Há pouco menos de dois meses, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou, durante um evento em Pernambuco, que o pior da crise econômica “já passou”.

 

O presidente falava com base em dados de criação de emprego, que mostravam uma pequena recuperação em fevereiro, após três meses de queda.

 

Os dados econômicos divulgados nas últimas semanas mostram que ele pode ter razão: a Bovespa, “termômetro” da economia, ronda hoje o patamar dos 50 mil pontos, o maior em sete meses – cenário quase impensável há seis meses, quando a bolsa mergulhava abaixo dos 30 mil pontos, registrando quedas históricas.

 

Mas é preciso cautela no otimismo, avaliam alguns economistas. Ainda que os sinais sejam de melhora, os analistas preferem a prudência e afirmam que, ainda que este seja o começo da recuperação, esta será longa e difícil.

 

“Podemos continuar tendo alguns crescimentos pequenos (da atividade econômica), mas para ter retomada consistente, ainda vai um bom chão”, avalia Thais Zara, analista da Rosenberg e Associados.

 

Os dados positivos das últimas semanas foram além da criação de vagas. A produção industrial, que vinha em queda acelerada, registrou em março o terceiro mês de recuperação. As vendas do comércio subiram; a inadimplência recuou; e a entrada de recursos estrangeiros na Bovespa teve em abril o melhor mês em um ano.

 

Os números rapidamente se refletiram em otimismo: a confiança do consumidor, que havia atingido níveis históricos de baixa, teve em abril seu segundo mês de alta. A confiança da indústria também se recuperou.

 

Mas uma série de números ainda aponta para a direção contrária: o desemprego chegou a 9% em março, na maior taxa desde 2007, e o lucro dos bancos segue em patamares menores que os do ano passado.

 

“O que a gente tem até agora são indicadores sinalizando uma recuperação na margem, com o comércio voltando para patamar de antes da crise, mas são poucos sinais”, diz Marcela Prada, da Tendências Consultoria.

 

Para José Francisco de Lima Gonçalves, economista-chefe do Banco Fator, esses números mostram uma recuperação ainda bastante limitada.

 

“Veja essa recuperação industrial: é uma recuperação que está acabando, e ainda está num nível muito longe do que foi o ano passado. [A alta de março] foi melhor do que cair 5%, mas essa melhoria é um limite muito claro. Em abril, esse crescimento pode ser zero, e aí a indústria parou num nível 10% abaixo do ano passado”, avalia.

 

Gonçalves aponta, no entanto, que as perspectivas estão melhores. “O PIB, acho que vai ficar negativo este ano, mas não -2%, como já se chegou a prever. Estamos revendo esse dado para uma queda menor, com perdas contidas no final do ano”, diz.

 

Na visão do economista Fausto Botelho, diretor geral da Enfoque Informações Financeiras, o cenário ainda é de pessimismo.

 

“A questão é se isso (a recuperação) se mantém, e eu acho que não. Com certeza, vamos ter mais más notícias. Sou otimista, acho que vamos ser sim os primeiros a nos recuperarmos, mas [a crise] está longe de terminar. Acho que tem muito mais coisa ruim para acontecer. Vai ter mais empresa quebrando, mais desemprego”, avalia.

 

Gonçalves, do Fator, também mantém o pé atrás: “Eu acho que o que aconteceu lá atrás, ao longo do ano passado, foi muito grave. Qualquer sopro de realismo sobre o ritmo da recuperação inverte essa tendência (de alta na bolsa). Qualquer chacoalhada aí, o dólar sobe aqui e a bolsa cai. Não tem muita dúvida a esse respeito”, diz ele.

 

“Ainda é prematuro dizer que o pior já passou, que já estamos com uma recuperação consistente a caminho. Até porque o centro da crise é economia dos EUA, e ainda não está claro que a gente já tenha passado pelo pior lá. O mercado realmente está em onda de otimismo, mas isso pode ser revertido rapidamente”, diz Thais.