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Regina Duarte misturou as bolas. Ela topou uma entrevista ao vivo à CNN Brasil, mas pensou que teria o mesmo tratamento que Luiz Datena e Ratinho dispensam aos ministros do governo e ao próprio presidente. Como se sabe, esses dois elementos são porta-vozes do bolsonarismo e do governismo mais escancarados. A bajulação da dupla ao presidente também é fonte de renda para as emissoras em que trabalham, no caso a BAND e o SBT. Nos programas de Ratinho e Datena, a gang do Planalto diz e faz o que bem quer.  

A CNN chegou ao Brasil sob forte desconfiança. Desde o anúncio de sua estreia, a TV deu pistas de que poderia cair nos braços do governo Bolsonaro. Não como o SBT ou a Record, cuja adesão é incondicional. Mas poderia tentar um lustre técnico para uma defesa mais, digamos, qualificada do governismo. Até agora não foi exatamente isso o que se viu na cobertura das crises do momento.

Embora tente marcar uma diferença em relação à Globonews, em tom mais moderado ao tratar das presepadas governistas, a CNN Brasil não pode ser acusada de fazer jornalismo chapa branca. Passa longe disso. Seria de fato um suicídio em termos de credibilidade caso a emissora caísse nessa armadilha. E foi por isso que a secretária nacional de Cultura, dona Regina Duarte, se deu muito mal.

A essa altura vocês sabem o que houve. Nesta quinta-feira, a atriz deu um chilique dos diabos, em entrevista ao vivo, quando percebeu que não fora convidada para fazer propaganda, discursar e ser aplaudida. Como disse, confundiu os jornalistas da CNN com a canalhada do tipo Datena e Ratinho. “Não estava combinado isso”, repetia a secretária, de novo revelando sua desorientação.

Ela queria tudo “combinado”. Queria perguntas confortáveis, nada de contraditório, nada de questões que causem qualquer incômodo. E aí, começou a falar num atropelo geral, com um raciocínio que acaba por exibi-la de modo triste. Como essa pessoa chegou a tal situação depois de uma trajetória de consagração total? Melancolicamente, taí um caso clássico de fuzilamento da própria biografia.

Mas tão ou mais terríveis do que a performance da atriz e secretária foram suas palavras. Ela teve coragem de minimizar a prática de tortura e as mortes na ditadura de 64. Ironizou o noticiário sobre as vidas que se perdem com a pandemia de Covid-19. E mostrou desprezo, vejam que coisa, aos próprios colegas do mundo da arte. A mulher que deu vida à viúva Porcina parece caso de interdição.

O entreato grotesco de Regina na CNN ocorre num momento em que o presidente miliciano – esse lixo que agride a democracia diariamente – volta a atacar a imprensa violentamente. Também ocorre no clima das agressões que doentes do bolsonarismo fizeram contra jornalistas e enfermeiros. Tudo no meio da rua, a céu aberto, com apoio evidente do capitão da tortura. A indignidade não vai parar.

A secretária de Cultura, a maluquete que decidiu enfiar a cara, e sua própria história, no lamaçal do governo Bolsonaro, surpreende, sim – mas não completamente. Porque está claro que ela não pensa o que pensa apenas desde ontem. Foi sempre uma reacionária de instinto raivoso. Eis que o Brasil deu a ela – e a tantos outros bichos em fúria – a chance de botar pra fora a ferocidade total.

O episódio com a atriz na CNN foi bom para a emissora. Primeiro porque, claro, virou assunto de forte repercussão no falatório nacional (até eu estou escrevendo sobre o caso) e deve render audiência à nova TV. A disputa sobretudo com a Globonews é o grande desafio da casa de William Waack. Emplacar a imagem de independência nesse panorama é o ouro que a CNN Brasil cavouca.

E finalmente o caso serve pra toda imprensa. É mais uma oportunidade para se refletir sobre o papel do jornalismo. Para uma democracia real, de fato e de direito, a imprensa é requisito incontornável. A direita extrema e bolsonarista – essa vanguarda do reacionarismo brucutu – joga na contramão desse entendimento. Para essa gentalha, os valores são outros: censura, tortura e arbítrio acima de tudo.