Rs=w:350,h:263,i:true,cg:true,ft:cover?cache=true


“O espírito é como um paraquedas. Só funciona bem quando está aberto”

Após o final da Segunda Guerra mundial, emergiu o protagonismo dos Estados Unidos como potência global.

Paradoxalmente, a Grã-Bretanha que enfrentou sozinha, com a Europa ocupada, a fúria das armas nazistas, suas cidades bombardeadas diuturnamente pelos aviões alemães, acarretando a morte de dezenas de milhares de civis soterrados nos escombros dos edifícios, essa mesma Grã-Bretanha, que saiu vitoriosa do conflito mundial, perdeu as extensões territoriais do seu vasto império colonial, em decorrência das lutas pela independência anticoloniais que varreram o planeta.

A União Soviética foi outra potência mundial que saiu vitoriosa do terrível confronto da Segunda grande guerra mundial, com um saldo terrível de 25 milhões de mortos, o maior entre as demais nações em beligerância.

Mas a URSS não só venceu a batalha contra o nazifascismo, como manteve e ampliou o seu espaço territorial, expandindo-o aos limites da Europa ocidental com a divisão da Alemanha nazista derrotada.

Estava inaugurada a época da chamada Guerra Fria, que perdurou de 1945 até o início dos anos 90 com a extinção da União Soviética. Mas o protagonismo global da Rússia, centro geopolítico da ex-URSS, depois de um breve período de debacle, ressurgiu a partir da liderança de Putin com a recomposição do seu espaço histórico de séculos e séculos.

Essa bipolarização mundial, entre os Estados Unidos e a URSS, determinou a configuração global em todos os níveis: militar, geopolítico, cultural e ideológico. E as suas consequências deixaram rastros até os dias atuais.

Por muito tempo, as lutas políticas no planeta estiveram carregadas de conteúdos ideológicos que opunham essas duas grandes potências, que praticamente dividiam o mundo em duas partes.

Muitos golpes de Estado deram-se com a justificativa da “ameaça soviética”, e muitas lutas de libertação colonial tiveram o apoio geopolítico, quando não militar, da URSS.

Tratava-se, em última instância, de reforçar o protagonismo global, comercial, econômico, geopolítico, cultural, ideológico, de cada uma das duas gigantes super potências.

Quem melhor definiu o que foi essa época, que ocupou a metade do século XX, foi o presidente francês Charles De Gaulle, herói da luta contra o nazismo, ao afirmar: quem desejar saber exatamente o que é a Guerra Fria, precisa olhar com muita atenção quais são os interesses geopolíticos dos Estados Unidos e da URSS.

De Gaulle foi um dissidente da divisão do mundo em dois grandes campos. Sempre defendeu o protagonismo independente da França, em meio a uma época turbulenta e perigosa.

Renasce o Império do Meio

“Quando a China despertar, o mundo irá tremer” (frase atribuída a Napoleão)

Na geopolítica atual, os Estados Unidos foram o grande beneficiário. Produziu uma formidável indústria militar, cultural, ideológica, midiática, e de diversões, que propagou o estilo norte-americano de vida aos quatro ventos do mundo, como se ele fosse o único, ou mesmo universal.

A extinta União Soviética que em 1917 promoveu uma revolução social contra um sistema opressor, herdou e não se desfez do antigo espaço do velho império czarista de muitos séculos.

Ao contrário, manteve e o ampliou. Falta à Rússia, hoje sob a liderança de Putin, reaver um único território que sempre foi a sua área “natural” de influência: a Ucrânia.

Mas, em 1949 ressurge, sob novas condições Históricas, o milenar Império do Meio chinês, depois de altos e baixos, ascensões e declínios, e uma época de profundas humilhações colonialistas.

A China é um ator de primeira grandeza no cenário geopolítico desde, quase, sempre. Mesmo quando não o quis ser, e voltou-se para si mesma, em uma das suas dinastias.

E hoje, é considerada a segunda maior economia do planeta, em franca ascensão. O seu traço principal é a expansão comercial, através de múltiplas parcerias e trocas comerciais. O Brasil é, hoje, um dos seus principais exportadores agrícolas e de matérias primas, e importador de produtos industrializados chineses.

