Rs=w:350,h:263,i:true,cg:true,ft:cover?cache=true

Não bastasse a pandemia que leva milhares de vidas, realça as debilidades do nosso sistema de saúde (público e privado) e agrava a crise econômica que eclodiu com a bolha imobiliária americana em 2008 (não superada até a atualidade); passamos por essas crises vendo-as se misturar com outra, o acirramento da luta política. Brasil e EUA são exemplos da atualidade do ditado popular: o que tá ruim pode ficar pior.

Feridas não curadas, problemas sociais jogados para debaixo do tapete, quando relativizados em momentos de aparente “tranquilidade” e “normalidade” institucional, não deixam de vir à tona quando o cenário se agrava e os ânimos estão à flor da pele. Por não termos superados as profundas desigualdades socioeconômicas, nunca deixamos de viver num cenário de crise, as injustiças sociais acontecem todos os dias, mas tem momentos que a sociedade parece se acostumar com tanta pobreza, preconceito, violência contra negros, mulheres, crianças, índios, idosos, pobres...

O imposto e necesário isolamento social evidenciou ainda mais a violência contra a mulher, cujas agressões mais acontecem onde deveriam ser acolhidas, em suas casas e relacionamentos amorosos. O assassinato de pobres e negros deixou de ocorrer às escondidas nas comunidades mais carentes para ser transmitido para todo o mundo, o chocante assassinato de George Floyd revolta, tantas vidas inocentes foram levadas antes, no Brasil de João Pedro, Ágatha Vitória... até quando?  

Momentos como este mostram o quanto precisamos superar em definitivo esses problemas para que a tão sonhada sociedade mais justa se concretize, essa luta precisa ser travada todos os dias, mas como fazer em tempos de pandemia em que para salvar vidas precisamos nos afastar? É momento de se posicionar, alguns preferem o confronto físico, mas a evolução do Direito mostrou que a Lei de Talião alicerçada na ideia de “olho por olho, dente por dente” não é sinônimo de justiça, apenas que o mais forte fisicamente vence o mais fraco, que o mais rico vence o mais pobre. O que resolve em definitivo é o confronto de ideias, a conscientização da sociedade, como diz o ditado: pessoas vem e vão, as ideias ficam; apenas numa democracia ideias podem ser debatidas.  

Vejo notícias que demonstram que o nível de intolerância está alto mesmo nos que se dizem contra o racismo e a favor da democracia, li Lula dizendo que o PT não poderia assinar notas que defendessem a democracia se essas notas fossem assinadas também por algumas pessoas que foram a favor da queda de Dilma: a luta contra o impedimento foi derrotada, tá registrado na história para que lições sejam tiradas, quem foi contra a derrubada de Dilma não pode ser a favor da democracia agora? Por que excluir pessoas por posturas A, B ou C do passado se afinal a luta que importa no momento é a defesa da democracia?

Nesta semana fatos importantes ocorreram: no Brasil e nos EUA pessoas deixaram de lado o medo da morte provocado pela Covid-19 para gritar contra algo que mata muitos inocentes há mais tempo, o racismo; no Brasil crescem as preocupações com as constantes ameaças à democracia e fez com que atores que protagonizavam outras esferas se jogassem na luta política - torcidas de futebol de times rivais que deixaram a rivalidade de lado e entraram em campo e juristas prestigiados que colocaram seus ensinamentos sobre a democracia em prática com o lançamento do manifesto “Basta!”.

Sem democracia o que resta é ditadura, autoritarismo! Já temos muitos exemplos na história da humanidade do quanto ditaduras aprofundam desigualdades, os mais recentes e chocantes foram na Alemanha nazista e na Itália fascista. O terreno para que a luta contra o racismo, machismo e outras formas de preconceito sejam travadas com maior chance de vitória é na democracia, pois em ditaduras sequer existe debate e margem para opiniões contrárias.  

Se a ideia não é apenas fazer discurso político, mas vencer uma luta, para se ganhar é necessário unir o máximo possível de pessoas em torno dessa ideia. Não se escolhe aliado nas lutas centrais, defender a democracia e a igualdade, combatendo todas as formas de preconceito, são lutas das mais estratégicas da atualidade que precisam ser travadas juntas, não é hora de olhar para as diferenças de quem se dispõe a lutar pelas mesmas causas. Há lutas centrais que se vencidas, ajudarão a desatar os nós de outras lutas. Grandes problemas exigem grandes lutas, que exigem muitos aliados.