Cerca de 200 pessoas ficaram desabrigadas ontem, pela manhã, no Vale Dourado e bairros próximos em decorrência das chuvas da madrugada de ontem. Dez ruas ficaram alagadas com as águas chegando a subir cerca de um metro em algumas delas.

Bombeiros estiveram no local com dois barcos para retirar 33 pessoas que estavam em casa e não tiveram tempo de sair, já que as águas subiram rapidamente. Segundo o Cabo Bombeiro Rogério Leitão duas viaturas estiveram no local, desde às 4h30 da segunda-feira. O alagamento aconteceu porque uma bomba que estava sendo usada para retirar as águas das ruas, tombou e deixou de funcionar, fazendo com que as águas invadissem as ruas inundando casas e fazendo com que as pessoas tivessem que retirar seus pertences rapidamente. Em algumas casas, apesar dos moradores terem agido rápido, a água foi mais veloz. “Consegui carregar a geladeira e outros eletrodomésticos para um quarto mais alto e com isso nem tudo ficou perdido”, disse a dona de casa Marluce Borges da Silva, que mora com uma filha e duas netas.

“Quem me ajudou foram os vizinhos. Não apareceu ninguém para saber o que aconteceu, Não aguento mais essa situação”, citou  a dona de casa referindo-se às autoridades ou mesmo bombeiros. Na mesma rua, a travessa Lindava   Olegário da Silva, o aposentado José Cazé dos Santos Nascimento disse que todos os anos as ruas próximas sofrem com as enchentes. “No ano passado, a água não chegou a entrar na minha casa, mas a rua ficou alagada. Já cheguei a ficar quatro meses fora de casa, pagando aluguel, por conta do alagamento”.

De acordo com secretário adjunto de Operações da Secretaria Municipal de Obras e Viação- Semov, Sueldo Florêncio da Costa,  a falta de pavimentação de algumas ruas, que sofreram  alagamento, contribuiu para que o nível das águas aumentasse em várias partes do bairro. “Estão acontecendo obras de drenagem em várias ruas próximas ao Bairro Nossa Senhora da Apresentação, onde aconteceu a maioria dos alagamentos. Provisoriamente estávamos trabalhando com um gerador e uma bomba na parte baixa  do Vale Dourado.  Esse grupo gerador que estava com uma bomba não foi suficiente  para retirar a água dessa parte baixa do bairro”, disse o secretário adjunto. Por causa dessa falha, moradores das ruas Waldomiro Alcebíades, Santa Elisa, Travessa Elisa Guimarães, Travessa Olindalva Gregório e Rua Ely Galvão tiveram que deixar suas casas e ficar esperando as águas baixarem. Segundo Ítalo Alves, da Secretaria de Defesa Social e integrante da Defesa Civil, os desabrigados chegaram a 200 pessoas que não queriam ser alojadas em outros locais.

“Estamos analisando caso por caso. As pessoas não querem ir para abrigos. Elas estão esperando as águas baixarem e não querem abandonar as casas”. Segundo  Ítalo será feito um cadastro para conhecer a real situação de cada morador que sofreu problemas. Só  depois dessa análise vamos oferecer a ajuda que for necessária para essas pessoas. Tem gente que mora em casa que nem encheu e está reivindicando ajuda”.

Três municípios decretam situação de emergência

Mais três municípios do Rio Grande do Norte estão decretando situação de emergência em virtude de inundações, segundo informações da Coordenadoria Estadual de Defesa Civil (Codec): Baraúna, Carnaubais e Tibau.

Para atender a legislação federal, os 16 municípios que estão em situação de emergência precisam emitir pelo menos quatro documentos, inclusive oito deles ainda faltam os prefeitos emitirem o  decreto municipal, no caso Baraúna, Campo Grande, Carnaubais, Governador Dix-Sept Rosado, Mossoró, Pedra Grande,  São Rafael e Tibau. Os municípios que já decretaram, oficialmente, situação de emergência são Angicos, Alto do Rodrigues, Apodi  Assu, Ipanguaçu, Upanema, Pendências e Porto do Mangue.

O  assessor da Codec, Carlos Alberto Abdon de Miranda, disse que os municípios que ainda não decretaram situação de emergência, ainda não o fizeram porque “estão concluindo a avaliação de danos e o nível de desastres” causados pelas enchentes de abril e maio deste ano.“Muitas casas e prédios ainda estão debaixo de água”, acrescentou Carlos Abdon Miranda, por isso a demora na conclusão de alguns relatórios. “Alguns municípios já estão elaborando o plano de trabalho”.

Segundo a Codec, todos os 16 municípios em situação de emergência já elaboraram e enviaram a Notificação Preventiva de Desastre (Nopred), enquanto só Angicos, Alto do  Rodrigues, Apodi e Ipanguaçu, concluíram a Avaliação de Danos (Avandan), documento que Assu e Governador Dix-Sept Rosado estão acabando de concluir.

