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A novidade na imprensa brasileira é a chegada da CNN. Com a fama de “maior do mundo” no jornalismo televisivo, a emissora aterrissou no Brasil pelas mãos do empresário Rubens Menin, da construtora MRV e de outros negócios milionários. A expectativa para a inauguração da TV agitava o mercado de comunicação desde o ano passado. Douglas Tavolaro, que durante anos foi vice-presidente de jornalismo da Record, é sócio na empreitada. O grupo aposta que vai morder a audiência da Globonews.

Com investimento pesado, incluindo a contratação de nomes badalados nas redações, a CNN Brasil pode sim provocar algum estrago entre suas concorrentes. Mas, diante do que já se viu nos primeiros dias após a estreia, para superar a emissora da Globo, tem de suar a camisa. A programação está embalada em formato consagrado, com âncoras e comentaristas pra todo lado.

A nova TV entrou no ar num momento de fato incomum. Certamente ninguém esperava que, ao estrear, o jornalismo da emissora tivesse de se dedicar a praticamente uma única pauta – a pandemia do coronavírus. Mas isso também pode ser visto como uma mãozinha do destino, afinal, nada melhor que um tremendo assunto para mobilizar uma equipe. É hora de dizer a que veio.

Se o alvo principal da CNN Brasil é mesmo avançar no Ibope sobre a Globonews, muito ainda terá de ser feito. Ao longo dos telejornais da nova emissora sobram palpites, suposições e chutes de analistas espalhados por São Paulo, Rio e Brasília. Muito do que se fala não vai além do senso comum. É muita pose para conteúdo sem muito de expressivo. Tudo ao vivo, com pouca reportagem.

Há um clima de governismo rondando a programação da nova CNN Brasil. Umas figuras que, nos últimos tempos, fizeram algum sucesso na onda da extrema direita foram contratadas como estrelas. No ar, mandam ver o mesmo mantra de ataque à esquerda que repetem desde 2014. São os filhotes de Sergio Moro, bolsonaristas com verniz de pensadores da política. As velhas “novidades”.

Vamos lembrar que na briga das TVs fechadas, com jornalismo 24 horas por dia, há ainda a Band News. Mas a emissora do Grupo Bandeirantes se segura do jeito que dá. Diria que se mantém no ar mais pela tradição da marca do que por resultados satisfatórios. Está realmente “noutro patamar”.

A Record, como se sabe, também toca seu canal exclusivo de notícias – aliás, com sinal na TV aberta e nos pacotes por assinatura. Aqui, no entanto, a coisa é muito mais grave do que na Band News. Na empresa de Edir Macedo, jornalismo é a última preocupação. Simplesmente não existe. Pura fraude.

Há um problema comum a todas as emissoras de TV, e de resto uma encrenca para toda a imprensa. É o perigo da redundância, da repetição, de textos e opiniões enfadonhos, quando não medíocres, e que não acrescentam nada sobre nenhum aspecto da pandemia. Em televisão, isso é infernal.

Outro dado complicado é o tom de urgência, pressa, correria... Os apresentadores na CNN já começam o telejornal avisando ao telespectador que “o que não falta é informação”. Você não pode piscar, sob o risco de perder a última “bomba” sobre o coronavírus. Na sequência, uma besteira.

Para enfrentar a nova concorrente de peso, a Globonews se preparou com antecedência. Mexeu na grade, reformulou telejornais e fortaleceu os debates. A influência da TV dos Marinho não sofreu abalo com a inauguração da afamada marca. O balanço inicial é amplamente favorável à Globonews.

Para a imprensa, a cobertura da crise é um desafio como poucas vezes acontece. No meio dos dados reais – que são gravíssimos – e também do pânico sem razão, um ponto não pode ser negligenciado: os direitos individuais. O jornalismo não pode aderir cegamente a ações oficiais descabidas.