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Há muito que pontuo, nesse espaço, que a necessária discussão sobre os efeitos da paralisação das atividades econômicas na vida das pessoas deve ser feita de forma paralela às medidas adotadas para o combate à pandemia do novo coronavírus, Covid-19 ou “vírus chinês”.

Porém, ainda há aqueles que enxerguem uma falsa dicotomia entre a economia e a saúde, quando – na realidade – o desemprego em massa afeta diretamente também questões de sobrevivência e, consequentemente, a saúde, incluindo aí a saúde mental das pessoas que se encontram confinadas, desempregadas e sem perspectivas a não ser auxílios estatais.

Bem ou mal, gostem ou não do atual governo federal por conta da figura do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), até aqui a maior ação de atenção aos mais vulneráveis tem sido justamente o auxílio emergencial. É por conta desse que a situação não se encontra pior.

O governo estadual de Renan Filho (MDB), por exemplo, não teve a mesma competência de atenção a esse povo, e milhares de pessoas que simplesmente buscam a sobrevivência começam a ser tratadas como se criminosas fossem, como se a situação não tivesse uma complexidade por si só.

Vale lembrar que nem mesmo o programa de distribuição de cestas nutricionais do governo do Estado – como bem frisou já a deputada emedebista Jó Pereira (do mesmo partido do chefe do Executivo estadual) – foi de forma a atender a quem mais precisa; sem a transparência necessária dos recursos do Fundo de Participação de Combate à Pobreza, só atingiu a metade dos necessitados. Isso sem contar com outros problemas do governo, como só dar publicidade com maior transparência aos dados (inclusive, os gastos) do combate à pandemia depois de cobrado pelo Ministério Público Estadual (MPE) e pelo deputado federal João Henrique Caldas, o JHC (PSB).

No parlamento, deputados como Bruno Toledo (PROS), Jó Pereira, Davi Maia (Democratas) e Cabo Bebeto (PSL) já cobravam publicamente que o governo do Estado apresentasse uma comissão que discutisse a retomada econômica o quanto antes. Pereira chegou a sugerir um nome para esse grupo: o Comitê da Primavera. Todavia, o governo estadual – mesmo diante da queda de arrecadação – foi lento na apresentação dessa discussão, ainda que já estivesse sendo pressionado pelo setor produtivo, como as notas divulgadas pela Federação do Comércio, Bens, Serviços e Turismo (Fecomércio/Alagoas), Aliança Comercial, dentre outras entidades.

Agora, depois de vários decretos governamentais paralisando o setor produtivo diante da necessidade de evitar aglomerações, é que o governo apresenta um Grupo de Estudos (portaria publicada em Diário Oficial) com 15 dias para apresentar as primeiras conclusões. O governo do Estado de Alagoas tratou – a meu ver – uma questão fundamental como secundária. Afinal, pensa tal como a filosofia dos estatistas: busca-se dinheiro em outro lugar, como a luta pelo socorro por parte do governo federal, como se o alvo da arrecadação, no final das contas, não fosse só um.

O governo Renan Filho age com atraso. Mas, que o grupo de trabalho criado para essa finalidade possa então discutir o assunto a sério.

Por conta do que descrevo acima é que me chamou a atenção as falas do economista Cícero Péricles ao debater o assunto – em uma live – com a deputada Jó Pereira. Péricles mostra uma visão semelhante a minha. Ele se pauta em dados para demonstrar uma preocupação que deveria estar presente na administração estadual desde suas primeiras medidas. Segundo o economista, Alagoas tem hoje mais de 26 mil empregos formais a menos, com uma queda só no comércio que atinge os 8%. Mais que isso: 68% das famílias alagoanas estão inadimplentes e mais de 30% não conseguirão pagar as suas dívidas.

Para quem acha que isso representa apenas os números frios de uma economia que pense na saúde mental dessas pessoas, na ausência de perspectiva em um país que já amarga a dificuldade de se conseguir estar no mercado de trabalho, na preocupação com os filhos, com garantir o sustento diário e tudo aquilo que também gera doenças em função dessa situação vivenciada.

O Estado – como sempre – não conseguirá dar resposta a isso. O setor produtivo – por mais incremento que venha a ter agora, ou facilidade e desburocratizações – terá problemas enormes para se reerguer.

Aconselho aos (às) leitores (as) que assistam a live, no canal oficial da deputada estadual Jó Pereira, e percebam as falas de Cícero Péricles. Ele é taxativo: a discussão do retorno da atividade econômica em Alagoas está muito atrasada em relação a outros estados. Ele diz que é necessário pensar em um plano de investimentos e na continuidade dos programas ofertados pelo governo federal.

Pois é, mais uma vez, o socorro estará além das fronteiras. Ora, ora, ora, eis o que sempre eu disse aqui em outros textos, mas não necessariamente com essas palavras. Porém, o governo Renan Filho apresenta o seu grupo de estudos como se tivesse descoberto a pólvora, como se estivesse tudo dentro do tempo.

Eis a fala de Cícero Péricles: “O diálogo e planejamento dessa retomada está muito atrasado aqui. Precisamos de agilidade e apresentação de propostas, visando o avanço dos outros estados. Precisamos começar a planejar as medidas que serão tomadas daqui pra frente, assim como defender fortemente a prorrogação das medidas tomadas pelo governo federal, como é o caso do auxilio emergencial e da suspensão da dívida do Estado”.

Um plano era para ontem. Péricles destacou ainda a importância da iniciativa do governo – ainda que com atraso. Afinal, é o óbvio: “Um plano e um calendário acalmam e permitem a algumas empresas planejarem sua retomada. Cada segmento da economia tem um perfil. O drama está nos setores considerados não essenciais, que precisam ter planejamento diferenciado”.

Mas há quem ache que é ser muito “capitalista malvadão” falar sobre isso agora!