Os 100 dias que a prefeita Micarla de Sousa completa hoje à frente da Prefeitura de Natal representam bem mais que um simples período de tempo. Os opositores consideram esse prazo o suficiente para constatar a completa falta de rumo e as influências dos “setores conservadores” na atual administração, enquanto os aliados defendem as ações tomadas no início de mandato e afirmam que, em pouco mais de três meses, já é possível perceber mudanças, para melhor.

No entender da prefeita, o governo está no caminho certo para implementar as mudanças que os moradores da capital querem e precisam. “Muito foi feito. Mas é preciso reconhecer que ainda é pouco diante do que deve ser realizado para compensar anos de descaso. E não vamos descansar até conseguirmos implementar a transformação verdadeira que a sociedade merece e espera.”

Micarla de Sousa afirma que o período foi marcado pela reorganização estrutural e financeira da prefeitura. A retomada de obras, como as de Capim Macio, é apontada como uma dessas medidas, aliada à análise, por parte da Semurb, de mais de 600 processos que estavam engavetados. O Município também lançou o Plano de Desenvolvimento Imobiliário. “Nossa meta é dobrar os empregos no segmento, até o final do ano”, diz.

As ações em saúde e educação são consideradas por ela os principais avanços. “Encontramos problemas graves. Foi preciso organizar a casa e ainda estamos neste trabalho.” Micarla de Sousa cita medidas como a contratação das cooperativas médicas, permitindo a retomada das cirurgias do SUS; a garantia de recursos para quatro Unidades de Pronto-Atendimento; inauguração da Maternidade Leide Morais; e a reforma e reabertura da unidade de Mãe Luiza, interditada pelo Conselho Regional de Medicina em 2008.

Na área de educação, a prefeita destaca a reforma de 29 Centros Infantis, o reajuste de 12% concedido aos professores e os convênios para oferecer curso superior aos docentes. “Queremos nossos educadores capacitados para enfrentarem os grandes desafios da educação”, afirma, lembrando ainda da ajuda de 50% na compra de computadores para a categoria e dos programas de combate à evasão escolar.

Contudo, a prefeita não deixa de fazer referências à administração anterior. “As escolas estavam depredadas, creches sem a menor condição de receber as crianças e professores completamente desestimulados. Mas estamos lutando para reverter esta triste realidade”, conclui.

É um caso de Procon, afirma George

Para o vereador George Câmara (PC do B), a administração Micarla de Sousa concretizou, nesse início de gestão, uma tendência que se vislumbrava desde a vitória nas urnas. “A partir de 5 de outubro, as declarações em nome do governo foram dadas pelos setores mais conservadores. Hoje estamos constatando que, em seus 100 primeiros dias, o governo é completamente refém desses setores, cujo maior expoente é o DEM, antigo PFL, responsável pelas políticas de atraso e que deu sustentação ao que há de pior no campo político nacional.”

Para o oposicionista, o DEM terminou por ocupar o governo de forma velada. “É um caso de Procon. Você votou no PV e elegeu o DEM. Foi uma barriga de aluguel. Um projeto que se apresentou com rótulo de PV, que é inclusive uma legenda com tradição de luta popular, mas que traz um conteúdo do antigo PFL”, ressalta. No entender de George Câmara, o partido liderado pelo senador José Agripino atualmente é responsável por planejar, executar, arrecadar e pagar, dentro da administração municipal.

“Domina completamente o governo municipal. Em que pese haver nomes como o de Kalazans Bezerra (Semurb) e Kelps Lima (STTU), mas tirando a irmã da prefeita (Rosy de Sousa, da Semtas)  e os nomes do DEM, o que resta são coadjuvantes dos setores mais avançados”, critica o vereador. 

