"Matemática" burra

  • Fábio Guedes Gomes
  • 11/05/2020 11:14
  • Fábio Guedes

O Brasil alcançou 0,6% de sua população total com infectados pela Covid-19, segundo estimativas de pesquisadores da USP (acessar matéria aqui). Ou seja, estamos apenas no início da pandemia. Como seu potencial de proliferação é explosivo, aquela porcentagem cresce rapidamente, todos os dias, levando consigo a necessidade de uma busca crescente pelas unidades de saúde e hospitais por parte da população.

Em razão da falta de kits de testes rápidos eficientes, todos os especialistas afirmam que os números oficiais divulgados de infectados estão muito subestimados. Se não conhecemos razoavelmente o tamanho do problema real, tem-se muitas dificuldades de saber em qual momento da escala temporal o Brasil se encontra dentro da pandemia. Apenas o número total de óbitos não aponta para uma visão mais consolidada, muito pelo contrário. Em estados como São Paulo, Amazonas, Ceará, Rio de Janeiro e Pernambuco uma parcela considerável dos óbitos não foi registrada tendo como causa determinante a Covid-19. No Amazonas esse percentual supera 70% dos óbitos confirmados pelo vírus.

O Brasil não consegue saber ao certo o tamanho do vendaval que se aproxima. Mesmo com toda a sofisticação dos modelos matemáticos a previsibilidade é de curto alcance, ou seja, a cada 10-15 dias eles têm que ser refeitos com os dados da dinâmica da pandemia.

Com base nesses estudos as autoridades governamentais e médicas conseguem tomar decisões e fazer as melhores escolhas, apesar da resistência de alguns. O dia a dia dos profissionais da saúde e dos gestores não permite ampliar muito o espaço do pensar. É trabalhar, trabalhar e trabalhar.

A situação brasileira se assemelha aquela do indivíduo guiando seu carro em um forte nevoeiro, com dificuldades de enxergar 20 metros à frente, tendo que se guiar pela faixa amarela da lateral direita, ora meio apagada, ora encoberta pela lama que despenca do barranco.

A experiência recente dos países da Europa, Ásia e Estados Unidos serve como referência básica. No entanto, o Brasil é um continente com diferenças enormes em termos de distribuição espacial da população, condições socioeconômicas, com enormes problemas de saneamento e oferta de saúde pública, sem levar em conta outros aspectos.

Então, são tantas as especificidades e dificuldades que tornam o desafio do país ainda maior diante dessa pandemia. Ele somente pode ser superado pelo conhecimento científico agregado as ações das políticas de saúde, nos três níveis da federação. Infelizmente não tem sido essa a regra no governo federal. No plano subnacional as autoridades governamentais se cercaram de especialistas da saúde e cientistas para definirem estratégias de enfrentamento e operações táticas. Não podemos reduzir essa complexidade a uma opinião idiota de que 70% da população será contaminada, não tem muito o que fazer e, diante desse desiderato, a vida deve voltar ao normal, como se nada estivesse acontecendo.

Muito pelo contrário, dentro do enorme contingente de pessoas que serão infectadas a grande missão do país é salvar a maior quantidade possível de vidas humanas e reduzir o sofrimento das pessoas e famílias. Não se pode aceitar, em hipótese alguma, a ideia de que não adianta fazer muita coisa para atacar os efeitos colaterais da expansão da Covid-19. Quem pensa o contrário usa uma matemática burra, adota uma postura inconsequente e delinquente, especialmente nesse momento que a pandemia se direciona para os grupos de população mais vulneráveis e frágeis, que dependem, exclusivamente, do sistema público de saúde e dos programas de manutenção do fluxo de renda.

O fortalecimento das medidas de distanciamento social, seguindo os passos de Fortaleza e do Maranhão que decretaram lockdown, vai se impor pela dinâmica da realidade e antecipação dos fatos anunciados pelos modelos matemáticos e epidemiológicos.

Por exemplo, o estado de Pernambuco já era para ter tomado decisão nessa direção, pois além de apresentar uma grave situação, com elevada taxa de letalidade (8%) e 100% dos leitos de UTI já ocupados, tornou-se um foco de irradiação da contaminação para muitas outras partes da região, em função de sua importante localização, centralidade rodoviária e ser um grande centro logístico de distribuição, como demonstram estudos do Comitê Científico do Consórcio Nordeste.

(Observação: poucas horas depois da publicação desse texto, o governador de Pernambuco decretou lockdown na grande Recife e mais quatro municípios)