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Caro (a) leitor (a),

Você tem todo o direito à sua visão de mundo, a construção de suas convicções filosóficas, políticas etc. O que não temos direito – queiramos ou não – são aos nossos próprios fatos. Por essa razão é uma questão de honestidade intelectual saber diferenciar o que são fatos do que são opiniões, motivo pelo qual acredito que o estudo, a leitura e o esforço na interpretação da realidade – tratando as próprias convicções à chicotadas – é algo extremamente necessário.

Assim, aprendemos a lidar com a liberdade. Afinal, temos a liberdade para assumir as nossas ideias, mas sabendo que elas possuem consequências, pois seremos sempre julgados, seja socialmente (em função do debate público e do confronto com a realidade), seja judicialmente, caso se cometa algum crime no exercício da liberdade de expressão. Esses estão postos nos nossos códigos vigentes.

Dito isso, a partir dos fatos, você constrói a opinião que deseja, assumindo um corpo de valores que lhe faz pensar ou agir. Agora, infelizmente, no debate público da política brasileira, estamos vivenciando uma miséria intelectual terrível, pois as palavras se esvaziam de sentido quando empregadas de qualquer forma e sem a correspondência à realidade que elas de fato traduziriam.

É o que ocorre, nesse momento, com a vulgarização de conceitos que descrevem regimes políticos que foram reais e nefastos na História do século XX, deixando um rastro de sangue, perseguições e sufocamento das liberdades civis, religiosas etc, por meio da imposição de Estados completamente totalitários.

Surgem agora, pelas redes sociais, o uso dos termos “fascismo”, “nazismo” e “comunismo” da forma mais vazia possível, tornando conceitos que definem regimes deploráveis em meros xingamentos.

Dessa forma, na tentativa de intimidar adversários políticos – muitas vezes em função de divergências de ideias – as pessoas são acusadas por meio de termos que, em essência, as definem, de falsa e caluniosa, como criminosas.

Afinal, quem defende esses regimes aqui citados passa a defender – imediatamente – um histórico de assassinatos, prisões, torturas e outros crimes contra a humanidade. Portanto, o objetivo de tais acusações vazias muitas vezes é a intimidação política para silenciar o adversário, emparedá-lo, deixá-lo com medo de se expressar para não ser taxado como defensor de algum desses “ismos”, ainda que a acusação verdade não seja.

O grande mal disso é que tais termos se esvaziam de sentido e se distanciam do que de fato são. O fascismo – por exemplo – é um regime político cuja a doutrina, como publicada pelo próprio Benito Mussolini, quer tudo pelo Estado, para o Estado e com o Estado, dentro de um poder coercitivo autoritário que sequestra todas as liberdades, sendo antiliberal por natureza e totalmente distante do que prega uma visão conservadora de mundo, que é o respeito pelas tradições, pelas religiões, por direitos considerados naturais (como a propriedade, a liberdade e a vida), que é a defesa do livre mercado. Nada mais oposto a um fascista que um liberal ou um conservador, quando esses realmente sabem o que é o liberalismo e o que é o conservadorismo.

Quem tiver dúvidas pode buscar a leitura de uma obra chamada Fascistas de Michael Mann ou até mesmo o clássico Anatomia do Fascismo de Robert Paxton. Ainda pode ser indicado aqui o estudo das ideias políticas feito por Eric Voegelin. O fascismo perseguiu ideias liberais e religiosas, querendo que o Estado estivesse acima de tudo e fosse o mediador de todas as relações, controlando trabalhadores, empresas, imprensa, enfim… A mesma essência encontraremos no nazismo, que é outra ditadura sanguinária apoiada em uma visão racial pseudo científica, como muito bem mostra Richard Overy na obra Os Ditadores ou até mesmo Richard Evans, em sua trilogia sobre o Reich.

Isso produziu milhões de mortos e é preciso ter respeito por essas vítimas, muitas delas anônimas. Homens que perderam esposas, pais e mães que perderam filhos, tudo isso da pior forma possível. Nada disso é um mero xingamento, ora bolas.

Não podemos vulgarizar esses termos simplesmente para criar uma narrativa que autorizaria pessoas aos atos mais brutais em nome do combate a um imaginário que não se sustenta nos fatos, como vimos em alguns protestos recentes que descambaram para a pancadaria.

Essa vulgarização tem feito com que alguns intolerantes assumam para si o rótulo de democráticos e tentem calar – de todas as formas – aqueles que divergem deles. Como diria Winston Churchill, no futuro os que possuem algum tipo de tendência fascista chamariam os outros de fascistas para assim tentarem impor as suas convicções.

A lição é velha. O sanguinário ditador da extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, J. Stalin também rotulava qualquer um de seus inimigos de fascista, como fez até mesmo com L. Trotsky, por exemplo.

Essa vulgarização dos termos também ocorre com o “comunismo”. O comunismo foi sim nefasto, como mostram as obras de Archie Brown, Alain Besançon, Simon Sebag, Richard Overy, Robert Gellately, Robert Service, Richard Pipes e tantos outros.

Documentos históricos não faltam. Mostram ali os fuzilamentos, a vida sem liberdade (como ocorre em Sussurros de Orlando Figes), a prisão do Gulag, o genocídio pela fome (o Holodomor) etc. A maioria dos historiadores falam em mais de 100 milhões de mortos, sendo o Estado o executor de seu próprio povo. Em termos proporcionais, o pior dos regimes comunistas ainda foi o Camboja, em que aproximadamente1/3 da população foi tirada de suas casas, levadas a campos de concentração e muitos executados.

É preciso – caros (as) leitores (as) – termos mais conhecimento sobre esses termos antes de usá-los de forma tão vulgar e desprendidos de suas cargas históricas. O estudo é que nos fará compreender a realidade do que eles são para sabermos onde eles se empregam, pois é possível sim divergir do outro, repudiar um conjunto de ideias, ter a própria visão de mundo, usar do espaço democrático para o debate de ideias e até mesmo condenar determinados autoritarismos.

Mas, nem tudo aquilo que enxergamos como errado, como algo a ser mudado, transformado e até mesmo como um ataque a essa ou aquela liberdade (e por isso algo a ser repudiado) é nazismo, fascismo ou comunismo. Tenhamos consciência do que essas palavras realmente representam. Façamos isso em nome das vítimas dessas três desgraças do século XX.