O Ministério Público da Bahia (MP) lança nesta quinta-feira, 23, campanha para evitar o bullying escolar (atos agressivos cometidos com frequência por um ou mais estudantes para atingir algum colega). O objetivo é orientar educadores sobre como identificar casos de bullying e evitar que apelidos e chacotas na sala de aula se tornem casos mais sérios de violência como o que ocorreu, em 2004, na cidade de Remanso, a 694 km de Salvador. Durante anos, um garoto foi humilhado pelos colegas de escola, até que um dia, quando andava de bicicleta, foi interceptado por dois meninos que jogaram baldes de lama nele. O resultado foi uma revolta tamanha que o jovem vítima de bullying matou os dois agresssores.

"Se a escola intervém com antecedência isso pode ser evitado", comenta a promotora, após lembrar que o papel dos pais é fundamental. Lícia explica que o bullying sempre existiu nas escolas. No entanto, tem sido pesquisado nos últimos anos depois que jovens passaram a ter atitudes violentas depois de serem humilhados de forma exaustiva.

A Bahia é o quinto estado no Brasil a apresentar campanha contra o bullying nas escolas. Paraíba, São Paulo, Ceará e Espírito Santo já desenvolvem ações. De acordo com a coordenadora do Centro de Apoio às Promotorias da Infância e Juventude (Caopjij), Lícia Oliveira, materiais informativos como vídeos, folders e cartazes serão enviados às secretárias de educação estadual, municipal e ao Sindicato das Escolas Particulares (Sinep). Esses órgãos ficarão responsáveis por disseminar a campanha entre as unidades de ensino. No interior do estado, os promotores do MP terão a responsabilidade de fazer a ligação entre os órgãos de educação de cada município.

CALMOS - Mesmo em casos onde não há violência física é preciso estar atento para evitar problemas psicológicos, como foi o caso do jovem Tales*, 14. Desde criança, os pais descobriram que Tales sofria de defícit de atenção. Lento, disperso em sala e retraído, o garoto que estuda em um colégio particular de Salvador começou a ser alvo de brincadeiras agressivas e apelidos. A situação piorava nos intervalos e nas aulas de educação física.

"Chamavam ele de burro, babaca e Tales ficava calado, sem revidar", comenta a administradora Teresa, 43, mãe do menino. Os pais sempre orientavam que o garoto buscasse apoio na direção da escola e conversavam com o menino, sem sequer saber que a palavra bullying existia. Até que em 2005 o nível de humilhação chegou ao extremo. Tales foi chamado diversas vezes de idiota pelos colegas e chegou em casa aos prantos em uma crise de choro que não passava. Os pais resolveram levá-lo a um psiquiatra até perceberem que estar ao lado do filho era o melhor meio de lidar com a situação.

Teresa conta que, no auge das crises de ansiedade, Tales desenvolveu um tique nervoso. Passava o tempo todo coçando a orelha, o que reforçava as chacotas na sala de aula. "O tique era um meio de relaxar quando era pressionado, mas os colegas o imitavam o tempo todo e ele chorava muito", lamenta Teresa, após lembrar que, no ano passado, alguns alunos chegaram a fazer uma peça de teatro ridicularizando o garoto para todos da sétima série.

Além da intensa participação dos pais, foi necessário buscar ajuda de terapeutas e do serviço pedagógico da própria escola. Graças a essa parceria foram feitas campanhas de conscientização no colégio e as atitudes agressivas contra Tales estão reduzidas. Alguns colegas chegaram a pedir desculpas depois de perceberem o mal que faziam ao menino. Hoje, Tales consegue ter uma relação escolar mais tranquila, longe dos remédios para ansiedade, do tique nervoso e das terapias de grupo. "Muitas crianças não costumam conversar com os pais quando sofrem com bullying. E sem apoio familiar e de profissionais o jovem muitas vezes não consegue suportar sozinho", finaliza Teresa.

DICAS – Para o médico psiquiatra e diretor clínico do Espaço Holos, Luiz Fernando Pedroso, é impossível extinguir o bullying do ambiente escolar, afinal, faz parte do universo infantil o ato do mais forte sobrepor sua força sobre os mais fracos. "É algo que integra  processo de formação da auto-defesa", comenta. Pedroso garante que o grande desafio da família e da escola é fazer com que esse processo não se torne exagerado. Ou seja, que os provocadores não se aproveitem para humilhar os colegas e que as vítimas de bullying aprendam a se defender.

"Crianças tem seu lado cruel. Colocam apelidos, fazem gozação com as limitações humanas e nesse aspecto é preciso impor limites. Mas é impossível acabar com o bullying. Esse comportamento é natural e sempre existiu", completa. Como dica para pais e educadores, Pedroso lembra que o ideal é a colocação de limites em casa e na escola. "Isso inclui a imposição de regras, rotinas saudáveis e coibição de excessos", aconselha, após lamentar que muitas escolas públicas se tornaram ambientes que acabam estimulando a permissividade, com alunos que não podem mais ser reprovados ou punidos.