Magali Carvalho, com seis meses de gestação,  é o retrato da maternidade na Bahia, especialmente em Salvador. Aos 17, engravidou e teve uma menina, fruto da primeira relação sexual e de uma união que findou após o nascimento do bebê. Aos 28, grávida do namorado, enfrenta a segunda gestação não-planejada. “Dois já está bom”, diz, refletindo um misto de felicidade e apreensão de quem, mesmo mãe de segunda viagem, tem as preocupações comuns à maternidade.

O último levantamento da Secretaria Estadual de Saúde (Sesab), de 2008, mostra que 22,5% dos nascidos vivos são de mães com idade entre 10 e 19 anos (dos pouco mais de 177 mil bebês, 1,2% é de filhos de meninas que sequer completaram 14). O lado positivo é que, embora elevado, o número sofreu redução de 1 ponto percentual – ou 11 mil nascimentos – se comparado a 2007, tendência que já vinha sendo verificada: em 2005, a incidência de gravidez precoce era 11% maior.

No universo de grávidas adolescentes, outro dado alarmante: do recorte mais recente de nascimentos por etnia oferecido pela Sesab, de 2006, quatro em cada cinco mães eram pardas ou negras, número 23% maior se comparado a 2000. Embora seja condizente com a proporção entre negros e brancos da Bahia, mostra que mais jovens afrodescendentes ficaram grávidas. Num Estado em que cor da pele normalmente coincide com classe social, as conclusões são óbvias.

Biologia – “Mesmo refletindo a distribuição étnica, estes dados chamam atenção porque refletem uma educação sem qualidade nas escolas. O que as adolescentes aprendem continua se resumindo à reprodução, nas aulas de biologia”, avalia a socióloga Marlene Vaz, autora de estudos sobre sexualidade e adolescência. A pesquisadora acredita, sobretudo, que o ensino particular está um passo à frente no assunto educação sexual, quando comparado à rede pública.

Na Tysilla Balbino, segunda maior maternidade pública de Salvador, a demanda anual segue a mesma lógica do Estado. Das candidatas a mãe que passaram pelo planejamento familiar ano passado, 3,5 mil tinham menos de 20 anos, 94% do total. “Hoje em dia recebemos jovens desde analfabetas a formadas com 3° grau, pessoas que antes podiam pagar plano de saúde. Mas claro, as com menos recurso continuam sendo maioria”, explica Maria José Souza, diretora da unidade.

Professora da Faculdade de Farmácia da Ufba e presidente do Conselho Estadual de Direitos da Mulher, Sílvia Lúcia Ferreira acrescenta à falta de planejamento familiar outra explicação: “A mulher de hoje quer ter filho mais tarde, mas entre as mais pobres é diferente. Às vezes elas querem ter filho aos 15, porque são incorporados à família, ganham um companheiro fixo. De certa forma a gravidez ainda representa status para mulheres pobres”.

As variáveis são tantas que é impossível considerar apenas o descuido nas relações sexuais sem proteção. Pediatra e integrante do programa de adolescentes da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), Sandra Pleffin explica que nem sempre a gravidez é indesejada. “Às vezes a adolescente vive um processo de baixa autoestima e, quando ela engravida, todos os olhares passam a ser para ela, a começar pelas roupinhas de bebê. Se tem comida em casa, ela é a primeira a ser alimentada”.

O número de grávidas adolescentes vem diminuindo no Brasil. Em 2007 foram registrados 2,8 milhões de nascimentos no Brasil, dos quais 21% de mães com até 19 anos – uma década atrás, o percentual era de 10 pontos a mais.
A redução coincide com outro dado, que reflete tendência mundial na redução da taxa de fecundidade: em 1970 a mulher brasileira tinha, em média, 5,8 filhos. Hoje, 1,9. “Este número não é verdadeiro para todas as idades e classes sociais. Quando você vai analisar, a fecundidade entre as adolescentes é muito maior”, avalia Sílvia Lúcia Ferreira.