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Em uma cena na comédia universitária Garota Sinal Verde (1985), John Cusack -tanto hoje quanto na época, um avatar do descolado moderno e despreocupado- entra num carro que deveria fazê-lo atravessar o país até Los Angeles. Ele não conhece o casal de estudantes que lhe dá carona, já que meramente respondeu à mensagem deles no quadro de caronas do campus. Eles acabam sendo seu pior pesadelo.

"Conhecem alguma música de show", pergunta a garota. "Que ótima ideia!", gorjeia o garoto (interpretado, incidentalmente, por Tim Robbins). E, imediatamente, eles disparam um dueto de cabaré melodramático da canção Aquarius, de Hair, seguido de uma execução ainda mais devastadora do velho clássico da fofura Button Up Your Overcoat. O desespero no rosto de John Cusack diz tudo: os tipos do teatro musical são perdedores.

Essa cena vem à mente porque está impressionantemente distante da mentalidade prevalecente da juventude de hoje. Algo estranho e profundo aconteceu nos quatro anos desde a primeira vez que o High School Musical original apareceu no Disney Channel e surpreendeu a todos, inclusive a Disney, com seu sucesso arrebatador: a linguagem do teatro musical reconquistou sua atualidade e está desfrutando do que talvez seja sua maior popularidade entre os jovens desde a era pré-rock. Estamos criando uma geração de bebês da Broadway.

O exemplo principal disso é Glee, o sucesso televisivo instantâneo da Fox, que acabou de terminar sua primeira temporada. A enganosa premissa do programa é que os membros do clube de coral da William McKinley High são socialmente excluídos, mas, claramente, eles são tudo, menos isso. A maioria dos adolescentes na América trocaria um ano de privilégios no Facebook para habitar o mundo de Rachel Berry e Finn Hudson, os colegiais de voz potente interpretados por Lea Michele e Cory Monteith.

E a Broadway tem conquistado uma audiência jovem vital. Passe pela saída do St. James Theater após uma apresentação de American Idiot, novo musical baseado no álbum do Green Day de mesmo nome, e você verá adolescentes se amontoando como as fãs do início de carreira de Frank Sinatra. O mesmo ocorre no revival de Hair, no Al-Hirshfeld Theater, que encerra uma temporada surpreendentemente robusta, com mais de 500 apresentações, daqui a duas semanas.

"Sei de gente da minha geração que embarcaria nessa -estou na faixa dos 50", disse Oskar Eustis, diretor artístico do Public Theater, sob cujos auspícios o revival começou, em 2008, no Delacorte Theater, no Central Park. "Mas fiquei chocado em ver como isso imediatamente pegou entre os jovens. Existem jovens dedicados que retornam várias vezes. São sempre os primeiros a subir no palco no final. Eles se apelidaram de Hairballs". No último inverno, Eustis e seus colegas produtores sagazmente aproveitaram uma grande tempestade de neve em 10 de fevereiro, que fechou escolas da cidade inteira, para oferecer ingressos com grandes descontos a qualquer um com uma carteirinha de estudante.

Os bebês da Broadway não são mais aqueles jovens turistas passivos em excursão, que vão ver O Fantasma da Ópera ou A Chorus Line simplesmente porque é o que se faz quando se visita Nova York. Eles são verdadeiros adeptos, cujo amor por musicais traz felicidade, transcendência e, estranhamente, aceitação social.

Pergunte a Fred Hechinger, quarto-anista da Manhattan School for Children, quais shows ele viu no ano passado e sua resposta será muito semelhante ao guia da sessão de arte do New York Times: "Gypsy, South Pacific, Finian's Rainbow, A Little Night Music, Hair três vezes. Muita coisa Off-Broadway também". O hábito de frequentar o teatro de Fred tem o apoio de seus pais, Paul e Sarah, e, de forma mais surpreendente, de seus colegas de turma. "Quando eu tinha cinco, seis, sete anos, não tinha tanta criança assistindo aos shows, mas agora a maioria delas vai", disse. "Deve ter uns três garotos na minha escola que não gostam de teatro".

Minha filha de 14 anos também é do tipo que frequenta espetáculos. Ela já viu Hair quatro vezes. Ela passa os verões num acampamento de artes teatrais em Catskills, chamado Stagedoor Manor. Ela não só assiste a Glee extasiada como também é suficientemente fluente em musicais para ter observado, "é uma união igual à de Spring Awakening!", quando o ator Jonathan Groff apareceu num episódio de abril como o novo interesse romântico de Rachel. (Groff e Michele estrelaram nesse show da Broadway ganhador de um Tony, que em retrospecto parece um presságio cultural tão importante quanto High School Musical.)

