Raízes da África
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Tem que ser a \"nega maluca\" a boneca que habita o universo das meninas negras?

Arísia Barros|


Quantos meninos e meninas na escola alagoana são brutalmente agredidos por conta da sua cor e aparência? São tantas e tão cotidianas as posturas racistas que os fatos se confundem e se misturam. Caso corriqueiro que de tão corriqueiro é visto como normal. Mariazinha tem 10 anos e é aluna de escola pública de um dos muitos bairros periféricos da grande Maceió. Escola de periferia onde a escassez de bens materiais dita uma outra regra da Carta Magna: todos são iguais dentro da pobreza. Mariazinha está se formando na 4ª série do ensino fundamental. É a conquista de uma etapa e a escola ensaia uma cerimônia de formatura, saída festiva para meninos e meninas. Mariazinha está feliz, pois algum daqueles meninos irá escolhê-la para dançar a dança da despedida da infância. Imaginem uma valsa!
No dia seguinte Mariazinha já não tem mais o sol colado em lábios, o sorriso sumira e inexplicavelmente diz à mãe que desistira da formatura. A mãe ensimesmada procura à escola e fica triste, tão triste quanto Mariazinha: nenhum menino da escola - da terra negra do herói Zumbi - escolhera a sua menina tão linda para ser par. E a discriminação racial se disfarça no jogo do faz de contas e empresta às consciências infantis conceitos datados do Brasil Colônia. Ela é da cor de carvão, ela não é bonita, ela tem cabelo de bombril, portanto sua cotação na ótica de crianças tão pobres quanto ela, mas com a pele "mais" clara é zero a esquerda.
Mariazinha faz parte de dois grupos altamente discriminados: as mulheres e os negros. Negros não tinham muita ressonância no Brasil dos nossos prosaicos colonizadores portugueses. È negra a menina Mariazinha que sonhou com sua festa de formatura e não a teve. É negra a menina Mariazinha que não recebeu nenhum apoio pedagógico/psicológico da escola, simplesmente porque a escola não soube e ainda não sabe o que fazer nessas horas. Seria mais fácil apagar um incêndio, pois o mecanismo de apagar o fogo é conhecido por gerações. Mas como apagar a fogueira do racismo que refaz as máscaras e armaduras numa permanente negativação/ apagamento dos elementos étnicos e das matrizes que nos formam, empobrecendo a compreensão sobre a etnia negra e toda força dos ideais humanitários.
A escola não soube o que fazer, as professoras nada fizeram, a diretora se omitiu e Mariazinha não teve sua formatura. Branca é a Branca de Neve, a Cinderela, a Gata Borralheira - princesas dos contos de fadas do universo infantil. A auto-estima de Mariazinha- dita diferente- vazou por entre as frestas da intolerância infantil.
Tem que ser a "nega maluca" a boneca que habita o universo das meninas negras?
A convivência com a visão imperialista e colonizadora da escravidão naturalizou a exclusão de negros e negras e legitimou a sua condição de não-pessoa na ótica social, embaçando assim o pensamento crítico, a visão da diversidade e a real percepção do Brasil dito miscigênico que mesmo tendo 50% da sua população negra adota o fenótipo do colonizador: homem, branco,magro, cristão e europeu.
Quem há de gritar o indizível sofrimento, o grito das muitas Mariazinhas que são violentadas diariamente na perca da auto-estima?
A tendência da engrenagem social/escolar diante de fatos como esse é a demonstração de uma solidariedade minimizadora ou o não reconhecimento da gravidade do fato, considerando-o como "brincadeira de crianças", entretanto, mais do que gestos bonitos ou a própria negação do acontecido, precisamos de ações transformadoras.
É preciso aproveitar a intolerância para transformá-la em ações efetivas de enfrentamento à prática da discriminação racial.

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