Algumas das maiores empresas nacionais divulgaram nos últimos dias seus balanços do ano passado, e o que se observa são fortes prejuízos em quase todas, principalmente no quarto trimestre, quando agravou-se crise financeira internacional, com a falência do banco norte-americano de investimentos Lehman Brothers, no mês de setembro.

De acordo com o economista Roberto Macedo, da Fundação Instituto de Pesquisa Econômica (Fipe) da Universidade de São Paulo (USP), o pior é que os efeitos da crise ainda serão notados durante algum tempo, que ninguém sabe quanto: “Esse tipo de crise a gente sabe como começa, mas não como termina.”

Os números reais do mercado mostram prejuízos em diversos setores, como o da Empresa Brasileira de Aeronáutica (Embraer), líder mundial na fabricação de jatos comerciais até 120 assentos, que viu seu lucro cair de R$ 1,185 bilhão, em 2007, para R$ 428,8 milhões, no ano passado – uma queda de 63,8%, porque, por falta de crédito no mercado financeiro, as vendas de aviões desabaram.

Mas, como ressalta o professor de economia Roberto Piscitelli, da Universidade de Brasília (UnB), esse é um fenômeno associado a todo o comércio internacional, notadamente no segmento de produtos manufaturados, com maior valor agregado, que é o caso da Embraer. Por ser uma empresa muito grande, “o impacto é sentido também pelas empresas fornecedoras e gera demissões, com perda de renda do trabalhador”, explicou o professor.

Segundo ele, “houve uma freada brusca da economia, para a qual ninguém estava preparado”, e cujos efeitos se farão sentir também neste primeiro semestre. Piscitelli diz que torce pela estabilização na segunda metade do ano e fala em perspectivas de reversão da queda dos níveis de atividade econômica no decorrer de 2010. Ele destaca que o Brasil tem grau de abertura considerável e capacidade de se ajustar melhor à situação, embora dependa mais da recuperação da economia mundial.

Para Piscitelli, alguns balanços negativos já eram aguardados, como foi o caso da Aracruz, que fechou 2008 com prejuízo de R$ 4,194 bilhões, provocado principalmente por perdas financeiras de US$ 2,13 bilhões em operações com derivativos (títulos podres). A Sadia, empresa do ramo da alimentação, também divulgou prejuízo de R$ 2,5 bilhões, contra lucro de R$ 689 milhões em 2007, em virtude de operação semelhante. Com atuação no mesmo segmento de mercado da Aracruz, a Suzano Papel e Celulose teve perdas de R$ 451 milhões em 2008 – no ano anterior havia lucrado R$ 537 milhões. A Suzano conseguiu bons resultados no primeiro semestre, mas de julho em diante as vendas começaram a cair. No quarto trimestre, sob impacto direto da crise financeira mundial, a situação piorou e a empresa teve prejuízo de R$ 495 milhões, ante lucro de R$ 85 milhões no mesmo período de 2007.

Porém, nem todos os segmentos de mercado tiveram prejuízos em 2008. Tiveram lucro, apesar da crise, empresas de construção civil como a Cyrela Brazil Realty S.A., maior incorporadora do país, presente em 17 estados, e da MRV Engenharia e Participações S.A. Mesmo com a queda de receitas no quarto trimestre, a receita da Cyrela foi de R$ 2,667 bilhões no ano passado, com expansão de 56,2% em relação a 2007; e a MRV vendeu R$ 1,54 bilhão em 2008, com aumento de 115,42% sobre o ano anterior.

Outra empresa que apresentou bom resultado em 2008 foi a Medidata, integradora de sistemas de informática. No mercado há 32 anos, a empresa fechou o ano com lucro de R$ 370 milhões, ou 39% de aumento em relação a 2007. Em meio à crise, a receita foi de R$ 129 milhões no quarto trimestre, com evolução de 26,5% sobre igual período de 2007. O presidente da empresa, Jaques Scvirer, estima crescimento substancial também neste ano, principalmente por causa da introdução de novas soluções em mobilidade e comunicação empresarial.