Operários, de Tarsila do Amaral, retrata o povo brasileiro mestiço Rs=w:350,h:263,i:true,cg:true,ft:cover?cache=true

Concordando ou discordando do regime chinês, todos são unânimes: a China marcha inapelavelmente para se transformar na primeira economia global. Mas nem sempre foi assim, a revolução de 1949 que iniciou a libertação nacional do jugo colonial, contra as grandes potências europeias e norte-americana, deparou-se com uma nação estraçalhada e miserável.

Durante algumas décadas, a China, o antigo Império do Meio, pastou na pobreza, insuficiência econômica crônica, adotando uma espécie de igualitarismo social que se resumia na máxima: todos somos pobres, mas somos iguais e felizes, inclusive nas vestimentas cinzentas, ao estilo da túnica do presidente Mao Tsé-Tung.

Essa ideia de uma China igualitária e feliz na pobreza, que galvanizou as mentes dos jovens revolucionários, durante as jornadas do Maio de 1968 e que virou uma espécie de mantra para a juventude rebelde ocidental à época, não passou de uma tremenda provação econômica e social, que incluiu a terrivelmente famosa Grande Fome que vitimou dezenas de milhões de chineses, ao tempo que, conflagrada, deu início a outro processo político macabro: a grande revolução cultural, também saudada por parte da geração de 1968 no ocidente como um marco revolucionário de rupturas mundiais, e uma espécie de apologia à pobreza igualitária.

Onde milhões de cidadãos da China foram perseguidos, vários mortos, porque encarnavam a “sociedade decadente do passado”.

Professor em "reeducação" durante a Revolução Cultural chinesa

Em resumo, a revolução cultural chinesa propunha-se a exterminar as tradições, as permanências do seu próprio povo: cultura, literatura, música, arte, pintura, religião, filosofia etc. O célebre, milenar, pensador Confúcio, foi considerado como uma aberração indescritível. Todos os clássicos da música chinesa e literatura ocidentais foram banidos, livros e discos queimados em praça pública, professores foram mortos ou levados aos campos de reeducação, de onde muitos jamais voltaram.

Assim a revolução cultural chinesa, celebrada com vibrante entusiasmo por certa parte da juventude ocidental de esquerda dos anos sessenta passados, nada mais foi que um festival macabro de intolerância cuja finalidade era eliminar o passado, e, desde o presente, introduzir o “novo” na sociedade chinesa. Durou poucos anos e foi derrotada pelas lideranças da China, inclusive na esfera econômica.

É famosa a frase de um dirigente chinês pós revolução cultural: queriam que nós fôssemos pobres, felizes e sem memória, inclusive alguns ocidentais. Nós agora estamos no rumo de sermos felizes, ricos, com memória e cultura.

Existe algo em comum entre o nazi-fascismo, a revolução cultural chinesa dos anos sessenta passados, e as pautas identitárias, “conservadoras” ou “progressistas” dos dias atuais: a intolerância xenófoba, o desprezo pela memória e o patrimônio dos povos, e a vã tentativa pela reconstrução ideológica, artificial, da própria História em geral.

A revolução cultural chinesa elaborou o “livro vermelho de pensamentos do presidente Mao”, os nazistas uma arte e cultura com base na raça ariana pura e no destino irrefutável alemão em dominar o mundo. E as pautas identitárias, “conservadoras” ou ditas “progressistas”, a reinterpretação politicamente correta do gênero, da arte, da cultura, da música, da História a partir das suas cartilhas de orientação à sociedade.

Todas elas foram, continuam a ser, excludentes, intolerantes e persecutórias frente às grandes maiorias sociais, pretendiam, ou pretendem, enquadrar a sociedade conforme os seus ditames evangelizadores de vocação autoritária e despótica, e quem discordar, queimariam, ou vão queimar, no fogo do inferno, em certos casos, reais, em outros, virtuais.

Na revolução cultural chinesa, uma facção sectária do partido comunista da China apoderou-se de frases do presidente Mao, para “disciplinar” a sociedade chinesa “corrompida” em valores, cultura e hábitos.

No regime nazista alemão, os nazistas no poder, “inventaram” a “nova cultura” de uma Alemanha pura e superior ao resto do mundo, com vistas a dominá-lo.

Queima de livros na Alemanha nazista

No identitarismo dos dias atuais, dois campos disputam a mesma coisa com sinais trocados: uns pretendem impor um neoliberalismo econômico radical que já não é mais aplicado em canto nenhum do planeta, e o outro uma espécie de neoliberalismo social individualista, que os povos também rejeitam. Em qualquer um dos dois casos a agressividade, fanatismo e intolerância dão a tônica.

Ambos se opõem à centralidade da nação como fator de união dos seus compatriotas em torno de um projeto de desenvolvimento econômico e social soberano, comum. Tais aspirações não existem no discurso identitário, só a evangelização em torno de suas agendas restritivas, excludentes.

Por serem neoliberais, se pretendem “pseudointernacionalistas” porque se encontram sob o beneplácito e incentivo do capital financeiro internacional contra a soberania dos Estados Nações. Procuram com ideologias criar falsos antagonismos entre a soberania nacional e a democracia.

Esse discurso massificado encontra imensa guarida na grande mídia internacional, associado ao rentismo especulativo, que aliás anda faturando horrores com a especulação intensamente alarmista sobre o corona vírus. Alguns especialistas já chamam de infopandemia.

Enfim, quando os tempos são de desorientação generalizada, como é o caso atual, surgem ideologias sectárias, intolerantes e fanáticas querendo se impor sobre o conjunto das sociedades.

Mas, elas depois sempre entram em decadência e sucumbem. Seja através da consciência política social, ou em alguns casos mais graves, por mecanismos invasivos e dolorosos, como a derrota nazista na Segunda Guerra mundial. É o que nos ensina a História.