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Em 2008 o célebre cientista político e historiador, Luiz Alberto Moniz Bandeira, lançou um livro extraordinário que tinha como título A Fórmula para o Caos (Editora Civilização Brasileira).

Nele, Moniz Bandeira ergue uma sólida pesquisa sobre o movimento político e econômico que tomou 3 anos de duração e resultou na derrubada do presidente chileno Salvador Allende, em 11 de setembro de 1973, instaurando o longo e sanguinário período de ditadura militar sob o comando de Augusto Pinochet (1973-1990).

A principal qualidade do livro de Moniz Bandeira foi demonstrar, com farto material histórico e documentos, como a economia chilena foi destroçada intencionalmente, com a colaboração direta, inclusive, de grandes grupos empresariais, para empurrar a população, sobretudo a classe média, contra o governo Allende.

Paralisação intencional dos transportes públicos, boicote das principais empresas de cargas, impedindo a distribuição de produtos e mercadorias, desabastecimento dos supermercados etc. A duração desse caos econômico, deliberadamente provocado, causou grandes fissuras na sociedade chilena e abriu um largo caminho, instaurada a ditadura, para as experiências neoliberais de administração econômica, tão elogiadas recentemente pelo Ministro Paulo Guedes.

A estratégia de esticar os problemas econômicos para alcançar objetivos muitas vezes questionáveis do ponto de vista dos resultados sociais, parece ser uma prática comum entre aqueles defensores e afiliados do pensamento convencional econômico.

Outro grande historiador e ensaísta inglês, Perry Anderson, em um texto publicado em 1995, no livro organizado por Emir Sader e Pablo Gentili, Pós-Neoliberalismo: as políticas sociais e o Estado Democrático (Editora Paz e Terra), ao fazer um balanço das políticas neoliberais na América Latina, narrou o episódio de quando era consultor do Banco Mundial numa reunião no Rio de Janeiro para discutir resultados econômicos e sociais em 24 países.

Um amigo dele, admirador do governo Pinochet, economista inteligente e destacado, comentou que no Brasil o problema não era uma inflação demasiada alta no período do governo Sarney, mas uma taxa demasiada baixa e vaticinou, segundo palavras de Anderson: “Esperemos que os diques se rompam, precisamos de uma hiperinflação aqui, para condicionar o povo a aceitar a medicina deflacionária drástica que falta neste país”.

Ou seja, mais uma vez se apelava para o caos econômico para se tomar medidas impopulares e, certamente, muito custosas para a maioria da população, especialmente a mais vulnerável. Economista conservador é um sujeito sagaz, sem compaixão.

O comportamento de várias autoridades governamentais atualmente parece reeditar esse tipo de estratégia no Brasil. Turbinado, é claro, pelo próprio presidente da República, que dia sim dia não, provoca uma crise ou terceiriza para seus filhos as brigas que não lhe interessa. São inúmeros os conflitos, com vários setores da sociedade e instituições. Os mais graves envolvem parte da imprensa brasileira e os demais poderes, principalmente o Congresso Nacional, atestado pela irresponsável convocação para a mobilização do dia 15 de março, contra o parlamento brasileiro.

Quanto mais crises, seja de qualquer magnitude, provocadas diretamente ou que surgem por fatores externos, como o coronavírus ou do mercado de petróleo internacional, são muito bem trabalhadas pelo governo em várias direções, principalmente para defender a agenda de reformas ou desviar a atenção de reais problemas que cercam o Palácio do Alvorada. Já ouvimos do Ministro Paulo Guedes várias vezes que as reformas são imprescindíveis para a retomada do crescimento brasileiro.

Foi a mesma cantilena em torno da previdenciária e trabalhista. Agora a pressão é sobre a reforma administrativa que, inclusive, prevê a redução de até 25% dos salários e rendimentos do funcionalismo público. Ou seja, em tempos de crise e baixo dinamismo econômico, o governo brasileiro atua reduzindo a demanda agregada, provocando o encolhimento da massa salarial, cortando investimentos públicos e criando um clima de incertezas que cresce a cada crise, promovendo expectativas adaptativas muito desfavoráveis nos segmentos privados

Posto dessa maneira, percebemos que do presidente da República aos seus ministros, o governo adotou o caos como fórmula e estratégia política para continuar cultivando seus apoiadores na base da sociedade e forçar as mudanças que lhe convém e interessa ao corporativismo de alguns setores da sociedade e economia. Isso pode reverberar para uma situação ainda mais pantanosa, turbulências políticas graves, elevação da temperatura entre os grupos, com consequências imprevisíveis, inclusive para o regime democrático que nos resta.