Os elogios derramados a Precious (melhor deixar de lado o restante de seu desajeitado título) me fizeram imaginar se o trabalho seria capaz de sobreviver ao exagero.

Depois de ser premiado nos festivais Sundance, de Cannes e de Toronto, elogiado pelos críticos e promovido por Oprah Winfrey e Tyler Perry, era impossível que esse filme de orçamento minúsculo e coração tão grande quanto sua protagonista fosse mesmo tão bom. Ou não?

Sim, o filme é mesmo tão bom.

É difícil imaginar um cenário mais improvável para a construção de um novo clássico. Clareece Precious Jones, interpretada pela discreta mas impressionante Gabourey Sidibe, é uma adolescente urbana morbidamente obesa e analfabeta, que está grávida de seu pai pela segunda vez e vive com uma mãe que incentiva de forma quase demoníaca os abusos contra ela (Monique, que já deve estar ensaiando seu discurso no Oscar).

Precious é tão retraída com relação à vida normal que quase desaparece em meio ao gueto. O potencial que ela exibe costuma ser estraçalhado por comentários e atitudes cruéis, os mais devastadores dos quais vindos de sua mãe, que prefere acusar a filha de roubar seu homem a admitir que o que houve foi um estupro.

Uma assistente social (Mariah Carey) se esforça mas não consegue ajudar a menina, e uma professora em uma escola alternativa (Paula Patton) mal o faz; parece que, sempre que Precious avança um passo, o destino a empurra dois passos para trás.

Não é um quadro atraente, exceto pelas fantasias a que Precious recua durante seus momentos mais sombrios. Ela sonha ser cantora ou dançarina nos programas da rede BET de TV a cabo, e namorar um negro de pele não muito escura e com um belo sorriso, enquanto os flashes dos fotógrafos os acompanham pelo tapete vermelho. Se você um dia já quis saber o que exatamente um diretor de cinema faz, observa a forma pela qual Lee Daniels, em seu segundo filme, combina essa felicidade ilusória e os horrores da realidade, permitindo que os espectadores acompanhem o que Precious está pensando.

Um exemplo brilhante: quando o pai a empurra para a cama, Precious não pode resistir, sob risco de morte. Contemplando o teto para tentar desviar os pensamentos quanto ao que está acontecendo, ela se concentra em uma pequena rachadura na pintura do teto; a câmera se aproxima, a rachadura se abre e entramos em uma de suas fantasias, como se estivéssemos contemplando a existência de outra pessoa. Esse foi o momento em que me deixei convencer quanto à modesta grandeza desse filme.

Também há muito humor primário nas dificuldades que Precious enfrenta, muitas vezes de parte de seus colegas na escola alternativa, que gostam de provocá-la, ou nas ilusões de que há algo de melhor à sua espera, ou em afrontas tão ofensivas que só o riso indignado impede os espectadores de chorar. Ocasionalmente esse efeito surge da escolha de trilha sonora ou, em um momento ferozmente original, da capacidade de Daniels para fazer de seu filme uma versão urbana moderna de um dos clássicos neorrealistas italianos. Só vendo para acreditar.

Daniels não tenta manipular a piedade da audiência em seu trabalho; o filme funciona mais como uma espécie de saudação proletária à esperança de uma alma perdida e depois reencontrada. A história não tem uma solução clara, e não oferece a Precious o momento de vitória que ela merece. Mas quando o filme se encerra, saímos com mais esperança do que tínhamos ao chegar, o que é um feito narrativo espetacular.

Precious é uma raridade no cinema moderno: um filme pequeno mas tragicamente universal que mostra cenas da vida e começa parecendo ser alguma outra coisa antes de florescer de maneira extraordinária. É um filme envolto em desespero e depravação mas que ainda assim encoraja os melhores aspectos da natureza humana, especialmente o poder da educação, a despeito do ressentimento daqueles que não desfrutam dela. Precious demole a suposição de que um filme nascido de e sobre uma determinada cultura não é capaz de oferecer significado profundo a culturas distintas.

E a menos que dezembro reserve uma surpresa inesperada, certamente se trata do melhor filme de 2009.