Nos fones ligados aos ouvidos dos três apresentadores, toca a música “My night with the prostitute from Marseille” (“Minha noite com a prostituta de Marselha”), do último disco da banda norte-americana Beirut. O experiente Joe Walker conta suas reminiscências francesas de quando serviu como soldado na Segunda Guerra Mundial (“Quando estava em Marselha, as prostitutas estavam em evidência por toda a avenida principal”), enquanto Ann Bailey sentencia: “Que música entediante. Não é o tipo de música de prostitutas que eu conheço”.

Essa é a primeira cena do décimo quinto episódio de “Breakfast at Sulimay’s”, um programa de crítica musical exibido na internet, cujos protagonistas são três amigos (o grupo fica completo com Bill Able) que fogem dos padrões da jovem imprensa de música pop por um traço em comum: todos têm mais de 60 anos (Joe é o mais velho, com 84).

O programa tem feito sucesso na internet graças ao bom humor do trio – o último episódio, postado em março, virou manchete em sites descolados como "Pitchfork" e "Stereogum", ao mostrar os apresentadores reclamando de “My girls”, faixa do último (e aclamado) álbum do grupo Animal Collective – segundo eles, a música é “muito repetitiva”.

A ideia de juntar o time veio do produtor Marc Brodzik, do site de vídeos Scrapple.tv. “Eu entrei na lanchonete Sulimay’s (onde o programa é gravado) numa manhã e esses caras estavam tirando sarro um do outro, cada um em sua mesa. Então resolvi convidá-los para fazer o programa”, explica Brodzik, em entrevista ao G1.

Marc é quem escolhe as faixas que o trio vai “resenhar”: “Eu gosto de misturar. Coloco um pouco das coisas que eu curto, mas também adiciono algo mais pop. Vai do (rapper) T.I. a Beck e Animal Collective”.

Sepultura

Até o Brasil tem vez no programa: entre hip-hop e música folk, o trio também ouviu o último álbum do Sepultura, “A-Lex”. Enquanto escuta a música “What I do!”, Ann balança a cabeça e Bill sorri: “Eu gostei!”. Joe, sempre didático, lembra que no Brasil se fala português e que a banda deve tocar em estádios de futebol, o esporte nacional. “Acho que eles gostam desse tipo de música por lá”, imagina, enquanto Ann devolve: “Que fiquem com isso no Brasil – nós já temos o suficiente aqui nos Estados Unidos”.

Por telefone, Joe explica seus conhecimentos sobre o país: “Eu gosto de Carmem Miranda, samba, carnaval. A cultura brasileira sempre me atraiu. Tive um primo que esteve no Brasil durante a Segunda Guerra e trouxe muitos souvenirs. Infelizmente nunca viajei até aí, mas sonho em conhecer o Rio e a praia de Copacabana”.

Fã de Tony Bennet, Bing Crosby e da parceria de Stan Getz com João Gilberto, Joe diz que, entre as bandas que conheceu no “Breakfast at Sulimay’s”, sua favorita é o grupo Harvey Milk, de Athens. “A introdução da música ‘Death goes to the winner’ usa um cravo, que me lembrou o trabalho do jazzista Artie Shaw, de quem sou um grande fã.”

Bill, dono de um bar em Fishtown, distrito da Filadélfia onde o programa é gravado, também não se dá muito bem com a música atual: “Na verdade, a maior parte dessas coisas novas soa como lixo para mim. Eu sou um cara que gosta de Tony Bennet, é o tipo de artista que conseguiria uma boa crítica vinda de mim”.

Depois de uma pausa durante o inverno, Marc começa os planos de gravar novos episódios – “Breakfast at Sulimay’s” se tornou o carro-chefe de seu site, que traz outros temas: atualmente, Brodzik se dedica a um documentário sobre as pequenas mineradoras de carvão da região, ameaçadas pelas grandes companhias de energia.

Já o “Breakfast” ganha novos quadros: Joe entrevistou recentemente Stuart Braithwaite, guitarrista da banda escocesa Mogwai. “Gostei muito de conversar com ele, cantamos uma música popular escocesa que eu aprendi quando estive lá durante a Segunda Guerra”, diz. Mas confessa que gostaria mesmo de entrevistar a cantora Maureen McGovern: “Ela tem um grande alcance vocal, e canta músicas da Broadway que eu adoro”. Se o sucesso continuar, Joe ainda pode ter mais alguns sonhos para serem realizados.