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De modo superficial e apressado, digamos que a pandemia do novo coronavírus testa na prática os conceitos de “Estado mínimo” e “Estado de bem-estar social”. Forço um pouco a barra, é verdade, mas vamos lá. Claro que não vou entrar em detalhes sobre essas ideias recorrentes no debate geral e em brigas particulares. Os conceitos, a princípio, se referem ao antagonismo de visões sobre o papel dos governos na condução da economia e no alcance de – na falta de melhor expressão – políticas sociais.

No mundo inteiro, governantes se viram obrigados a agir de modo firme diante das consequências da Covid-19. A urgência se dá em duas frentes – a saúde das populações e o fôlego das atividades econômicas. Não se trata aqui de esticar a conversa sobre o que é mais importante – se salvar vidas ou garantir o emprego de milhões de trabalhadores. Uma coisa não exclui a outra, para dizer o óbvio.

No Brasil, a oposição entre Estado “interventor” e Estado “liberal” ganhou espaço na atual crise depois de algumas ações promovidas por prefeitos e governadores. Aqui em Alagoas uma iniciativa do governo estadual rendeu certa polêmica. Refiro-me à “requisição” de equipamentos hospitalares a empresas privadas. O objetivo foi reforçar a estrutura de atendimento na rede pública.

Escrevi requisição entre aspas porque circulou a versão de que o governo teria “saqueado” as empresas. Foi o que informou reportagem da Gazeta. O próprio governador Renan Filho explicou que haverá o pagamento de tudo o que foi recolhido para os hospitais do Estado. Nenhum empresário fez qualquer reclamação contra o governo. A breve controvérsia aparentemente está superada.

Na última sexta-feira, a Secretaria de Saúde autorizou a liberação de cerca de 700 mil reais para quitar o débito pela aquisição dos materiais. De todo modo, o caso é exemplar para se refletir sobre até aonde um governo pode ir com medidas excepcionais, sob a alegação de grave emergência.

Em São Paulo, o governador João Doria mandou confiscar 500 mil máscaras de proteção para uso dos profissionais da saúde no estado. O alvo foi a empresa 3M, que, segundo o governo, ignorou uma solicitação oficial. Os diretores reclamaram da investida, que contou até com aparato policial (foto).

Assim como em Alagoas, o governo paulista vai pagar pelo material retirado da empresa. Os gestores públicos afirmam que há recursos para aquisições emergenciais – mas alegam não ser possível seguir a burocracia de tempos normais em dias de calamidade. Os doentes não podem esperar.

Episódio emblemático nesse conflito entre governos e mundo privado ocorreu justamente nos Estados unidos, pátria do liberalismo, da liberdade de mercado – afinal, do Estado mínimo. Donald Trump determinou que a Ford e a GM passem a fabricar imediatamente respiradores artificiais.

Na cabeça de nossos pensadores à direita, os conservadores que combatem o “Estado-babá”, a decisão do presidente americano seria inimaginável até ontem. Nada como a realidade metendo o pé na porta para, vamos dizer, relativizar convicções. Daqui a pouco, Trump será xingado de “comunista”.

Para além de medidas pontuais, como essas que acabo de citar, a relação entre poder público e esfera privada estará o tempo todo no fio da navalha enquanto a crise perdurar. As cidades vazias – porque obedecemos a um decreto do Estado – é o retrato perfeito dessa quadra inédita.

A semana começa com a notícia de que o governador Renan Filho prorrogou as medidas de isolamento previstas em decreto. Afora algumas exceções, continua quase tudo fechado, de escolas a restaurantes e academias. Nem mínimo nem máximo, o Estado tem de agir. Fazendo o certo, claro.