Cindy Samuelson, proprietária do Stagedoor Manor, disse que o número de inscrições para o acampamento nunca esteve tão alto, sem dúvida impulsionado pelo fato de Michele ser a última graduada que alcançou o sucesso, se juntando a uma lista que inclui Natalie Portman, Robert Downey Jr., Zach Braff e Mandy Moore. Mas, para Samuelson, a mudança mais significante é no público, com participantes vindo de 44 dos 50 Estados americanos e "de todo continente exceto a Antártica".

Além disso, a inscrição de meninos cresceu tanto que, dois anos atrás, o acampamento precisou colocar mais 20 camas no dormitório dos garotos.

Mickey Rapkin, cuja história do Stagedoor Manor, Theater Geek, acabou de ser publicada pela Free Press, observou que, na época da fundação do acampamento em 1975, "as crianças vinham para ser elas mesmas, porque não podiam fazer isso em casa. A grande diferença hoje é que as crianças do Stagedoor são elas mesmas o ano todo".

O que diferencia os bebês da Broadway do velho grupo de colegas de Cusack a que pertenço é o fato de eles abraçarem o teatro musical de corpo e alma, sem dissimulações apologéticas (The Music Man é uma exploração tão inteligente e intrincada da canção americana quanto Pet Sounds) ou ironias distantes ("Patti LuPone + Gypsy = nirvana louco").

Quando adolescente, secretamente mantinha sonhos de ser um letrista ou libretista, disciplinas que combinam minhas duas paixões, linguagem e música. Mas a ideia parecia fadada ao fracasso, tão viável e relevante quanto se tornar frenólogo ou reparador de tubo pneumático. Minha geração cresceu numa época mais tacanha, quando o rock era o modo predominante da expressão musical da juventude. Olhávamos com cautela para o teatro musical, considerando-o uma forma artística antiquada, mantida viva por suportes como novas montagens e um público envelhecendo.

O que mudou? Bem, por mais bobos que sejam, os filmes High School Musical condicionaram adolescentes impressionáveis a gostar de entretenimentos nos quais personagens jovens e cativantes se põem a cantar e dançar. American Idol também é um fator, legitimando a ideia de um jovem cantor se apresentar de forma dinâmica num contexto fora do rock e sem banda. "Existe uma relação mais porosa entre a música popular, o rock e os musicais", disse Eustis. "Todos estão se mesclando".

Mas a maior mudança de todas talvez seja um aumento na tolerância. "As crianças dessa geração têm maior aceitação de quem são e do que querem ser", disse Samuelson. E, eu acrescentaria, uma maior aceitação do que os outros são. Apesar de todos os horrores atribuídos às crianças modernas -ciberbullying, mensagens de texto sexuais, o penteado de Justin Bieber-, elas apoiam muito mais a diversidade e a diferença do que qualquer outra geração anterior.

Enquanto os colegiais da minha época não admitiam gostar de temas musicais com medo de parecerem gays, os de hoje não associariam as duas coisas e, além disso, o que há de errado em ser gay?

Por mais promissora que essa mudança de paradigma seja, ela ainda é em grande parte derivada de música reciclada. American Idiot é mais um musical jukebox -embora o espécime mais vivo e energético do gênero que a Broadway já conheceu- e os números de Glee são sobretudo sucessos do rock e do soul reconfigurados para rotinas de canto e dança. (Embora essa releitura seja por si só fascinante, ela é uma inversão de como Andrew Lloyd Webber, em um espetáculo como Jesus Christ Superstar, contorceu as convenções do musical para acomodar a crescente influência do rock.)

O que eu espero que aconteça é que as mãos jazzísticas da juventude cheguem à conclusão lógica: um ressurgimento sustentável dos bons e velhos shows originais, com livros originais, músicais originais, letras originais e sem relação nenhuma com filmes, álbuns, videogames ou quadrinhos pré-existentes.

Talvez seja o caso de esperar que os bebês da Broadway levem seu entusiasmo até a vida adulta, quando se tornarão compositores, letristas e coreógrafos. Mas, por enquanto, eles já fizeram uma mudança considerável: um "geek do teatro" parece ser um tipo de oxímoro hoje em dia, não?