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Todos os anos, uma média de 2,5 milhões de peregrinos se deslocam até Juazeiro do Norte, a 520 quilômetros de Fortaleza, para pagar promessas, acender velas e fazer pedidos a um padre proscrito pela Igreja Católica. No centro desta movimentação está uma das mais intrigantes figuras catalisadoras da fé popular no Brasil, Cícero Romão Batista, o padre Cícero, cujos supostos milagres são tabu nos círculos católicos há mais de um século, mas que hoje caminha para ser reabilitado pelo Vaticano. Diante do avanço das correntes evangélicas, a Santa Sé deposita nele a esperança de atrair novos devotos.

Neste momento em que a vida e as façanhas do religioso passam por um intenso escrutínio, a biografia “Padre Cícero — Poder, fé e guerra no sertão” (Companhia das Letras), do jornalista Lira Neto, traz fatos inéditos e revela facetas desconhecidas do protagonista (veja mais imagens e dados), como sua atuação política e a relação com o cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. A biografia será adaptada para o cinema, com direção de Sérgio Machado (diretor de “Cidade Baixa”) e estreia prevista para o primeiro semestre de 2011.

Lira Neto faz uma aposta ousada sobre o futuro de padre Cícero no Vaticano.

— A reabilitação de padre Cícero, em Roma, é apenas o primeiro degrau para a sua canonização — diz o biógrafo, que dedicou mais de dez anos às pesquisas sobre a vida do religioso.


Após ser proibido pelo Vaticano de exercer funções sacerdotais e escapar por pouco da excomunhão, Cícero encontrou na política o caminho para mostrar sua força. O personagem que surge na biografia é um Cícero diferente do que os devotos conhecem, capaz de fazer conchavos com as elites e de evitar que Juazeiro se transformasse em uma nova Canudos.

— Depois de ser banido da Igreja e perder todas as prerrogativas do sacerdócio, Cícero se converte a um novo sacerdócio: a política. É um outro padre Cícero. Ele se envolve com a luta armada que vai resultar na deposição do governador do Ceará. Juazeiro chegou a ser atacada para ser destruída sob a acusação de que ali estava fermentando uma nova Canudos. Cícero soube se aliar com as elites e sobreviver a todos os seus adversários — explica Neto.

A nova biografia surpreende também por mostrar, em ritmo de thriller, o mistério que envolve os milagres de Juazeiro atribuídos a Cícero e à beata Maria de Araújo, que transformava em sangue a hóstia recebida em comunhão das mãos do padre.

Jamais será possível comprovar se esses milagres aconteceram. Por ordem da Igreja, as supostas provas foram dizimadas. Os paninhos manchados de sangue usados para limpar os lábios de Maria de Araújo foram queimados. E mesmo se tivessem sido preservados seria impossível fazer uma comparação genética com os restos mortais da beata. Seu túmulo foi violado em 1930 e o corpo desapareceu.

Mas se a dúvida sobre os milagres permanece, a biografia traz à tona acontecimentos comprovados, como o encontro do padre com Lampião. Houve um único encontro entre os dois, em 1926, quando a Coluna Prestes passava pelo Ceará. Lampião recebeu uma carta do padre convidando-o a participar de uma das milícias formadas na época para combater o avanço de Luís Carlos Prestes.

Lampião aceitou o convite, e encontrou-se com Cícero em Juazeiro. Em troca da sua participação em um dos Batalhões Patrióticos, Lampião recebeu do Ministério da Defesa dinheiro, armas e munição, além da patente de Capitão. O governo federal incentivava que líderes locais formassem milícias contra Prestes, sem se importar com o perfil de seus integrantes.

