Marieta Severo e Sílvia Buarque não se cruzaram muitas vezes em suas carreiras. Elas estiveram juntas no teatro, em 1988, em "Cenas de outono", de Yukio Mishima, com direção de Naum Alves de Souza. Em 2000, também dividiram o mesmo palco em "Quem tem medo de Virginia Woolf?", dirigidas por João Falcão. No cinema, só contracenaram no curta-metragem de Betse de Paula "Por dúvida das vias". Se não contarmos a propaganda de televisão, atualmente no ar, em que Sílvia saboreia a carne de panela feita por Marieta com o auxílio de um caldo de picanha concentrado, foi só isso mesmo. Mas Marieta e Sílvia estão para viver uma experiência rara nas relações profissionais de mãe e filha em qualquer país do mundo. Na nova versão de "Amadeus", de Peter Shaffer, que estreia no dia 12 no Teatro Carlos Gomes, Sílvia vai interpretar Constanze, papel que, na montagem original, de 1982, foi criado por Marieta.

A coincidência não faz com que o desafio de dar vida à mulher de Mozart, na peça que popularizou a rivalidade entre o célebre compositor austríaco e o italiano Antonio Salieri, tenha alguma sobrecarga além do peso que o próprio papel já traz.

- Talvez fosse melhor se ela não tivesse feito - admite Sílvia, que ficou conhecida de todo o país desde que ganhou, ao nascer, um samba composto pelo pai, Chico Buarque, mas que conseguiu manter uma carreira de atriz dissociada da fama dos pais. - Recusei-me a interpretar a Adiantada numa remontagem de "A aurora da minha vida". Foi muito forte a interpretação da minha mãe. Eu me lembro dela em cena. Toda a minha geração se lembra. Não seria um desafio bacana. Mas eu não me lembro muito da Constanze. Não é um dos cinco maiores trabalhos da minha mãe.

- Ela tem uma função muito importante na peça - emenda Marieta, que fez "Amadeus" justamente logo após a bem-sucedida temporada de "A aurora da minha vida". - Mas o grande embate em cena é entre Mozart e Salieri. Eu gostei muito de fazer o papel. Foi importante para mim. Mas não tem sombra nenhuma desse personagem para a Silvinha.

- Não. Não tem muita sombra - concorda Sílvia. - Mas tem alguma.

- Ninguém faz sombra para ninguém - encerra Marieta. - Cada representação é irrepetível.

Texto faz sucesso desde 1979

"Amadeus" fez furor no mundo inteiro desde sua estreia em Londres em 1979. Na peça, Salieri funciona como narrador. Na primeira cena, ele é um velho compositor de sucesso que quer explicar ao público por que envenenou Mozart, literalmente, e como foi envenenado, metaforicamente, pelo seu talento. Muitos historiadores negam que Mozart e Salieri tenham sido rivais. Criticam ainda a peça por deixar a impressão de que Salieri não era talentoso. Mas o sucesso do trabalho de Shaffer espalhou essa versão, que se tornou mais popular ainda depois de ser adaptado pelo cinema - com roteiro do próprio autor - por Milos Forman, em 1984. A produção ganhou o Oscar de melhor filme do ano. No Brasil, o espetáculo também fez muito sucesso com direção de Flávio Rangel e um elenco que, além de Marieta, tinha Raul Cortez, como Salieri, e Edwin Luisi, como Mozart. Na versão de agora, Roberto Birindelli faz Salieri, e Gustavo Rodrigues, Mozart.

- O texto é muito bem articulado, inteligente. E coloca uma questão: qual o mérito de ser agraciado com um grande talento? - analisa Marieta.

- Em cartas do Mozart para o pai e para a própria Constanze, há algumas dicas de que havia uma certa rivalidade - conta Sílvia. - Peter Shaffer criou a intriga palaciana. E criou essa Constanze também. Mas o amor de Mozart e Constanze é incontestável.

- Ela é muito companheira na infantilidade dele - diz Marieta.

- Eles entram em cena brincando de gatinhos - diverte-se Sílvia.

-É verdade - reafirma Marieta, como se só naquele instante se lembrasse da montagem em que trabalhou.