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Na Organização Arnon de Mello, durante as últimas cinco décadas, Carlos Mendonça (foto) teve mais poder do que incontáveis diretores que ele viu passar pelas empresas da família do senador Fernando Collor. Doutor Carlos, como era chamado nos corredores da TV, da rádio e da Gazeta de Alagoas, foi o mais importante conselheiro de Arnon de Mello – e acabou exercendo o mesmo papel junto a Fernando Collor, filho do fundador da OAM. Ele morreu na quarta-feira 13, aos 82 anos de idade, vítima da pandemia de Covid-19.

Conheci Carlos Mendonça em algum dia de 1991, nos meus primeiros tempos de editor na TV Gazeta. Ele aparecia com alguma frequência naquele ambiente de temperatura gelada que são as ilhas de edição. Nunca estava mal-humorado e cultivava uma gentileza que era, arrisco dizer, marca peculiar em sua personalidade. Gostava de piada e, não poucas vezes, mandava muito bem na ironia.

Mudei de função ao longo dos anos na TV Gazeta. Vi a queda de diretores e a chegada de novos nomes para comandar as empresas. Não importava o panorama – fosse de calmaria ou de crise –, Mendonça estava lá, com a mesma postura, intocável por aclamação, digamos assim. Executivos iam e vinham, arrastados pelas circunstâncias. Ele, ao contrário, era imune a solavancos de ocasião.

Eu disse que ele tinha poder. Isso não é muito fácil de explicar. Não se tratava de alguém que dava ordens no dia a dia das Gazetas. Essa atribuição ordinária era para executivos, superintendentes, diretores e gerentes. A prateleira do Doutor Carlos estava acima desses patamares. Sua influência vinha da ligação inabalável com a família Collor de Mello. Havia admiração e respeito mútuos.

O advogado Carlos Mendonça, que exerceu, entre outros, os postos de consultor-geral e secretário do Gabinete Civil do Estado, era também uma testemunha da história política de Alagoas e do Brasil. Esteve no núcleo duro das campanhas eleitorais de Arnon de Mello e Fernando Collor. Além de orientar os passos do candidato, também podia botar a mão na massa e redigir o discurso.

Para quem ficou por tanto tempo no mesmo lugar, com as mesmas atribuições, o conselheiro da OAM viu de perto abalos na política estadual – às vezes terremotos. Nessas horas, se Arnon ou o filho Fernando estavam no meio dos eventos, Doutor Carlos era a voz a ser ouvida, porque afinal dele se esperava ponderação e ideias valiosas. Ele cuidava desses temas com afinco, zelo e discrição.

Deixei a TV Gazeta em 2001. Mas em janeiro de 2004, menos de três anos depois, assumi a editoria de política da Gazeta. E reencontro Carlos Mendonça, agora em minha nova rotina do jornalismo impresso. Assim como fazia na TV, mas com maior frequência, em alguma parte do dia ele marcava presença na redação. Comentava o noticiário e distribuía elogios aos jornalistas no batente.

A partir de janeiro de 2005, a Gazeta passa por uma mudança importante. Virei o editor-geral, e Carlos Mendonça se tornou presidente do novo Conselho Estratégico da OAM. Ao menos uma vez por mês participava da reunião do conselho que, naquela época, tinha entre seus membros o engenheiro Vinicius Maia Nobre, a museóloga Carmem Lúcia Dantas e o empresário Álvaro Vasconcelos.

Também havia as reuniões semanais da diretoria da OAM. Toda segunda-feira, a partir de oito da manhã, começava o falatório que poderia durar até umas três horas. Ali todos se portavam com mais seriedade no momento de ouvir o Doutor Carlos. Sentado ao meu lado estava sempre o então coordenador-editorial da OAM, jornalista Ênio Lins, hoje secretário de Comunicação do Estado.

Carlos Mendonça usava sempre terno e gravata, o que parecia reforçar a imagem de um homem que zelava pela sobriedade e pelo respeito à liturgia. Essa rotina durou quase uma década pra mim. Naqueles tempos agitados, de longas jornadas na redação, com Doutor Carlos tive inúmeras e boas conversas. No diálogo, ele acabava sempre por expor sua preocupação com a realidade alagoana.

Falta dizer que ele também foi ao mesmo tempo testemunha e personagem (quase sempre nos bastidores) da história da imprensa em Alagoas. Embora antenado com as novidades digitais, era fanático pelo jornal impresso. Recusava-se a abrir, na véspera, a edição de domingo – que saía no sábado – porque não via sentido em antecipar o sagrado ritual da leitura. Era o que ele me dizia.

Carlos Mendonça é uma das mais de 15 mil vítimas (até agora) do novo coronavírus no Brasil. Seu filho Alfredo Gaspar, ex-procurador-geral de Justiça, também contraiu a doença e faz tratamento. Além da minha solidariedade pela terrível perda, torço por sua plena recuperação. E que leve adiante, na vida pessoal e na trajetória profissional, as lições e os valores do pai – um brasileiro culto e honrado.