Do lado de fora do Shopping da Gávea, o sol a pino de uma sexta-feira de verão invoca ares de férias. Mas o clima não ultrapassa a bilheteria do Teatro dos Quatro. Dentro da sala escura desde o início de 2010, tudo o que Antonio Fagundes não teve até então foi descanso. Há 35 anos sem pisar na cidade para uma longa temporada teatral (o último espetáculo protagonizado por ele no Rio foi Sete minutos, de 2003, que ficou apenas um mês em cartaz), o ator acumulou as gravações da nova novela das 19h, Tempos modernos, e os ensaios para a estreia de Restos, que entra em cartaz de quinta a domingo após uma série de felizes coincidências.

– Trouxe ao Rio cerca de 15 de meus 45 espetáculos, mas foram passagens muito curtas. Por ser um monólogo, não preciso deslocar muita gente. E o fato de eu estar gravando a novela, de segunda a quarta, facilita a estadia – argumenta.

Sentado à beira do palco, Fagundes está à vontade, apesar do ar de cansaço. E não poderia ser diferente. Produzida pela Fagundes Produções Culturais, a montagem conta com o filho Bruno como assistente de produção e com a filha Diana no comando do making of que acompanhou todas as etapas da produção.

– Diana criou diversos filmetes sobre a peça, todos já no YouTube, enquanto o Bruno, que é ator, ajudou na produção – conta o pai, que vê com bons olhos a opção de Bruno em seguir seus passos. – Eu nunca forcei nada. Acho horrível o filho ser o que o pai quer. Dos quatro, ele é o único que quis. Digo que o ator já começa desempregado. Esta é a sua condição normal. O excepcional é quando ele trabalha, mas havendo paixão tudo resiste. Agora, ele vai entrar na dor e na delícia de ser ator no Brasil.

Com muito mais delícias que lamentos fincados na afiada memória, deixa escorrer o fascínio de um iniciante prestes a encarar seu primeiro solo.

– O teatro é como um salto mortal triplo sem rede. Estou diante de uma infinidade de possibilidades. E quem detém o controle é a plateia. Isso não existe em nenhum outro veículo – anima-se.

O ator acredita que o palco é o último resquício de humanidade, e onde há “a possibilidade de reunir um grupo grande de pessoas em torno de uma ideia”, teoriza. Para ele, o teatro é o único ambiente artístico de intensa comunicação ao vivo.

– Ao vivo não quer dizer que é agora, mas que algo está vivo. É a grande mágica. O ator erra e alça voos a partir da troca com o público. Teatro é basicamente comunicação. Eu não consigo entender uma peça que não queira comunicar. Se for assim, é melhor ler um livro sozinho.

Após cada uma das sessões, assim como fez em sua primeira temporada, no ano passado, em São Paulo, o ator organiza um bate-papo com o público: “Às vezes duram mais que a peça. As pessoas se envolvem e é maravilhoso”, vibra. Mas do alto de mais de 40 anos de carreira, o que Fagundes busca comunicar? Escrito pelo americano Neil Labute, o monólogo é o resultado final de três longos anos de pesquisa, em conjunto com o diretor Márcio Aurélio. Entre algumas tentativas, faltava o texto exato às medidas do ator, que, no palco, se apruma sob os cortes do terno assinado por Ricardo Almeida para viver as agruras de Edward Carr. Homem simples, pai devotado e dono de uma rentável empresa de carros restaurados, vê sua vida destruída pela morte do grande amor da sua vida, com quem se casou após tirá-la de outro relacionamento.

– Eu não conhecia o texto, apesar de já ter lido uma série de outros trabalhos do Labute. Ele tem um humor fantástico, que consegue fazer a plateia rir num velório, ou seja, numa peça que não é basicamente uma comédia – elogia. – Ele constrói uma dramaturgia rica, no sentido de que ele não defende os personagens. Pelo contrário, chega a ser bastante cruel. Seus personagens são seres humanos. Ele não os trata como heróis. E não protege o público dessa crueldade. Você não sai impune do teatro quando há um texto de Labute. E isso é o mínimo... Uma peça deve provocar, transformar e mexer com sua cabeça. O Neil faz você pensar.

Em clima de velório, o texto desenlaça temas como solidão, preconceito, afeto, paixão, sexo e uma análise profunda sobre o amor, que refletem as elaborações mentais do viúvo entre um cigarro aceso e outro. Sem revelar muito do que se passa em cena, Fagundes discute a natureza da vida e da morte e o que a sociedade aceita em nome do amor. Um texto de intensa carga dramática, mas pontuado pelo humor pungente de Labute.

– Trata-se de um homem colocado diante de uma perda irreparável, mas que celebra esse amor único até o fim. Até que Labute reserva seu golpe teatral, que faz todo mundo repensar nossos preconceitos.