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Quem primeiro defendeu, com ênfase, o adiamento das eleições municipais foi o ministro da Saúde, Henrique Mandetta (foto) – logo ele, “um perfil técnico” no time de Bolsonaro. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, reagiu com rispidez. Segundo ele, não é hora de tratar do assunto, e lembrou ainda que, nos Estados Unidos, ninguém trouxe à pauta a suspensão das eleições presidenciais americanas. Mas, no quadro até agora desenhado, o adiamento da escolha de prefeitos e vereadores pode se impor.

Estamos a pouco mais de seis meses do dia da votação. Segundo as autoridades médicas, os casos de contaminação por Covid-19 no Brasil vão continuar aumentando até maio, pelo menos. Com essa perspectiva, as consequências da crise vão atravessar os meses seguintes. Num contexto conturbado, com a economia em derretimento, como garantir uma operação para as eleições?

Não por acaso, eventos mundiais, programados para o segundo semestre, já foram adiados. É o caso das Olimpíadas de Tóquio. Por enquanto, o sistema político, digamos assim, não admite a hipótese do adiamento. O mesmo vale para a cúpula da Justiça Eleitoral. O caso é que, ao menos nos dias que seguem, ninguém pode garantir o que vai ou o que não vai ocorrer lá em outubro.

No atual cenário, as opiniões sobre o assunto não têm como levar em conta aquilo que somente o futuro próximo nos dirá. A defesa intransigente da manutenção do calendário se baseia no esperado controle da pandemia. O problema é saber quando isso poderá ocorrer, de modo cabal e definitivo. Como sobram dúvidas quanto ao alcance das medidas médicas, resta a angústia da espera.

Então vamos à pergunta que dá título ao texto. E se as eleições forem adiadas, como ficariam as coisas? Há quem defenda que uma nova eleição seja realizada em 2021. E há outros que defendem a prorrogação dos mandatos de vereadores e prefeitos até dezembro de 2022. Aí teríamos eleições unificadas, uma novidade e tanto no processo eleitoral que vigora desde a redemocratização.

Seria uma reviravolta completa em tudo o que lideranças e partidos vêm fazendo até agora em termos de negociações para alianças. Acordos seriam fatalmente desfeitos, e virtuais adversários nas urnas repensariam uma reaproximação. E tudo isso com uma campanha que já corria solta.

Uma constatação óbvia é que os grandes beneficiados por um adiamento são os atuais detentores de mandato – prefeitos e vereança. Saem ganhando porque, é claro, ficarão no poder além do previsto no prazo oficial. Interessa a muitos, incluindo alagoanos, naturalmente.

Salvo engano, quem mais teria a ganhar diretamente seriam os prefeitos em segundo mandato. É o caso de Rui Palmeira em Maceió. Vejam a transformação: às vésperas de deixar o cargo – e entrar num período de dois anos sem mandato –, ele recebe um presente dos céus.

Além dos gestores que teriam o período de mando esticado, a eventual novidade racha o mundo da cacicada política. Porque se alguém terá motivos para festejar, haverá igualmente notórios prejudicados por este acaso na vida pública de um país. As pressões vão proliferar de vários lados.

Para que o ambiente não fique ainda mais conturbado, é natural que autoridades na cúpula dos três poderes evitem tratar do tema publicamente. É impossível, porém, que ignorem a real possibilidade de uma mudança forçada no calendário eleitoral. O debate ainda vai pegar fogo.