Ricardo Nunes Eletro, um “case de sucesso”

  • Redação
  • 09/07/2020 01:53
  • Blog do Celio Gomes

Na foto ao lado, Ricardo Nunes. Ele ficou famoso como garoto-propaganda de sua rede de lojas – a Ricardo Eletro. Defende o “Estado mínimo”. É um desses “empreendedores” que se vendem como case de sucesso. (Publicitários adoram a expressão). São modelos para todos que desejam subir na vida. O empresário é o tipo que despreza essa história de auxílio disso e daquilo para os mais pobres. Chega de “Estado-babá”, como dizem os indignados cidadãos de bem, conservadores e tementes a Deus.

Ah, o mundo da fantasia... Ricardo Nunes foi preso acusado de sonegação milionária de impostos. Pelo que apontam as investigações da Polícia Civil e do Ministério Público de Minas Gerais, o exemplar homem de negócios sonegou nada menos que 380 milhões de reais em ICMS. Sem dúvida, as cifras estão de acordo com o padrão de competência e meritocracia do mundo “liberal”.

É um caso clássico. O empresário que fazia proselitismo em defesa de políticas reacionárias, posando de herói do capitalismo moderno, estava mesmo era sambando na hipocrisia. É mais ou menos como algumas figuras que vociferam ataques contra a corrupção, mas são flagradas em esquemas tão corruptos quanto o que fingem denunciar. Olhando de perto, descobre-se a verdade.

Em outra dimensão, mas com o mesmo tipo de dissimulação da realidade, está aquele casal que ofendeu fiscais da Vigilância Sanitária do Rio de Janeiro. Reportagem do Fantástico mostrou um engenheiro e sua mulher fazendo piada com os fiscais que pediam que deixassem um bar que descumpria medidas de controle da pandemia de Covid-19. Os dois agem de forma acintosa.

Dois dias depois da reportagem, uma informação desconcertante veio à tona: o engenheiro – que dizia pagar o salário do fiscal com seus impostos – recebeu o auxílio de 600 reais destinados a pessoas sem renda mínima para sobreviver. Ele confirmou que solicitou o pagamento porque estava desempregado, mas, no meio da pandemia, conseguiu voltar ao mercado de trabalho! Tá certo.

Outro episódio, que parece combinar com o Eletro e o “engenheiro civil formado melhor que você”, tem como protagonista a senhora Bia Dória. A primeira-dama de São Paulo disse a uma colega socialite que não se deve dar marmita aos moradores de rua. Segundo ela, esses malandros não querem outra coisa a não ser vadiagem nas praças, parques e calçadas de nossas capitais.

Se você pesquisar no velho Google, vai encontrar outras situações como essas. O traço comum é exatamente este: o falatório em público, para enganar desavisados, derrete quando se vê a prática até então secreta. Desconfie quando um moralista da conduta alheia parece espumar de raiva “contra os desmandos” de terceiros. Mais cedo que depressa, acaba sendo desmoralizado.

Sim, a ascensão do bolsonarismo tem tudo a ver com essas notícias. Foi montado na ficção do “mudar tudo isso que está aí” que Bolsonaro chegou a presidente. O sujeito das milícias, do Queiroz, da fraude no Imposto de Renda e das rachadinhas virou, para muitos, símbolo de honestidade e pureza política. O resultado, trágico, está aí. Somente fanáticos e negacionistas ignoram.

Em Alagoas, gente graúda da política e do empresariado engrossa a falange dos “empreendedores” fãs de Bolsonaro. São senhores e senhoras que vivem nessas manifestações domingueiras na beira da praia da Ponta Verde. Tenho certeza que se uma investigação pra valer caísse em cima, a imagem de alguns exemplos de honestidade não resistiria a um breve inquérito. Fica a dica às autoridades.

De volta ao âmbito nacional, falta pegar o veio da Havan. Luciano Hang já foi condenado em 2003 por sonegação de contribuição previdenciária de suas empresas. Para escapar do xadrez, fez acordo e pagou o que devia. Agora, responde a outra acusação pelo mesmo crime. Deve 2,5 milhões de reais e está no alvo da Receita Federal. Taí o padrão dos patriotas que “combatem” a corrupção.