Vontade

Já a vereadora Sargento Regina (PDT) aponta aspectos positivos nesse início de administração. “O principal ponto é a vontade de acertar. Há, por exemplo, alguns secretários que têm demonstrado grande preocupação com a cidade, como é o caso de Demetrius Torres (Semov)”, elogia. Por outro lado, ela lamenta os entraves entre o Legislativo e parte do secretariado de Micarla de Sousa. “Esse é um dos pontos negativos, essa falta de diálogo e de atenção não com os vereadores, mas com os eleitores que representamos.”

Outra reclamação diz respeito ao envio de diversas matérias para serem votadas pelos vereadores, em regime de urgência. “Foram assuntos de extrema importância, sem tempo para que pudêssemos apresentar emendas e proposições que poderiam enriquecer os projetos. Não é que eles estejam errados, ou sejam ruins, mas poderiam ser melhor discutidos”, aponta, concluindo: “Acho que, no final, esses primeiros 100 dias estão um pouco atrapalhados.”

Vereador faz avaliação positiva

Para o vereador Ney Lopes Júnior (DEM), os 100 dias não são suficientes para nenhum governo apresentar resultados objetivos de seu trabalho, mas mesmo assim a gestão municipal estaria demonstrando que segue pelo caminho correto: “A avaliação é positiva e o que mais ressalto é, primeiro, a preocupação com os principais temas da cidade; segundo, o empenho da prefeita em buscar as soluções; e terceiro, a disponibilidade em atender as demandas da população”, enumera.

Ele defende que não é possível resolver nesse prazo todos os “problemas acumulados no decorrer de cinco, dez, vinte anos”. Mesmo assim a prefeita já teria demonstrado grande maturidade política, conseguindo um bom trânsito junto ao governo federal. “A recíproca também é verdadeira, embora a prefeita tenha feito uma coligação com partidos de oposição a Lula, em Brasília o governo vem abrindo as portas para que ela possa fazer uma administração saudável para nossa cidade”, reconhece.

Paulo Vagner (PV) também vê com otimismo esse início de governo. “Estamos vendo as coisas andarem. Muito já está sendo feito.” Para ele, o grande passo será dado com a aprovação da reforma administrativa.

Deputado petista aponta contradições 

Um dos principais opositores à candidatura de Micarla de Sousa em 2008, o deputado estadual Fernando Mineiro (PT) reconhece que dos 1.461 dias de um mandato de quatro anos, 100 são ainda poucos para caracterizar uma gestão. Nem por isso deixa de criticar o atual governo. “Me parece uma administração sem rumo. Apesar das promessas que fez, da expectativa que criou, tem deixado muito a desejar”, avalia.

Ele cita duas questões em particular. A primeira diz respeito à saúde pública. “Era o carro-chefe da campanha dela, mas chegamos aos 100 dias sem um secretário. Não há simbologia mais clara do que essa”, considera. A segunda é a promessa de “choque de gestão” feita durante a campanha. “Ela esteve visitando as principais administrações do PSDB e do DEM no Brasil e a reforma, que disse que mandaria logo no início do governo, só foi esta semana para a Câmara e representando aumento de custos da máquina, quando ela dizia aos quatro ventos que iria reduzir os gastos”.

Além disso, o deputado lamenta o que chama de “excesso de propagandas e factóides”, como no caso da conta bancária para o pagamento dos funcionários, que a gestão anterior negociou com o Banco do Brasil, gerando muita polêmica. “Ela já fez um acordo com o mesmo banco”, destaca. Mineiro também cita a maternidade da zona Norte, que “estava inaugurada e ela desinaugurou e inaugurou de novo, sem contar que praticamente fechou o Parque da Cidade”.

O petista já colocou em sua página da Internet (www.mineiropt.com.br) os vídeos da campanha de Micarla de Sousa e espera que a população se interesse em cobrar da atual gestão as promessas feitas. “Infelizmente, ela tem dado sequência a um padrão de relação midiática com a sociedade. A pergunta é: quando é que finalmente vai ter uma resposta mais concreta para a sociedade?”