“A gente espera que as pessoas possam olhar a cidade com outros olhos.” Foi com essa proposta que o fotógrafo João Wainer abriu a primeira sessão de “Pixo”, em cartaz na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Ao lado do irmão, Roberto T. Oliveira, diretor de videoclipes, ele lança seu primeiro longa-metragem, que revela o universo da pichação paulistana e expõe seus bastidores.

Nem o mais distraído dos seres vivos consegue circular por São Paulo e não perceber o que os pichadores chamam apenas de “pixo” –letras geométricas, muitas vezes ilegíveis a olhos destreinados, espalhadas pelos lugares mais inusitados, de muros a topos de prédios, de preferência em pontos de grande circulação e destaque. “A gente se interessou naturalmente [pelo tema]. Nunca consegui entender o que eles escreviam. O João sempre diz que ele se sentia passeando pela China sem entender chinês”, conta Oliveira.

 

Por meio de um amigo em comum, a dupla conheceu o ex-pichador Djan, que se dedica a registrar a ação dos amigos “rabiscando” cidade adentro. Dono de grande acervo sobre pixo, Djan tinha a vontade de fazer com que seus filmes chegassem a um público maior, e se uniu aos irmãos na criação do longa-metragem. Foi ele também quem introduziu os dois no mundo restrito da pichação, fazendo com que conseguissem acompanhar algumas ousadas aventuras dos pichadores pelos prédios da capital.

 

“Ficávamos as madrugadas em ‘stand by’, com o celular sempre ligado. Passamos a frequentar o point, que é a festa em que eles se encontram. Você precisa estar inserido no meio deles para conseguir gravar e ser espontâneo. Isso, de outra forma, levaria cinco anos. O Djan economizou esse tempo para a gente”, conta Oliveira.

 

Num dos momentos mais tensos do longa, três pichadores escalam um prédio do centro da cidade. Sem proteção, sem medo aparente. A câmera registra tudo lá de baixo. Um microfone capta a conversa. Um dos meninos diz que está cansado e não aguenta mais subir. Mesmo assim, se pendura no próximo parapeito, e parece que não vai conseguir até que outro chega para ajudá-lo. “Eu estava com o fone de ouvido e fiquei com medo. Era óbvio que ele não estava preparado para fazer aquilo. Nos preocupamos em não colocá-los em risco, por isso tem apenas duas escaladas perigosas no filme”, conta Oliveira.

 

E continua: “Esse microfone correu muito risco. Foi até preso [risos]. Dos três que estavam fazendo a escalada, dois escaparam e um foi preso, justamente o que estava com o microfone. Ele disse para o policial que era um radinho que a avó dele tinha dado, e o cara devolveu”.

 

“Pixo” mostra ainda as origens da pichação paulista e sua ligação com o heavy metal, reúne depoimentos essenciais de quem participa do movimento, mostra as rixas entre grupos rivais e acompanha duas ações que ganharam repercussão: a pichação da Bienal e a da Faculdade de Belas Artes.

 

Tudo ao som de muito rap, de Sabotage à voz inconfundível de Mano Brown –mesmo que apenas com um ‘Hei, São Paulo’ quase imperceptível, mas suficiente para a mente seguir, em silêncio, “terra de arranha-céu, a garoa rasga a carne, é a Torre de Babel”.

 

Arte ou vandalismo?

 

É inevitável fugir da eterna polêmica que cerca a pichação, e “Pixo” consegue entrar nela com isenção. “É vandalismo, não há dúvida. Está na lei, é crime e ponto final. Mas tem outras motivações, traz outros questionamentos”, analisa Wainer.

 

“A gente tentou abrir essa discussão, mas é meio sem fim. Entrevistamos várias pessoas, e o filme só deu liga quando tiramos isso. Não somos responsáveis por dizer se é arte ou não. Não estudei direito nem artes plásticas, deixo essa bucha na mão de especialistas. E o Brasil está cheio deles.”

 

Há, na pichação, os grupos que se dedicam a ilustrar a cidade com mensagens de protesto, mas grande parte gosta mesmo é de espalhar sua marca pessoal (nome, apelido ou marca do grupo do qual faz parte) por aí. Quanto mais, melhor. Para Wainer, a pichação, qualquer que seja o estilo, tem ligações profundas com o social.

 

“Essa molecada recebe tudo de ruim que a sociedade pode oferecer a eles. Hospital ruim, educação ruim, lugares ruins para viver. São invisíveis para a sociedade. Eu acho que a pichação é meio que um atalho que eles encontraram para superar isso. ‘Eu prefiro ser odiado do que ser ignorado’, entende? A pior sensação que existe é você ser ignorado. Pichando, eles se transformam em alguém. É a mesma pegada de um jornalista que assina sua matéria publicada no jornal. Você é o que você faz, e você tem que ser alguém.”

 

E embora o pixo seja considerado crime no Brasil, no exterior a repercussão do trabalho feito nas paredes de São Paulo é positiva. “A pichação está na moda. As pessoas estão interessadas. Começou com os próprios OsGemeos [ex-pichadores e grafiteiros conhecidos internacionalmente], eles levaram tudo isso lá para fora”, comenta Oliveira.

 

“Pixo” está sendo exibido na Fundação Cartier, em Paris, desde julho e já foi visto por mais de 90 mil pessoas. “Lá não se fala em outra coisa que não seja a pichação. É algo criado naturalmente, é espontâneo, fresco. E é difícil encontrar algo assim na Europa”, diz o cineasta.

 

Mais na internet


Depois da Mostra, “Pixo” ainda deve chegar aos cinemas, “pelo menos nas principais capitais do país”, espera Oliveira. Mas o projeto não para. Vai ganhar continuação na internet -o site do filme deve estrear em breve. “Queremos dar continuidade ao projeto, contar outras histórias e seguir com a discussão.”

 

Além disso, depois que o filme sair de cartaz, deve ser colocado gratuitamente na web. “Quem quiser vai poder assistir. É um filme independente, e ele terá vida mais longa na internet.” Vai ser possível também comprar o DVD, que terá extras e trechos inéditos, que não entraram na versão para o cinema.

 

 

"Pixo"

 

Sábado (31), às 20h50, no Matilha Cultural
Terça-feira (3), às 18h40, no Unibanco Arteplex 4
Quarta-feira (4), às 21h15, no Cine Bombril Sala 1