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Foi a pandemia do novo coronavírus que me fez deixar o blog com atualização irregular nas últimas semanas. De forma bastante aguda, digamos assim, a Covid-19, a doença que mata milhares de pessoas no Brasil, fez um estrago infernal em minha casa. E ainda vi pessoas conhecidas, algumas muito próximas, enfrentarem o mesmo drama. Quando isso tudo começou parecia que, em Alagoas, a coisa não seria tão grave. Mas, como de resto no país inteiro, a crise se espalhou no vento – e deixa o sistema de saúde à beira do colapso.

Mas a vida segue. No meio da volta à rotina possível, as pequenas obrigações do dia a dia e as demandas do imprevisível se misturam a memórias recorrentes. Um dado marcante para as famílias que perderam parentes é a convivência – inescapável – com as circunstâncias da perda. Porque afinal o noticiário está aí para ninguém esquecer o que aconteceu. Só se fala em pandemia.

Ou quase. Como jornalista que pretensiosamente escreve sobre tudo, incluindo a política, neste espaço tenho de me ocupar, por exemplo, de Bolsonaro e sua reunião ministerial que mais parecia um seminário de milicianos. (Essas coisas fazem o Brasil de hoje virar piada mundial). De todo modo, portanto, tenho que dar atenção, talvez com prioridade, ao que chamamos de realidade factual.

Suponho não configurar exagero alardear que a pauta factual do agora está dividida em dois grandes grupos. 1) O pacote de notícias sobre a tragédia na saúde. 2) O pacote de notícias sobre a tragédia na política. A primeira tragédia se mistura à segunda como raras vezes terá ocorrido na história do país. Uma e outra, inapelavelmente, repartem os venenos prescritos para uma imensa destruição.

Vidas destruídas. Enquanto escrevo, são mais de 28 mil os mortos pela Covid-19 no país. E enquanto você lê este texto, a democracia no Brasil enfrenta, sim, ameaças destrutivas. Os últimos lances do embate entre os poderes Executivo e Judiciário atestam o perigo instalado no Palácio do Planalto. A gang chefiada pelo presidente arreganha os dentes e cospe fogo. A escumalha se assanha.

Desde a redemocratização, há mais de trinta anos, jamais houve algo parecido com o atual panorama. De Collor a Temer, a sombra de ruptura institucional simplesmente nunca existiu. Crises foram muitas, e graves, é claro, mas sempre com o percurso e o desfecho pelos caminhos do Estado de Direito. Hoje não. É de estarrecer o retrocesso a sujar tudo – da enseada ao horizonte.

A sujeira está naquilo que brincalhões chamaram um dia de nova política. A “renovação” nos deu Bolsonaro, Weintraub, Ricardo Salles, Zambelli e outros insetos do mesmo esgoto. Chamar essa corja de extrema-direita é elogio. No topo do poder estão reacionários de causar repulsa – além dos citados, veja-se o chefe da diplomacia, o bisonho Ernesto Araújo. O país não aguenta isso.

Em todas as esferas da vida brasileira o clima é de perplexidade e apreensão. Parece que a qualquer momento outra bomba vai estourar, e o terremoto de amanhã é tão certo quanto o de hoje – com estragos ainda mais devastadores. Quando e como as crises vão passar é mais que uma dúvida em projeções. Com atos e discursos delinquentes, Bolsonaro e quadrilha apostam no impasse.

Neste domingo, manifestações pelo Brasil acabaram em confusão e conflitos com a polícia, sobretudo em São Paulo. O marginal que ocupa a Presidência da República voltou às ruas, agora em cima de um cavalo – caso raro de um quadrúpede galopando sobre outro. É mais um dia a nos avisar que o acirramento da crise generalizada se torna cada vez mais perigoso. A barbárie parece iminente.

Por aqui, o governo estadual acaba de prorrogar o decreto que impõe o isolamento social e outras medidas em decorrência da pandemia. Ainda não foi desta vez que o governador Renan Filho decidiu por alguma flexibilização que permitisse a reabertura de setores da economia. É mais ou menos o que ocorre nos demais estados do país. O fim do isolamento é visto como muito arriscado.

Volto ao relato particular – espero que sem exageros. Enquanto cuidava de questões como atestado de óbito em cartório, documentação pra liberar o corpo no hospital, telefonemas do plano funeral, pagamento de taxa para o sepultamento – enquanto fazia o que tinha de fazer, repito, os sinais da pandemia continuavam a interferir em tudo. Toda ação obedece a restrições decorrentes da doença.

Da unidade hospitalar ao cemitério, a nova paisagem imposta pela pandemia é mais evidente – e parece nos alertar que enfrentamos um inimigo cruel, implacável. As luvas, as máscaras, as roupas especiais para quem está na chamada linha de frente – do médico ao coveiro –, tudo forma um cenário que jamais imaginamos. Poderia ser um filme. Mas está aí, num realismo bruto, sem filtro.

Estive em central de triagem para teste da Covid-19; acompanhei uma paciente em ambientes hospitalares e procurei uma UPA na madrugada; falei com médicos e enfermeiros; fui informado que não poderia acompanhar a pessoa internada devido ao perigo de contágio. Falei com a paciente pela última vez por telefone. Depois vieram a UTI e os boletins preocupantes... E depois o fim.

Para reconhecer o corpo, quem perde um parente para a Covid-19 precisa tomar cuidados essenciais. O pessoal do hospital e da funerária trata de garantir a segurança nessa hora inexplicável. No sepultamento, uma fila de carros funerários e caixões. Sem aglomeração. Cada enterro tem apenas poucas pessoas ali naquele ritual. Em alguns casos, duas ou três testemunhas na última despedida.

Para as famílias atingidas diretamente pela pandemia, a perda se dá no âmbito mais íntimo e pessoal – em outras palavras, como se diz, é a tragédia na própria pele. Mas, além disso, cada um dos milhares de nós tem de encarar a dor num contexto de convulsão nacional, de sinais de loucura pra todo lado. A pandemia combina com o Brasil de Bolsonaro. Duas maldições em nossas vidas.

Fechando. Escrever sobre experiência pessoal não é das melhores coisas para um jornalista e para o jornalismo. Os riscos são variados e estão em cada esquina do pensamento e das palavras. O mais grave, deplorável mesmo, é o sentimentalismo. Sendo algo no campo do drama, então, expressões e frases apelativas querem invadir a tela a cada batucada no teclado. Tentei escapar dessa armadilha.

Bom dia!