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Você vai receber um telefonema do hospital, diariamente, a partir das quatro da tarde, com um boletim sobre o quadro da paciente. Quem diz isso é a atendente de uma unidade hospitalar da rede privada em Maceió. Ela fala com os filhos de uma senhora que acaba de ser internada, mais uma vítima do novo coronavírus. Além disso, não há muito a dizer naquele contato. A atendente acrescenta que o telefonema pode atrasar um pouco, mas não deixará de ocorrer. De repente, uma espera angustiante como nunca houve.

No dia seguinte à internação, o primeiro telefonema, com o boletim, não se deu às quatro da tarde, mas quando já eram quase dez da noite. A médica fala com calma, sem pressa, com atenção e cuidado. Parece medir cada palavra. Pergunta se está sendo clara, se o parente da pessoa internada está entendendo tudo. O quadro é estável. Não é possível fazer qualquer tipo de previsão.

Se o primeiro boletim chegou à família com atraso, vieram dois dias sem notícia. A partir das 16 horas, a cada momento o celular é checado. 18 horas, 19h... Familiares ligam para o hospital, mas não conseguem informações. O contato direto com a paciente é possível, também por celular, claro. Mas, no caso aqui, no segundo dia sem notícia do hospital, a paciente parou de atender ao telefone.

Finalmente uma ligação do hospital. Mais de 48h com uma tensão elevada. A médica vai explicar o quadro da paciente – que tem 70 anos e já enfrentou um câncer. As notícias não são boas. A situação dos pulmões se agravou bastante. Ela sentia muito desconforto. Tivemos que proceder a sedação, colocamos ela pra dormir. Ela não sente dor, não se preocupe. Está entubada, na UTI.

No quinto dia de internação, uma ligação do hospital no começo da tarde. Fora de hora. Estranhamente mais cedo. Era uma psicóloga. Quem atende leva um susto diante dessas duas inesperadas novidades – o telefonema antecipado e uma psicóloga do outro lado da linha. Ela então explica que, dada a gravidade do caso, seu contato é parte do serviço de apoio do hospital à família.

Essa é a rotina que invadiu a vida de milhares de famílias no Brasil, desde a explosão da pandemia de Covid-19. Não sei, acho que ninguém sabe, como tal realidade afeta cada um dos que enfrentam a parada na própria pele. Sei apenas dos efeitos mais óbvios, aquilo que bate em todo mundo que vê a mãe ou o pai, ou um filho, ameaçados pela doença: na incerteza, uma agonia em tempo integral.

A professora aposentada de quem falo aqui foi primeiro levada à emergência do hospital de seu plano de saúde. Ela entrou por volta de três da tarde. Somente perto das dez da noite vieram as primeiras informações. E a família soube que haveria internação imediata. Mas os leitos para casos de Covid-19, ali, estavam todos ocupados. Foram quase 24 horas pra resolver esse drama.

Mas aquilo já não é nada dramático diante do que veio depois – como falei, o agravamento do quadro clínico. Não há o que fazer. Não se pensa em outra coisa. Amigos e familiares, de perto e de longe, pedem notícias, mandam força, dizem que é preciso ter fé, que estão rezando, essas coisas a que a maioria de nós se aferra. Os filhos deixam o trabalho, se isolam. O dia a dia é todo absurdo.

Além do boletim diário, qualquer mudança importante no quadro, a gente avisa imediatamente, informa a médica que deu o último telefonema. Ela confidencia que os “plantões estão numa grande correria”. Os números de casos confirmados e de mortes não param de subir. Há risco de colapso, tanto no setor público quanto nos hospitais privados. E, com isso, mais sofrimento vem junto.

Exatamente agora, milhares de pessoas compartilham desses sentimentos – uma aflição, um desassossego com o imprevisível. É a experiência pesada de encarar um inimigo, uma ameaça letal, em condições precárias, adversas. Um inimigo que tantas vidas já levou. Aos que estão na batalha – famílias, pacientes, pessoal médico –, é torcer para que o próximo telefonema alivie a barra.