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A turma do Sindicato dos Policiais Civis decidiu que a categoria entra em greve por quatro dias. É uma inusitada paralisação que vai até a próxima sexta-feira. Fala o presidente da entidade, Ricardo Nazário: “Foi deliberado, em assembleia, que nós não iremos parar no Carnaval em respeito à sociedade, ao povo alagoano”. A verdade é que a cúpula sindical temia desgaste caso levasse adiante a ideia de cruzar os braços durante os dias de folia. Como escrevi em texto anterior, a ameaça era uma estratégia na base da chantagem.

Até então, o ânimo era mesmo pela suspensão das atividades durante os festejos carnavalescos. Mas a jogada é tão manjada, como tantas vezes já ocorreu, que a diretoria preferiu não arriscar. Ninguém é contra os melhores salários para os servidores públicos. Não é isso o que está em debate. Mas as alegações dos líderes sindicais não combinam com a realidade, como também escrevi.

A informação de que o governo de Alagoas paga os piores salários para agentes e escrivães é balela. Uma pesquisa em portais de transparência nos estados, como fiz, revela um quadro diferente do que é pintado pelo Sindpol. Mas nessa guerra o que predomina é o fator político. Nossos bravos sindicalistas são bons de discurso com palavra de ordem apelativa, ainda que longe da realidade.

O que escrevi no último dia 14 levou o sindicato a “denunciar” em seu site que eu estaria jogando a população contra a categoria. Besteira. A reação dos chefes da entidade apenas reforça meus argumentos. No lugar de uma resposta concreta diante dos números que apresentei, fazem firula para a arquibancada. Mais uma vez, é só uma tática das antigas, típica do mais atrasado sindicalismo.

No atual movimento de policiais civis por reajuste salarial aparece um componente que de fato é uma novidade. Nos atos de mobilização, a turma prega agora que “quem reduziu os índices de violência” merece uma remuneração mais alta. Pensando por aí, até parece que a categoria, de uma hora pra outra, descobriu a fórmula de combater a violência. E por que isso não ocorreu antes?

Os índices de homicídio explodiram numa velocidade crescente, ano a ano, por quase duas décadas. Essa realidade atravessou os governos de Ronaldo Lessa e de Teotonio Vilela Filho. Onde estava o Sindpol que nada fez para baixar os números da matança em Alagoas nestes anos todos. Pergunto isso porque, hoje, a entidade se arvora em ser o pai dos avanços na segurança pública.

É no mínimo falacioso uma categoria de servidores forçar a barra para se apresentar como única responsável por uma conquista que, é óbvio, resulta de uma política de governo. E nem estou aqui celebrando alguma revolução do governo Renan Filho nesta área. Sim, finalmente a estatística registra queda dos homicídios, mas ainda falta muito para que tenhamos um quadro aceitável.

Deve-se lembrar, naturalmente, que o drama da violência é de âmbito nacional. O combate a isso é um desafio de cada estado. Ao capitalizar os bons resultados obtidos pela gestão Renan Filho, o Sindicato dos Policiais Civis age como o governo Bolsonaro. O presidente e seu capacho Sergio Moro mentem quando fazem propaganda da queda de homicídios como se fosse fruto de ação federal.

Voltando ao movimento grevista, penso nas muitas ocasiões em que, como jornalista, nos últimos trinta anos, acompanhei essas brigas entre governo e servidores. Em vários momentos, as paralisações começavam e terminavam – e a população nem tomava conhecimento. Os efeitos “desastrosos” da greve estavam muito mais no trololó sindical do que na rotina de todos nós.

Claro que ninguém deseja a suspensão dos serviços nas delegacias. Espera-se que a gestão estadual e o sindicato cheguem a um acordo para normalizar os trabalhos. A forma como os chefes sindicais tocam a mobilização atual não ajuda muito, a começar pela distorção quanto ao nível salarial da categoria. O interesse político alimenta o impasse – e os sindicalistas sabem do que estou falando.