Arquivo Pessoal Rs=w:350,h:263,i:true,cg:true,ft:cover?cache=true Jornalista Dora Nunes, na Itália

Seja em quarentena ou mantendo os compromissos do dia-a-dia, acordar e dormir ouvindo e falando sobre o mesmo assunto: a pandemia do Coronavírus, não é fácil, mas é ainda mais difícil para aquelas pessoas que sofrem de ansiedade crônica - ou outros transtornos mentais -, que estão nos grupos de risco ou no “olho do furacão”.

Em meio à preocupação principal com a prevenção da transmissão do Coronavírus, como lidar com os efeitos psicológicos da pandemia? Como diminuir o nervosismo, o medo e a desconcentração diante de tantas de informações preocupantes? Em busca de respostas, a reportagem do CadaMinuto ouviu uma especialista e trouxe também o emocionante depoimento de uma alagoana que reside há quatro anos em Milão, na Itália, hoje o país mais afetado pela doença.

“Esta é uma situação real e não um medo imaginário e, portanto, é também uma oportunidade de trabalhar o medo que, estando exacerbado, a pessoa necessita de acompanhamento psicológico e às vezes medicamentoso para a remissão dos sintomas. A ansiedade é sempre o medo ou a incerteza do amanhã”, explicou a psicóloga Denise Moura, sugerindo ainda a prática de técnicas de relaxamento, como meditação, respiração diafragmática, Yoga e a observação da quantidade e qualidade do sono.

Sobre aquelas pessoas que “sentem” os sintomas da doença só de ouvirem falar neles, a psicóloga destacou que o pânico é um poderoso aliado na precipitação das crises de ansiedade e, como tal, precisa ser tratado. “O profissional experiente trabalhará estes fatores de modo que o paciente consiga racionalizar e identificar o real do imaginário”, explicou, frisando a importância do discernimento entre o verdadeiro e o falso das redes sociais e do bom senso na adoção de comportamentos preventivos reais indicados pelas autoridades competentes.

De “férias forçadas” e confinadas em casa, as crianças são outro grupo bastante afetado pela crise global. Para mantê-las ativas e minimizar os efeitos negativos psicológicos da quarentena, a especialista aconselhou os pais e responsáveis a buscarem a ludicidade o quanto possível, por meio de jogos e outras brincadeiras que permitam uma boa qualidade de vida no período.

“Vale lembrar que a criança não deve entrar no contexto dramático do medo da contaminação. A ela deve ser dada uma explicação muito maior quanto aos cuidados preventivos, aproveitando o momento para a adoção de novos e saudáveis hábitos”, concluiu Denise.

Europa de joelhos

“Pode parecer loucura, mas todos os dias acordo com sintomas e, na medida em que o dia vai passando,  vou vendo que é só o medo mesmo. Tenho duas boas características em mim, gosto de ficar em casa e gosto de rezar. Isso tem me ajudado demais. Tenho preenchido meu tempo com orações, organizando a casa, porque agora a diarista não vem mais, e também estou fazendo um curso para treinar o meu inglês online. E assim, os dias vão passando, lentos, mas cheios da esperança de que isso tudo vai passar. Se você não é uma pessoa descrente pensa logo sobre o que Deus está querendo que aprendamos com tudo isso”.

O relato acima, da jornalista alagoana Dora Nunes, que mora a quatro anos em Milão, é uma mostra do sentimento daqueles que, ao contrário dos brasileiros, estão convivendo de muito mais perto com o medo, a dor e o isolamento social provocados pela pandemia.

Hoje, a Itália registra o maior número de mortos em decorrência do Coronavírus no mundo: 3.405 até o dia 20 de março deste ano. No total, são mais de 41 mil italianos contaminados, quase 2.500 pacientes em estado grave e os números ainda não melhoraram, apesar da rígida quarentena adotada no país desde a semana passada.

“É muito estranho, uma situação inimaginável, ver a Europa de joelhos. Parece que estou em um filme, as ruas vazias, as pessoas assustadas em casa, as notícias cada dia mais aterrorizantes e angustiantes. É muito difícil ter tranquilidade recebendo notícias diárias de mais de 450 mortos”, prosseguiu Dora.

Ela contou que no grupo de Whatsapp do condomínio onde reside com o marido, no qual  metade dos moradores é composto por pessoas solteiras, dois dias depois do primeiro decreto da quarentena forçada, “um dos rapazes escreveu pedindo que saíssemos nas varandas internas para conversar porque ele estava entrando em parafuso”: “Saímos, conversamos, falamos um pouco sobre como nossa vida mudou e isso passou a ser constante, nos falarmos pelas varandas. Depois, parece que todos pensaram o mesmo e começaram a circular os vídeos de música nas varandas por aqui”.

Segundo Dora, uma das piores partes da quarentena é o que chamou de “defeito profissional”: “Como jornalista, sou ávida por notícias e passo o dia seguindo os jornais e telejornais europeus. Se posso aconselhar, por essa dura experiência que estamos vivendo, iniciem o quanto antes com o isolamento social, isso vai ajudar muito, tanto para evitar uma superlotação nos hospitais, quanto para salvar vidas, que podem ser a sua, a de alguém de sua família ou as dos seus amigos”, finalizou.