A tentativa europeia

Já a Europa, séculos atrás o centro do mundo ocidental, perdeu a liderança para a exuberância imperial norte-americana, apesar da sua extraordinária cultura, tesouros arquitetônicos, e busca, através da União Europeia, reconquistar o seu papel na arena internacional.

Mas, o velho continente, composto por antigos e ex-impérios, debate-se internamente em rivalidades mútuas e históricas, além do protagonismo industrial, econômico e financeiro da Alemanha, que se soergueu da derrota na Segunda Guerra mundial e almeja a liderança do continente nessa atual união federativa europeia.

Os Estados Unidos fraturados

“O mundo moderno... tem como principal objetivo simplificar o que quer que seja, destruindo quase tudo”. (G. K. Chesterton, escritor britânico)

Com o extraordinário crescimento econômico da China, que em algumas décadas deixou de ser uma grande nação de quase miseráveis, toda uma população de uniformes azuis, dirigindo bicicletas, e passou a ser a segunda potência global, a caminho acelerado para o pódio superior, a hegemonia unipolar dos EUA, após a debacle da URSS em 1990, desaparece.

Some-se a esse fato, o reaparecimento da Rússia, o grande urso, como sempre foi chamada, com seu enorme espaço de influência recuperado, e poderio atômico-militar, herdado da ex-União Soviética.

Assim, a liderança mundial dos Estados Unidos se encontra abalada. E internamente estão divididos, praticamente ao meio.

De um lado, há o projeto de uma parte das suas elites que aposta na estratégia do isolacionismo, e no “excepcionalismo” de uma nação voltada para guiar a humanidade tal e qual a sua imagem e semelhança.

E frente à crise financeira global, defendem a reagrupação da sua indústria em seu próprio território, como diz o slogan “América First’, primeiro a América. Essas lideranças estão, basicamente, ligadas ao presidente Trump, ao partido Republicano no poder.

De outro lado, encontram-se as elites no partido Democrata, que insistem em reassegurar a hegemonia dos Estados Unidos pelos caminhos da própria globalização financeira e, com ela, definir estratégias para reassegurar o protagonismo norte-americano como nação líder do planeta.

Tanto os Republicanos como os Democratas disputam essa batalha entre os corações, as mentes e os votos nas eleições presidenciais e proporcionais, em novembro próximo.

Nesse confronto político radicalizam-se as linhas ideológicas. Daí é que surgiram as agendas identitárias que se auto intitulam de “direita” e de “esquerda”, em negação radical uma da outra, como se isso fosse possível na construção histórica dos EUA.

Os Democratas perderam as eleições passadas porque teriam abandonado as grandes linhas de administração e de políticas que falavam para o conjunto da nação e assumiram a orientação multiculturalista de parcelas da sociedade que passaram a condenar as grandes maiorias sociais por injustiças às chamadas minorias.

Abandonaram a visão central da nação, do sentimento de solidariedade, do espírito de oportunidade para todos e o dever público, perdendo o sentido do que compartilham como cidadãos e do que os une como nação.

Nos anos 60, a política pelos Direitos Civis significava a batalha das grandes maiorias sociais, ombreadas e junto às lutas das mulheres pelos seus direitos, contra o racismo, pelos direitos das minorias sexuais etc.

Mas a partir dos anos 80, essa política cedeu lugar a uma pseudopolítica de autoestima e autodefinição, cada vez mais autocentrada, estreita e autoexcludente e, por óbvio, condenando as grandes maiorias sociais que não pertencem às especificidades “classificadas” como responsáveis pelas injustiças históricas.

Assim as agendas identitárias passaram a ser vistas como uma doutrina professada basicamente pelas elites urbanas “esclarecidas” sem contato com todo o resto da população. As agendas identitárias reduziriam o espírito nacional ao grupo, ao indivíduo.

Já os identitaristas de “direita” espalham mentiras, promovem teorias da conspiração, consideram que há “uma onda comunista” em qualquer lugar, contexto, filme, livro, peça de teatro, no mundo da política etc. etc. Um verdadeiro caldo tóxico que termina promovendo todos os tipos de delírios e alucinações possíveis e inimagináveis, que se estendeu também ao bolsonarismo no Brasil.

