conceito de indústria cultural pois você continuará sendo um liberal mas terá uma visão de mundo mais razoável.

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A corrupção como marca histórica no cotidiano brasileiro

          Sob o ponto de vista sociológico da questão, é fácil compreender a disparate existente ao observar-se os protestos “anticorrupção” promovidos por grupos contra e a favor do governo atual, e cenas comuns do dia-a-dia da população brasileira, acostumada a furar filas, fornecer o troco errado, sonegar impostos. Tais cenas são consequências do famoso “Jeitinho brasileiro” de Damatta, atitude desenvolvida pelo indivíduo que sobrevive uma situação social na qual os seus direitos não são preservados e os deveres são “desviados”. O texto a seguir, produzido pela aluna do nosso projeto de redação e linguagens, Emilly Guaris Costa, esclarece de maneira brilhante a visão distorcida de corrupção da maioria dos brasileiros, confira:

          Sob a visão contratualista de Thomas Hobbes, o homem em seu “estado de natureza”, é amoral, logo, fez-se necessária a criação de normas para garantir a harmonia social. A tolerância a pequenas infrações, no entanto, desestabiliza esse sistema, na medida em que minimiza a culpa sentida por quem as pratica e difunde a descrença nesse modelo.

          Como defendido pelo psicólogo Dan Ariely – da universidade Duke – a aceitação da corrupção parte da ilusão de sua normalidade que se forma com a má interpretação de sua repetição. Isto é, ao perceber a recorrência de práticas ilícitas, em vez de constatar o caráter anômico da sociedade, entende-se tais atos como triviais. Deixa de haver, portanto, a inibição propiciada pelo constrangimento e, sendo assim, torna-se vital a aprovação de leis mais severas para combater esse comportamento.

          Por outro lado, o sentimento de impunidade advindo da falta de celeridade processual e de fé no sistema judiciário expande a ideia de sociedade sem regras, o que leva ao caos previsto por Hobbes. Apesar de o método punitivo para reprimir ações corruptas e reestabelecer a ordem ser fundamental, é imprescindível adotar medidas educacionais para cultivar valores mais éticos nas mentes jovens, visto que, em longo prazo, é mais eficaz para instituir novas diretrizes comportamentais.

          Nas escolas, seguindo esse critério, é vital inserir uma matéria de construção moral e cidadão, como ensinamento de noções éticas e dos fundamentos constitucionais. A sociedade deve cobrar de seus representantes a devida aplicação penal e incentivar denúncias de atos corruptos, a partir de manifestações populares para repreender a cultura da banalização da corrupção. Somado a isso, o Estado precisa atribuir penas mais altas e aumentar a fiscalização das ações corruptas, no intuito de suprimir a sensação de impunidade.

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A liberdade vigiada das nossas escolas

   

     

          O elemento central da teoria liberal defende a tese de que, quanto menor for a intervenção do estado nas nossas vidas, mais liberdade a sociedade vai respirar.

          Por essa premissa, cada vez que um estado sanciona uma lei, a sociedade civil encontra-se mais aprisionada na sociedade politica. Poucos homens sintetizaram essa visão de mundo tão bem quanto Friedrich Hayek, numa obra clássica chamada “O caminho da servidão”.

          O paradoxal é ver movimentos, teoricamente inspirados na doutrina mencionada acima, defenderem uma legislação que dá ao estado, no início do século XXI, o direito de regulamentar a reflexão do professor numa sala de aula.

          A Lei da escola livre, aprovada recentemente em Alagoas, é a expressão de um espectro conservador que ronda a nossa sociedade disfarçada sob o manto de defesa do liberalismo. Sem dialogar com nenhuma corrente que fundamenta a pedagogia moderna, dá ao Estado o direito de limitar a ação reflexiva do professor, a pretexto de coibir uma suposta ideologização ou doutrinação que estaria implícita na abordagem temática. Quem terá a competência pra isso?

O que poderá ser tomado com doutrinação numa abordagem filosófica ou sociológica?

          Na década de 60, soldados do exército invadiram as salas da UNB para coagir com baionetas professores e alunos que estariam supostamente disseminando ideias subversivas. Em 1968 o Marechal de Gaulle, presidente da França, assistia perplexo o jovem Cohn Bendit levantar os alunos nas universidades de Nanterre e Sorbonne,  contra o conservadorismo predominante na França do pós guerra. 50 anos depois, ignora-se solenemente as lutas travadas no século passado, em nome de uma pedagogia medievalista que pressupõe uma neutralidade, transformando a abordagem teórica numa mera narrativa de fatos.

          Duro constatar que isso tudo acontece num estado que sofre com indicadores sociais alarmantes e numa sociedade que possui demandas acumuladas e historicamente abafadas. Como se não tivéssemos problemas nessa terra paradisíaca, resolvemos usar o aparato coercitivo do Estado para perseguir nossos subversivos professores, talvez porque eles sejam os verdadeiros responsáveis por nossa tragédia social.

          Em matéria de retrocesso, Alagoas continua sendo vanguarda absoluta. Não penso que isso seja apenas uma mera inocência. As pautas do Congresso Nacional estão chegando para comprovar o momento.

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A política do século XXI e as tribunas silenciosas

                Já se vão longe os tempos áureos em que o parlamento brasileiro servia de púlpito para os grandes oradores. Em meados do século XX, com a popularização do rádio e, posteriormente, da televisão, o discurso temperado com carisma pessoal passou a ser um atributo indispensável para aqueles que alimentavam grandes ambições políticas.

                Dizem que Lincoln era um grande orador, mas isso, certamente não foi o seu principal instrumento de persuasão, uma vez que poucos tiveram acesso ao seu discurso, senão sob a forma escrita, num contexto em que os meios de comunicação eram tão precários.

                Ironicamente, quando vivemos a era da comunicação rápida e as TV’s exibem diariamente e em tempo real as sessões parlamentares, o parlamento brasileiro mergulha numa profunda pauperização retórica.

 A própria chefe do poder executivo é o exemplo perfeito e acabado da assimetria entre pensamento e discurso. As tribunas da câmara e do senado, quando são ocupadas nos presenteiam com discursos hesitantes que escapam da boca de parlamentares inseguros, que estão ali, como produto de marketing ou como mimetização de relações políticas promíscuas que, ao fim e ao cabo, determinam aqueles que serão eleitos.

          A política, como fonte de persuasão perdeu espaço para as formas de cooptação mais pragmáticas neutralizando o ator político num sentido clássico, pensado pelos gregos. Lá de onde estiver agora, homens como Robespierre devem sentir vergonha da miséria retórica dos nossos parlamentares.

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