— Quando Lampião vê a carta assinada pelo padre Cícero, ele aceita. Isso mostra que o padre era respeitado até pelo mais feroz dos cangaceiros. Por coincidência, Lampião é recebido em Juazeiro pelo próprio padre Cícero, que manda chamar o único funcionário público disponível na cidade, um agrônomo, e pede para ele assinar uma patente de capitão para Virgulino. Mais tarde, ao ser questionado sobre ter forjado o documento, o agrônomo responde: “Naquela situação, diante do padre Cícero e do Lampião, eu assinaria até a destituição do presidente da República” — conta o jornalista.

Padre Cícero soube se movimentar com naturalidade em mundos diferentes. Mesmo depois de ser submetido no seminário ao universo ritualizado e asséptico da fé católica, preservou sua visão de mundo sertaneja. Era um homem sintonizado com o universo do mágico, do maravilhoso, do fantástico, muito típico do catolicismo popular e com grande apelo no sertão.

— Ele sabia como ninguém tocar a alma popular. Nunca deixou de ser um sertanejo. Soube também se reinventar na política com muita habilidade, contrariando a imagem de ser um sujeito tosco, incapaz de ter uma percepção sofisticada. A forma como Cícero se conduziu na política mostra como ele era astuto. Basta dizer que outros líderes messiânicos contemporâneos tiveram uma sorte muito ruim, foram passados na espada pela repressão governamental — avalia o biógrafo.


Um capítulo do livro conta como a cidade de Juazeiro chegou a ser atacada pelas tropas governamentais. Um exército de jagunços, cangaceiros, devotos e moradores da cidade defendeu-se. Para não cometer o mesmo erro de Antônio Conselheiro em Canudos, eles preferiram, em vez de esperar outros ataques, partir para a ofensiva, conquistando cidade após cidade, até chegar a Fortaleza. Depois, conforme combinado com governo federal, foi decretada uma intervenção e o governador do Ceará foi deposto.

— É uma história mirabolante. Parece ter saído da cabeça de um ficcionista em estado de delírio. Se essa história fosse um romance, provavelmente o autor seria acusado de pecar pela ausência de verossimilhança. É inacreditável que isso tenha ocorrido da forma que ocorreu e há tão pouco tempo — completa Lira Neto, explicando que foi por isso que escolheu como epígrafe para o livro a frase de Gay Talese: “Há muito acredito que o realismo é fantástico”.

O biógrafo lista uma série de indícios para mostrar que sua aposta na canonização de Cícero é realista. A igreja que padre Cícero construiu no Juazeiro, com trabalho coletivo dos fiéis, e na qual ele foi proibido de rezar missa, foi elevada à categoria de basílica em setembro de 2008. O mesmo lugar aonde devotos do padre vão, em romarias, pagar promessas, abriga hoje um brasão do papa Bento XVI. Na capela de Nossa Senhora do Perpétuo, em Juazeiro, onde o corpo do padre está enterrado, foi instalado um vitral com a imagem de Cícero, ao lado de outros com santos oficiais católicos. Na missa de 75 anos da morte do padre, celebrada este ano em Juazeiro, o bispo Fernando Panico deu vivas a Cícero e levou ao delírio uma multidão de 20 mil fiéis.
— A reabilitação é para muito breve e os indícios são claros. Em setembro deste ano, dom Fernando (Panico) esteve no Vaticano em audiência com Bento XVI e o principal assunto foi padre Cícero. É muito claro que neste caso o tempo, o relógio do Vaticano, vai rodar com mais celeridade do que costuma correr.

“Padre Cícero — Poder, fé e guerra no sertão” é divido em duas partes: “A cruz” e “A espada”. Na primeira metade, a questão central é a dos supostos milagres. A segunda parte, depois de Cícero ser proscrito da igreja, revela a experiência política do padre.

— Se na primeira parte o sangue era hóstia, com uma origem supostamente divina, na segunda parte o sangue é humano e é derramado nos campos de batalha. A história da primeira parte do livro é uma espécie de thriller eclesiástico. A segunda é um faroeste caboclo, em que a ação predominante é no campo de batalha e nos bastidores da política — resume Lira.