O espetáculo No fundo do mar, em cartaz no Teatro Vannucci, é uma ótima surpresa neste fraco início de temporada infantil carioca. Pela segunda vez em cartaz, no mesmo espaço, a peça representa um diferencial nos palcos de um teatro que tem se caracterizado por oferecer espetáculos mal acabados, de versões bisonhas dos clássicos de Walt Disney. Ao se entrar no teatro é possível notar que trata-se de uma produção bem cuidada. Uma cortina francesa cobre todo o proscênio, enchendo os olhos do público de beleza e leveza. Este efeito causa verdadeira ansiedade em desvendar todas as surpresas que podem surgir por detrás daquele tecido.

A abertura do espetáculo é realizada na técnica da manipulação do teatro negro (feito no escuro, com elementos de cores vibrantes e luz negra). O espectador é transportado ao fundo do mar, onde se vê uma rica fauna. O texto de Cláudio Figueira é muito interessante e conta, de maneira leve e divertida, a história de diversas espécies marinhas que habitam nossos mares e oceanos.

Apesar de a mensagem apresentar claramente a ideia da conscientização e preservação, o texto é escrito de forma divertida, sem didatismos. Pode-se ver, assim, o medroso Barão Tubarão, as irmãs Pérola Negra e Pérola Branca, um polvo bonachão, uma tartaruga meiga, um prudente cavalo marinho, duas lagostas sapateadoras e uma estrela do mar que é uma verdadeira star.

Um dos pontos altos do espetáculo é a maneira como ele é contado. Os habitantes do fundo do mar veem sua rotina ser atrapalhada pela presença dos mergulhadores Cruel e Mau-Mau, que estão ali com a intenção de praticarem pesca submarina – apesar de seus nomes, estes personagens se apresentam de forma bastante engraçada. Os diretores Carlos Arthur Thiré e Cláudio Figueira conduzem todo o espetáculo de maneira contida, sem exageros. trabalho é bem cuidado, e nada é gratuito, com o intuito de buscar um riso fácil. A ideia do lixo ser jogada do urdimento do teatro é bem interessante e surpreende o espectador de tempos em tempos. Ou seja, tudo funciona com harmonia, leveza e com todos os personagens no tom exato.

A cenografia de Clívia Cohen também favorece a peça. Ela constrói uma grande ambientação de fundo do mar usando materiais emborrachados e pintados com tinta florescente, que acompanha a ideia do teatro negro. O efeito alcançado é de muito bom gosto, e a confecção bastante detalhista. A iluminação de Eduardo Salino também é acertada, com refletores nobres, como o moovie light, que garante, durante toda a apresentação, efeitos de ondas e bolas. A direção musical e arranjos de Fernando Lopez e Marcelo Fabian; e as músicas de Alisson Ambrósio são agradáveis de se ouvir. A preparação vocal de Neti Szpilmann faz com que todos os atores cantem o bem e no tom certo. A coreografia de Cláudio Figueira, bastante explorada em sapateado, é bem executada. Os figurinos de Marcelo Oliveira são criativos e na medida exata, explorando apenas as características essenciais de cada um dos personagens deste universo fantástico.

Todo o elenco tem ótimo registro de interpretação. Sem exageros, Pedro Arrais está seguro na sua composição do Cavalo Marinho. Cibele Larrama está cativa como a delicada Tartaruga. Victor Maia cria uma composição sincera do seu ótimo tubarão medroso. Simone Centurione, como Pérola Negra, e Yana Sardenberg, como Pérola Branca, estão divertidas no papel das implicantes irmãs. Patrícia Carillo, Mariana Montanari e Elisa Firpo, as lagostas, dançam quase o espetáculo inteiro e se saem bem de todas as outras funções. Carlos Viegas como Polvo se sai bem em sua postura sábia. O grande destaque do espetáculo é a interpretação de Cristiana Pompeo, Marcelo Klein e Gabriel Titan. Pompeo vive a deliciosamente afetada estrela Star; Klein como o vilão Mau-Mau e Titan como o vilão Cruel são responsáveis pelos momentos mais hilários do espetáculo, num ótimo jogo cênico com a plateia.