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Foi uma longa viagem de mais de dez anos. Os cineastas Marcelo Gomes e Karim Aïnouz cruzaram o sertão do Nordeste brasileiro colecionando imagens, sensações e percepções. O resultado dessa travessia é o longa "Viajo porque preciso, volto porque te amo". "Queríamos fazer um filme em primeira pessoa, como um diário de viagem", explicou Marcelo ao UOL Cinema. Sua estreia mundial aconteceu na mostra Horizontes, no Festival de Veneza, onde foi bem recebido. Depois, passou pelo Festival do Rio, de onde saiu com o prêmio de direção.

"A recepção tem sido muito boa. Fiquei impressionado com a reação do público em Veneza, foi uma comoção muito grande", contou Marcelo. Sua primeira sessão na 33ª Mostra Internacional de Cinema nesta sexta.

O diretor acredita que a história permite que o público mergulhe numa reflexão de suas próprias memórias. "É um filme sobre viagens, tanto reais, quanto metafóricas, por isso instiga a memória e a imaginação". Instigar, aliás, é uma das palavras de ordem em "Viajo porque preciso, volto porque te amo". O protagonista, um geólogo \'vivido\' pelo ator Irandhir Santos praticamente não aparece na frente da câmera - apenas ouvimos a sua voz. O longa é o diário desse personagem composto por fotos, gravações e muitas, muitas memórias.

"É um trabalho muito sensorial, por isso o som e as cores são muito importantes", explica o diretor. O personagem tem uma história de vida - muito bem resumida pelo título do filme - que, aos poucos, vai sendo revelada. "Quando o público descobre o segredo do personagem, você se torna ele também. Você fica ao lado dele, acompanha a viagem pelos olhos dele".

Caminhos reais e cinematográficos


Com opções estéticas ousadas, Marcelo e Karim querem explorar novos caminhos, novas possibilidades na linguagem do cinema. "Não é preciso mostrar o personagem para você tocar a fundo o público. Cogitamos em colocá-lo em cena, mas desistimos. Percebemos que não seria necessário ele aparecer na frente da câmera para servir para aquilo que queríamos. A nossa intenção era mesmo bagunçar, no bom sentido, a linguagem cinematográfica".

Nesses dez anos de captação de imagens o projeto sofreu algumas transformações. A primeira delas foi no gênero. "Seria um documentário, mas depois percebemos que com uma ficção conseguiríamos acessar mais a fundo nossas memórias e chegar ao público". O filme foi feito, nas palavras de Marcelo, "num esquema de guerrilha". E completa: "Fomos colecionando impressões, sensações e combinando tudo isso com nossas memórias. É um cinema muito à flor da pele".

Nesses dez anos, Karim e Marcelo se depararam com diversas pessoas pelo sertão. Muitas delas estão no filme, são aquelas com que o protagonista interage - como uma prostituta chamada Pati Simone, que sonha em "ter uma vida lazer" - ou seja, uma vida tranquila, sem preocupações, especialmente, financeiras.

"Foi um filme feito ao contrário, do fim para o começo. Primeiro captamos as imagens, e depois escrevemos o roteiro. \'Viajo porque preciso, volto porque te amo\' mexeu muito comigo e o Karim. Tenho certeza de que irá influenciar os nossos próximos filmes", confessa. Marcelo já está em fase de captação de um novo projeto que pretende rodar no próximo ano. "Deverá se chamar \'Era uma vez Verônica\'. Eu quero fazer em Recife. Será uma história urbana, contemporânea e jovem, sobre pessoas na idade de sair da faculdade e que começam a se perguntar o que farão da vida."

Em meio a esse processo de "fazer o filme ao contrário", Marcelo e Karim se depararam com uma frase pintada na parece de um bar de estrada. "Era um daqueles pensamentos de pára-choque de caminhão mesmo. Algo simples, mas ao mesmo tempo muito poético e muito bonito, é ultrarromântico". A frase? "Viajo porque preciso, volto porque te amo". "Quando a gente encontrou isso num copião de duas horas que havíamos feito, percebemos que tinha tudo a ver com a história do personagem. Era a síntese do nosso filme que estava ali diante de nós".