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O Brasil e o mundo viram - ao longo da semana - uma série de protestos por causa da morte de um segurança nos Estados Unidos. No Brasil, artistas e internautas utilizaram uma hashtag (#BlackoutTuesday) para chamar atenção contra o racismo e contra a morte das pessoas negras.

 

Ainda durante a semana, Sérgio Camargo, da Fundação Cultural Palmares se envolveu em mais uma polêmica ao chamar o movimento negro de ‘escória maldita’. Para explicar esses assuntos, o Cada Minuto deste sábado (06) traz uma entrevista com o Professor Clébio Correia, Coordenador do Núcleo de Estudos Afro brasileiros da UNEAL e Membro do Conselho Estadual de Promoção da Igualdade Racial.

 

Confira abaixo:

 

1- Como o senhor avalia a postura da Fundação Cultural Palmares atacando a história de zumbi, e de seu presidente, que chamou o movimento negro de escória?

 

A nossa avaliação é de que ele tem cometido vários crimes de improbidade administrativa. Na medida em que ele é um gestor público a frente de um órgão que regimentalmente foi criado com o objetivo de valorizar o patrimônio cultural, afro-brasileiro e a história a memória. Ele tem feito várias declarações. Agora com esses áudios que vazaram mais ainda. Tem feito várias declarações que indicam não só que ele, enquanto indivíduo, usando a sua liberdade de opinião, ele não reconhece o racismo no Brasil. Ele não reconhece a luta dos negros na história brasileira. Ele é contra as organizações do movimento negro e expressões do movimento negro, como a religião, as religiões de matriz africana, capoeira e outras. A partir do momento que ele é um gestor público e ele transforma essas opiniões em ações concretas contra políticas. Ações governamentais que vinham sendo desenvolvidas justamente no combate ao racismo, na valorização do patrimônio afro-brasileiro das culturas, das religiões de matriz africana da capoeira. Não é mais só uma questão de liberdade de opinião. É um crime porque ele está usando a prerrogativa do cargo para transformar a liberdade de opinião dele em ação concreta de impedimento dessas políticas e essas políticas são protegidas pela Constituição Federal. Elas fazem parte da própria natureza do órgão ao qual ele está à frente. Então ele não pode estar à frente desse órgão que tem esses objetivos e agir concretamente como ele diz no áudio que não vai ter dinheiro pra capoeira, não vai ter dinheiro pra pra terreiro. Ele que está descumprindo o regimento da instituição, a lei que cria a instituição porque a função da instituição é justamente essa: proteger as culturas tradicionais, afro-brasileiras e valorizar o patrimônio afro-brasileiro. Em relação à colocação que ele faz com o movimento negro e com a a mãe-de-santo, a Mãe Baiana, a nossa compreensão é de que ele cometeu o crime de racismo. Na medida em que ele diz que todo participante do movimento negro -e ele generaliza- é vagabundo, que se trata de uma escória, ou seja, de gente inferior, ele está discriminando negativamente e está cometendo crime de racismo. Por que crime de racismo é nesse caso? Porque não há nenhum elemento que ele apresente que comprove a sua afirmação de que as pessoas do movimento negro são vagabundos ou são escória. Então ele faz uma uma afirmação genérica baseado na ideia de que porque é um movimento de negros, de pessoas que se assumem como negras e se colocam na posição histórica de afrodescendentes, de que isso as torna inferior e as torna vagabundas. Quando a gente fala negro, a gente não está falando apenas da cor da pele - isso é um dos elementos da negritude-, mas principalmente no pertencimento cultural e político, a história da negritude. O senhor Sérgio Camargo tem a pele preta, mas ele não é um negro porque, para ser um negro, ele teria que ter consciência da história de exploração, de sofrimento, de descaso do estado brasileiro com os negros desse país -e isso ele não tem.

 

2- De que forma o senhor avalia essa onda anti-racismo nos EUA e como isso pode chegar ao Brasil?

 

Quanto o movimento antirracista no nos Estados Unidos e esse momento de verdadeiro levante que tá acontecendo lá é que nós enxergamos como uma luta legítima. Porque desde a década de sessenta com movimento pelos direitos civis, a liderança de Martin Luther King  que os Estados Unidos vem numa crescente de abertura e participação dos Norte-americanos na sociedade no mercado de trabalho, acesso à educação, as universidades e etc. Mas isso não quer dizer que a violência contra a população norte-americana diminuiu. A violência, continuou, sobretudo, o aparato policial, então nós enxergamos como é legítimo. No entanto, o formato que assume o protesto nos Estados Unidos, que é esse formato de mobilização social na rua com com o levante e com ataque a instituição, a prédios públicos e essa onda de violência que se desenvolveu a partir também da violência da polícia contra os manifestantes é uma característica muito particular dos Estados Unidos em função de que o racismo tem uma linha demarcatória segregacionista muito forte. Então a comunidade negra  tem uma unidade muito forte nos Estados Unidos. Porque a negritude lá não se define pela cor da pele se define pela descendência. Não interessa a cor da pele da pessoa. Se ela tiver um ancestral negra, ela é uma negra. Então isso dá uma unidade muito maior aos negros norte-americanos. E por isso que eles reagem em grupo com muito mais força no Brasil, nós entendemos que eh essa onda antirracista. Eu diria até que esse levante já está acontecendo no Brasil, mas está acontecendo pacificamente nas redes sociais através da veias políticas através da Justiça, recorrendo aos tribunais para denunciar o racismo e para enquadrar na forma da lei os racistas nesse aqui no país, . Mas eu não vejo nesse momento. Menos possibilidade de aquele formato de levante a partir da questão do racismo no Brasil, assumir as mesmas proporções. Aqui no Brasil, o movimento negro tem atuado de forma pacífica, dentro dos mecanismos e instrumentos que a lei permite, principalmente através da Justiça e mesmo quando vai às ruas, o movimento negro tem pautado sempre pelo respeito. São as liberdades democráticas dentro da ordem.