Pelas informações da Codec, apenas o município de Angicos concluiu toda a documentação, o que permitiu ao governo estadual homologar o decreto de situação de emergência por 90 dias, com vencimento em 3 de junho. Falta apenas o reconhecimento da parte do governo federal.

Sangria  obriga mais famílias a sair de Apodi

Depois de um veranico de quatro dias, as chuvas voltaram com força na noite de domingo para segunda-feira, fazendo subir o nível dos rios Apodi/Mossoró, no Oeste; e Piranhas/Açu, no Vale do Açu. No Vale do Açu, o nível de sangria da Barragem Armando Ribeiro subiu 8 centímetros durante o dia de ontem. Em Apodi, a sangria da barragem de Santa Cruz aumentou 46 centímetros, inundando rapidamente toda a região do várzea.

A Defesa Civil retirou mais de 50 famílias das localidades de Baixa Fechada, Rio Novo e Juazeiro. Estas famílias estão sendo alojadas em casas de parentes ou alugadas na cidade ou em outras comunidades. Elas foram orientadas a se prepararem antes do inverno para se mudar, na hipótese do nível do rio subir rapidamente. “Ainda não precisamos ocupar escolas do município”, explica o chefe da Defesa Civil Marcílio Reginaldo.

Assim como as vítimas das inundações no Vale do Açu, na região de Apodi e Mossoró começaram a receber cestas básicas e alguns colchões. Nas demais cidades da região, a principal preocupação é com relação às estradas de acesso à zona rural, que impossibilitam, por exemplo, o acesso do transporte escolar. O prefeito Ademar Ferreira, de Caraúbas, disse que as estradas estão intransitáveis e que nos locais as máquinas não tem como chegar para recuperar.

No Vale do Açu, o aumento de oito centímetros na sangria da Armando Ribeiro não fez grande diferença nas cidades do Vale do Açu. Já na região de Apodi, além de desabrigar outras cinqüenta famílias só ontem, a região da chapada, onde existe mais de 24 mil cabeças de caprinos, está totalmente encharcada, provocando doenças nos animais. A defesa Civil calcula que o prejuízo no rebanho caprino chega a 20%.

O nível de sangria da Barragem de Santa Cruz, no início da tarde de ontem (80 centímetros), já era o maior de sua história desde a inauguração, em 2001. O chefe da Defesa Civil, Marcílio Reginaldo entrou em contato com as equipes de Defesa Civil de Felipe Guerra e Governador Dix Sept Rosado avisando que o nível do rio iria subir. O mesmo comunicado foi repassado à Defesa Civil de Mossoró, para que providências fossem adotadas para amenizar os estragos.

Bate-papo: Gilmar Bistrot - Meteorologista

A estação chuvosa para a região litoral potiguar começou esta semana, mas os registros da Emparn mostram que já choveu quase metade (1.160,6mm) de todo o acumulado em 2008 ( 2.481,6mm). O meteorologista Gilmar Bristot volta a alertar as autoridades quanto aos eventuais  transtornos, diante da previsão de inverno mais rigoroso entre os meses de junho e julho. Para o interior do Estado, as precipitações devem continuar até o final de junho.

Qual a previsão de continuidade do inverno para o interior do RN?
Vai até o final de junho. Normalmente seria agora, no final de maio. Mas as águas estão quentes — 1,5 grau acima da média. Teremos aqueles períodos úmidos, um a três dias e depois estabiliza.

Com praticamente todos os reservatórios cheios, há motivo para aumentar a preocupação?
Faço a previsão semanal. Nossa previsão está até dia 30 de junho, com base nesses dados que temos em mãos hoje. Há áreas que podem chegar a até 150mm ao longo da semana. Um volume desse, onde já está cheio...

Podemos dizer que começou o inverno no litoral?
Essas chuvas de ontem a noite (domingo para segunda-feira) interagiram a zona de convergência e o sistema de Leste. Significa que os sistemas que causam chuva no litoral estão atuando. Estamos no inverno. Atrasou um pouco por conta da Zona de Convergência, mas a tendência agora é ficar mais intenso no mês de junho. O inverno no litoral será bem acima do normal, nos meses de junho e julho.

Acima àquele registrado no ano passado, no litoral?
Certamente que sim, pois as condições são melhores que no ano passado. Já estamos falando há muito tempo que, devido às chuvas do ano passado (2.481,6mm) e os mais de 1 mil milímetros deste ano. O lençol freático está bem elevado. Somente este ano, em Natal, choveu 1.160,6mm. É provável que este ano cheguemos à média (acumulada) de 2008.