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O comum era nos depararmos com notícias anunciando tragédias seguidas de críticas, muitas críticas ao hábito de não prevenir. Dentre várias boas característica do jeito brasileiro de ser, uma rotula com ares negativos nosso jeitinho de deixar tudo para última hora, de atrasos recorrentes, não sabermos agir de forma antecipada. Nossa história é cheia de tragédias, desde os saques às nossas riquezas naturais à escravidão, ditadura... mas não precisamos ir tão longe, temos tragédias recentes, vivas na memória desta geração.

O ano de 2013 começou com uma, a segunda maior tragédia por incêndio já registrada no Brasil, o incêndio na boate Kiss (RS) que vitimou 242 mortos e mais de 680 feridos. Após a tragédia a reflexão: mais uma tragédia que poderia ter sido evitada! Críticas à banda por ter usado efeitos pirotécnicos que geraram faíscas que iniciaram o incêndio, críticas à postura dos seguranças por terem fechado as portas para evitar que clientes saíssem sem pagar, críticas ao poder público por não ter fiscalizado o cumprimento das normas para prevenção e não ter impedido que a boate funcionasse.

O ano de 2019 ficou marcado como um ano de tragédias, começamos o ano com o rompimento da barragem em Brumadinho, considerado um dos maiores desastres ambiental e industrial do Brasil, que matou 259 pessoas e 11 desaparecidos. Após a tragédia a mesma reflexão: mais uma tragédia que poderia ter sido evitada! Críticas à empresa que era proprietária da barragem, críticas aos profissionais contratados para atestar a segurança da barragem, críticas ao poder público por não ter verificado as reais condições de segurança da barragem.

Chegamos em 2020, uma pandemia ainda em estágio de evolução assusta o mundo, por onde passa deixa um rastro de milhares de mortos, tantas que o congestionamento deixou de ser de carros nas ruas para ser de caixões nos cemitérios. Os primeiros países atingidos alertam o mundo sobre o alto risco de contágio e velocidade na proliferação do Covid-19. No terceiro mês do ano, que ainda nem se encerrou, já são 600.663 infectados, 30.475 mortos em todo o mundo (enquanto escrevia este texto tive que atualizar estes dados algumas vezes, pois a cada minuto alguém morre ou é infectado).

No Brasil chegamos na marca de 3.904 casos confirmados e 111 mortes, avaliando o ritmo da expansão do covid-19 no nosso país, especialistas do Imperial College de Londres, fizeram uma projeção de infectados e mortes. No melhor cenário, avaliaram que o Brasil terá 11 milhões de pessoas infectadas e 44 mil mortes, caso seja feito um isolamento radical; se o isolamento ocorrer tarde, serão 49,6 milhões de infectados e 206 mil mortos; se houver apenas um distanciamento social, serão 122 milhões de infectados e 627 mil mortes; se não houver isolamento, serão 188 milhões de contaminados e 1,1 milhão de mortos!!!

Não há desfecho positivo, mas o menos trágico. Pela primeira vez, o Brasil se antecipou aos fatos, ou melhor, tenta se antecipar e prevenir uma tragédia maior. Governadores e Prefeitos passaram a atuar de forma tão semelhante que mais pareciam integrar uma sinfonia, em poucos dias a tática do isolamento social, que antes parecia improvável, virou regra e o país começou a desacelerar, até que o presidente da República contrariou a ciência, as estatísticas dos especialistas e experiência de outros países. Sob a justificativa que o desemprego cresceria e a economia entraria em recessão, Bolsonaro convocou as pessoas para saírem de suas casas: não se protejam, alguns vão morrer, tudo bem, mas a economia não pode parar. Não, não fica tudo bem!

Vozes que ecoavam que tragédias poderiam ser evitadas e vidas poupadas, passaram a colocar a vida em segundo plano, que prevenir era exagero e que a economia precisaria girar. O acirramento político que reina no Brasil desde as manifestações de julho de 2013, ganhou novos capítulos com mais uma inconsequente convocação de Bolsonaro para que as pessoas saiam de casa e voltem a estudar e trabalhar normalmente, ou seja, que promovam a morte de milhares de brasileiros.

Onde essa táctica foi adotada, o desfecho esperado ocorreu: dia 27/02 a cidade de Milão, na Itália, contabilizava 12 mortos, as autoridades locais lançaram a campanha "Milão não para"... um mês depois, eram mais 4,4 mil pessoas mortas, o Prefeito de Milão reconheceu "erramos!".

A economia será afetada com o isolamento social? Sem sombra de dúvida! Cabe ao Estado, com seus Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, bem como instituições fundamentais à sociedade como Igrejas e entidades de classe, garantir que as consequências nas vidas das pessoas e na economia sejam as menores possíveis, garantindo direitos e dignidade. A ideia de Estado Mínimo que voltava a crescer com vigor em diversos países e se traduzia em falta de investimentos públicos e mais liberdade para o setor privado atuar sem ingerências, está em cheque, pois não há forma de superarmos todas as sequelas desta tragédia sem forte atuação do Estado.

Os EUA que é o país modelo desta corrente, símbolo do neoliberalismo na atualidade, já obrigou a indústria americana a produzir 100.000 respiradores para ajudar no tratamento dos infectados, além desta medida, o presidente Trump já anunciou que vai liberar US$ 1 trilhão para estimular a economia e auxílios para famílias. O que o Brasil vai fazer? Mandar as pessoas para rua para estimularem mais mortes ou usar a força do Estado brasileiro para zelar pelas vidas humanas e movimentar a economia?

Os Governadores dão bons exemplos, com destaque para os Governadores do Nordeste, em especial os Governadores de Alagoas, Renan Filho, e do Maranhão, Flávio Dino. Mas para que o Brasil não mergulhe de cabeça nesta tragédia anunciada, os estados precisam atuar de forma integrada, todos, em harmonia com os demais entes federados.

Cai por terra a ideia de Estado Mínimo, sem Estado forte para segurar a peteca, não há nação que prospere com justiça e igualdade. Não há economia sem vida, mortos não trabalham, mortos não consomem, mortos não fazem a economia girar, apenas a vida justifica tudo que já foi criado pela humanidade. Economia, a gente trabalha e recupera; as vidas perdidas, não! 

 

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