Parte dos feirantes da feira do Carrasco, no Alecrim, está revoltada com a possibilidade de ser remanejada do local. O motivo é uma determinação antiga do Ministério Público que desde a gestão anterior não foi cumprida pela Secretaria Municipal de Serviços Urbanos (Semsur), e agora voltou à pauta a Promotoria do Meio Ambiente.

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A feira acontece na rua dos Paianases (antiga Avenida 10), iniciando na altura do cruzamento com a Avenida Bernardo Vieira, e termina a poucos metros do cruzamento com a rua Baraúnas, sentido bairro/Centro. O Ministério Público quer que as tendas que cortam a rua Baraúnas sejam relocadas para outras ruas transversais à feira, de forma que a mesma fique livre para a circulação de veículos.

Ontem o promotor João Batista fez uma visita ao local com  representantes da Semsur para verificar em campo o bloqueio da passagem no trecho. Os feirantes, que ainda não foram esclarecidos sobre a mudança, ficaram temerosos com a presença das autoridades, e se dizem surpresos com a medida.

“São mais de 120 famílias que precisam trabalhar para conseguir  o pão de cada dia, não somos vagabundos”, diz um feirante que se identifica como “Galego da Banca”. “A prefeitura precisa tomar alguma providência com relação a esse pedido do MP, porque não temos contracheque no final do mês, precisamos trabalhar”, diz outro feirante, José Santos.

De acordo com Nilton Siqueira, chefe de fiscalização da Semsur, que esteve no local com o promotor, a ideia não deverá prejudicar os comerciantes que se incluem na transferência. “Decidimos relocar as 14 tendas a partir da Baraúnas para as demais ruas paralelas à Bernardo Vieira, de forma que não seja interrompida a feira pela passagem de veículos”, explica.

 “Vamos nos reunir e discutir a melhor saída e local para transferi-los”, acrescenta Edson Souza, chefe do setor de feiras, mercados e transportes. “A retirada atende ao decreto número 7.671 de 2005 sobre a realização das feiras livres”. Amanhã a Semsur deverá entregar o projeto de mudança das tendas ao Promotor João Batista, e solicitar 30 dias para que ele seja efetivado.

Moradora da rua Baraúnas e cliente da feira há 15 anos, Francileide Cavalcante se mostra favorável à continuidade da feira mesmo que interfira no cruzamento das ruas. “Não me incomodo com o barulho e sujeira, sempre compro aqui porque é mais barato e nunca tive problemas com os peixes e carnes”, comenta.

O promotor João Batista preferiu não se pronunciar sobre o assunto, e informou que a determinação de relocar os feirantes está sob investigação do MP.

Pesquisa constata problemas de higiene

Em fevereiro passado a Fundação Norte-rio-grandense de Ensino e Cultura (Funpec) entregou à Promotoria do Meio Ambiente um estudo sobre a situação da feira. O documento mostra que há “pouco ou nenhum controle sobre as mercadorias comercializadas, seja no que se refere à origem e qualidade, seja no que se refere à taxação e recolhimento de impostos”.

A pesquisa destaca que a “aglomeração de pessoas, mercadorias e de veículos nas ruas onde se realiza a feira  pode trazer transtornos aos moradores”, e relaciona problemas como  “barulho, riscos à segurança pessoal e do patrimônio, acúmulo de lixo e mau cheiro” como fatores enfrentados pelos moradores da área.

Os problemas constatados na pesquisa da Funpec permanecem até hoje, embora a Semsur tenha declarado haver realizado mudanças no local. Em pleno século XXI, os 812 feirantes comercializam no local alimentos sem nenhuma estrutura de higiene e segurança.  As antigas bancas de madeira permanecem para expor verduras, frutas, peixes, carnes e inclusive preparar refeições para serem vendidas na feira.

O “Carrasco” foi excluído do projeto para revitalizar feiras, que entrou em prática em 2006. A situação é mais caótica no setor de carnes e peixes. Balanças antigas e sem nenhuma higiene, pedaços de madeira onde os peixes são tratados em contato direto com as mãos do feirante, despejo de lixo na via são apenas alguns flagrantes que a reportagem constatou ontem.

Os feirantes não vestem fardamento e a água utilizada nas bancas não é corrente: galões são usados para transportar a água que serve para limpar e cozinhar alimentos. As moscas são constantes ao longo das tendas e em algumas barracas as carnes são vendidas em contato direto com a madeira.

A Secretaria Municipal de Serviços Urbanos (Semsur) criou um grupo de trabalho para estudo das feiras, cuja ideia é permitir que elas se tornem pontos turísticos da cidade, como ocorre em outros estados. Ontem o grupo de técnicos da secretaria estava em São Paulo visitando as feiras livres do estado para levantar os modelos de adaptação que poderão ser utilizados em Natal.

“A feira do Carrasco vai receber as mudanças quando o estudo for colocado em prática”, declara Nilton Siqueira.