Esses parágrafos acima foram extraídos do livro “O progressista de ontem e o do amanhã”, do cientista político norte-americano Mark Lilla, escrito logo após as últimas eleições presidenciais nos Estados Unidos.

Perto das próximas eleições presidenciais americanas, as agendas identitárias não apenas continuam, como recrudesceram e adquiriram novas formas mais radicalizadas.

As agendas identitárias se propõem, no momento, destruir toda a História existente até o presente, e reescrevê-la como uma espécie de tábua rasa, em uma folha de papel em branco.

Para tanto, iniciaram pela destruição de monumentos e estátuas que indicam personalidades, como Thomas Jefferson nos EUA e Winston Churchill que, ao lado de Stalin e do presidente Roosevelt, liderou a Grã-Bretanha, absolutamente sozinha na Europa, frente às hordas nazistas de Hitler, poderosamente militarizadas. Em Portugal, o identitarismo atingiu alvos como a estátua do padre Antônio Vieira, e no Brasil, do padre José de Anchieta. Por enquanto.

Essas manifestações identitárias se espalharam pelo mundo ocidental a partir do assassinato, racista, covarde e brutal, de George Floyd, nos Estados Unidos, e chegaram a várias capitais no Ocidente. Em plena pandemia do corona vírus que já ceifou a vida de centenas de milhares de pessoas no mundo e no Brasil, e infectou milhões de pessoas. A cinco meses das eleições nos EUA.

Elas indicam que vivemos uma Guerra Híbrida, uma nova “revolução colorida”, diversionista, como a que atingiu os povos árabes anos atrás, com objetivos econômicos e geopolíticos específicos: fazer assegurar aos Estados Unidos a hegemonia cultural, ideológica, junto ao mundo ocidental, na atual, estratégica disputa comercial e política sino-americana.

Tudo isso em meio ao caos sanitário, à onda gigantesca de desemprego pelo mundo, à queda brutal do PIB em escala global, que assumirá forma dramática.

Mas, revela, igualmente, que os Estados Unidos ainda são uma nação poderosa, com um forte aparato midiático hegemônico, com capacidade de ditar as pautas ideológicas e culturais, pelo menos em grande parte do mundo ocidental.

Está correto o embaixador Marcos Azambuja quando alerta para a atual e errática política externa do governo Bolsonaro: somos um País destinado a encontrar convergências com muitos, e não com poucos. Éramos naturalmente criadores de amplos consensos - e não parte de alianças sectárias. Usávamos a nosso favor as muitas dimensões da nossa identidade. Parecemos esquecidos de tudo isso.

Temo que o agravamento das tensões e disputas entre os Estados Unidos e a China crie condições que devem nos obrigar a navegar com cuidado em águas que ficarão perigosamente agitadas. Temos que cuidar dos nossos imensos interesses em jogo e agir com racionalidade e lucidez.

O falso detetive Charlie Chan famoso em filmes nas décadas de 1930-1940, dizia sempre o seguinte: o espírito é como um paraquedas. Só funciona bem quando está aberto.

Em meio a essa tormenta sanitária, social, ideológica, comercial, geopolítica, o Brasil precisa encontrar os seus objetivos com base na centralidade da questão nacional, em nossos interesses estratégicos fundamentais.

Não podemos ficar à mercê ou alinhados a essa disputa ideológica, de uma guerra híbrida, e sectária, das correntes identitárias de “esquerda” e de “direita”. Uma, desejando vandalizar estátuas e monumentos, “reescrever” a História a partir do zero, e negar as grandes figuras emblemáticas, que são referências da nossa formação como povo, de uma sociedade singular e mestiça que somos.

A outra, querendo nos alinhar a um falso, também sectário, excepcionalismo do “ destino manifesto” ,“divino”, da missão norte-americana no mundo, que não corresponde à verdade, e à própria História.

Ambas as vertentes em confronto não nos servem, não refletem a nossa realidade, interesses, formação histórica, a possibilidade de caminhos ao nosso protagonismo como nação, que construímos até agora, com virtudes e deformações, porque não existe no planeta, nações unicamente virtuosas.

Esse é o rumo a que precisamos dar sequência, honrando o nosso legado de um País continental e promissor, com imensas possibilidades ao seu futuro.