 

 

3- A covid tem maior mortalidade entre negros. Isso seria reflexo da desigualdade social/racial do país?

 

Quanto ao nível de de mortalidade pela covid que atinge mais a população negra, que salve engano, está na proporção na proporção de cinco para um pra cada branco que é atingidos, tem cinco negros que são atingidos.  Se alto nível de contaminação são as condições sociais em que vive a população negra, porque nós sabemos que as estatísticas todas demonstram através do IBGE que essa população ela forma em massa. De pessoas que habitam favelas que habitam em condições de moradias, consideradas subnormal, mas sem acesso a saneamento, sem acesso às condições básicas de higiene. Alimentada em função da precariedade, das formas de trabalho que aqui elas estão submetidas e, portanto, a gente tem dois elementos. Elas estão expostas a maiores fatores de risco para se contaminar pelas péssimas condições de moradia e trabalho também. Elas também estão mais expostas a letalidade do vírus em função das questões de imunidade. De de terem maior dificuldade para terem seus corpos com com um aumento da imunidade para resistir ao vírus e principalmente das deficiências alimentares que atinge essa população.

 

4- Perfis nas redes tem tentado denunciar fraudes em cotas raciais. Esse movimento tem sido questionado por expor pessoas sem comprovação de cumprimento de critérios. De que forma isso pode ser perigoso para essa política inclusiva?

 

Eu diria que as cotas são uma realidade, que são legítimas e constitucionais -inclusive isso já foi submetido ao Supremo Tribunal Federal, que deixou muito claro para toda a nação que elas devem ser, sim, adotadas pelo Estado. Elas vêm a corrigir injustiças e crimes históricos que foram cometidos contra os negros e negras desse país ao longo de quase 400 anos de escravidão, mais de também durante todo o período republicano pela omissão do Estado em adotar políticas públicas que promovessem a efetiva inclusão social da população negra. Todavia, como como toda política pública -isso não é só nas cotas, a gente vê no Bolsa Família, nos programas assistenciais -, existe a necessidade de ir se aperfeiçoando os mecanismos de acesso a essas políticas. No caso das cotas, de fato, têm sido detectadas algumas situações que podem ser enquadradas como fraude, de pessoas que não têm ascendência afrobrasileira, não se assumem como afrobrasileira, e que estão fazendo autodeclaração por acreditarem que vão concorrer em melhores condições através das cotas. Nesse sentido, em todo país, as universidades já vêm adotando o modelo das comissões de averiguação. São comissões que são formadas em universidades, são treinadas e capacitadas para, durante o processo seletivo, realizar entrevistas com os candidatos cotistas e averiguarem de fato a sua afrodescendência para que não haja essas fraudes. Nesse sentido, as medidas estão sendo tomadas a principal delas. São essas comissões de averiguação, que já estão acontecendo em todo país, inclusive aqui na Ufal.

 

 

5- Como você avalia os movimentos negros de Alagoas nesse momento de divisão política e ataques às liberdades religiosas? Há aumento de ataques?

 

O movimento negro em Alagoas é um movimento, eu diria heterogêneo. Nós temos organizações de diversos matrizes. Temos organizações ligadas aos grupos tradicionais, como é o caso dos quilombolas que sua organização estadual é através de uma associação, nós temos os capoeiristas que têm as suas federações de capoeira. Nós temos, os religiosos que hoje já constituíram a rede estadual de pobres de Terreiro. Nós temos as organizações não governamentais que atuam com projetos culturais, com projetos de formação. Mas eu acho que ainda falta no estado de Alagoas, uma coesão e a construção de uma uma frente. Uma frente unitária unificada dessas organizações para fazer convergir com mais de uma forma sistemática as pautas de cada segmento desse e transformar numa grande agenda de reivindicação de mobilização junto aos poderes públicos. Nós temos reiteradamente casos de racismo contra indivíduos negros em Alagoas, contra religiosos de matriz africana. É uma realidade recorrente e temos o ainda o aspecto que é muito forte em Alagoas: o da violência que atinge a população negra, principalmente a juventude negra. Nós ainda somos um dos estados onde mais morrem jovens negros. Os negros e negras desse Estado são cidadãos e cidadãs que merecem respeito independente da classe social, independente de onde mora. Acho que o movimento negro em Alagoas é forte. Tem uma grande quantidade de organizações hoje, muito mais do que no passado, e que tem atuado fortemente. Por exemplo, o movimento religioso anualmente vêm fazendo o Xangô rezado alto contra a intolerância religiosa. Eu acho que ainda devemos construir uma frente unitária.