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Bares e restaurantes estão fechados. Lojas, shopping centers e cinemas também. A realização de festas e eventos está proibida. O passeio às piscinas naturais de Pajuçara tem de ficar para outra época. O mesmo vale para o turismo pelas ilhas lagunares de Santa Rita, Massagueira e região. Com reservas canceladas, hotéis e pousadas dispensam funcionários e suspendem atividades. A lista é imensa, mas está longe de resumir o drama que pega em cheio amplos setores da economia brasileira. Há medo e apreensão.

Parte do retrato da crise provocada pelo novo coronavírus, o rombo na produção do setor privado se torna ingrediente de uma guerra declarada por empresários contra medidas de saúde pública. Turbinados pelas palavras do presidente Bolsonaro, donos de empresas se agitam pelo país numa campanha contra o isolamento social. Para eles, todos os setores devem voltar já à rotina.

Em estados como Santa Catarina, São Paulo e Minas Gerais, a turma empresarial chegou a organizar carreatas (foto) em defesa da reabertura do comércio e demais negócios. Em Alagoas, também há forte pressão para que o governo estadual não prorrogue o decreto que determinou o fechamento temporário desses vários segmentos. O prazo inicial de dez dias acaba na próxima terça-feira, dia 31.

A encrenca adicional na controvérsia do isolamento e da suspensão de atividades é o fator político, via Jair Bolsonaro. Por essas bandas alagoenses, os perturbados de sempre também ensaiam ocupar as ruas para atacar as medidas estaduais. E qual o argumento dessa gente: o chefe da seita mandou. Sendo assim, o que move os cidadãos de bem (e empresários) é, de novo, o “viés ideológico”.

Agora, além de reclamar, o que andam fazendo nossos grandes empresários, donos de lucros milionários? São raras, para não dizer inexistentes, eventuais iniciativas de ajuda à população mais carente. Pelo discurso que prega, com ênfase absoluta no dinheiro, essa turma se mostra disposta a tudo, desde que na defesa de seus interesses particulares. Por aí, não chegaremos a bom termo.

A crise extrema acaba por expor de maneira inédita a delicada relação entre o mundo privado e a esfera pública. Nos últimos anos, a ascensão da direita brucutu fortaleceu o discurso contra ações de governo – afinal, o mercado resolve tudo. É o que reza Paulo Guedes e os papagaios do “liberalismo”.

Como se sabe, para essa rapaziada engajada no combate ao marxismo cultural e globalista, coisas como Bolsa Família não passam de esmolas para miseráveis. Estes, por sua vez, ainda na visão dos garotões da “nova política”, formam uma tropa de vagabundos, sempre à espera da benesse oficial.

Foi com esse palavrório que Bolsonaro ganhou a eleição. Afinal de contas, como cravou o ministro da Economia, chega de doméstica viajando pra Disney! Isso é coisa para empresários e industriais, gente que aplica sua dinheirama na especulação financeira. Logo, vamos reabrir tudo e voltar às ruas.

Pensando bem, quando foi que nossas elites no topo da pirâmide deram demonstração de empatia frente aos dramas do povo brasileiro? Sim, há uma e outra exceções, mas no geral o quadro é e sempre foi desolador. Nossa tradição mais perversa é a segregação dos mais pobres. É História.

Na campanha contra as medidas de prevenção à doença, a hipocrisia dos ricaços ganha as alturas na encenação que simula solidariedade a profissionais agora afastados do trabalho. É balela. É somente uma forma de convencer desesperados a engrossar a causa dos que nunca ligaram para o outro.

O Brasil precisa produzir, claro. Quem é contra uma obviedade como esta? Ocorre que o centro do debate não pode ser os números do PIB, dos juros e do faturamento de potentados do comércio e da indústria. O país tem de cuidar das pessoas. O resto é canalhice de uma malta predatória e ignorante.