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A financeirização, praticamente absoluta, da economia mundial fez surgir uma espécie de totalitarismo global, cujas ideias atendem à manutenção da hegemonia das políticas que servem aos mecanismos da atual ordem especulativa parasitária.

O historiador egípcio-britânico Eric Hobsbawm foi profético em seu livro O Breve Século XX ao afirmar que as novas gerações corriam sério risco em viver em um estado de presente contínuo, sem referências do passado e, portanto, sem perspectivas, incapaz de traçar, planejar, com os instrumentos que a humanidade possui, rumos ao futuro, mesmo que acertando ou errando. Nada disso, porém, acontece ao acaso.

Fala-se muito, entre outras pautas, ou “narrativas”, palavra da moda hoje, sobre a essência, o sentido das religiões, mas não como uma indagação teológica, filosófica ou existencial, porque essa discussão é hoje circunscrita ao campo de uma agenda superficial, sem profundidade, não como a que arrastou por quase toda sua vida, por exemplo, o consagrado escritor britânico Graham Greene, assim como vários pensadores ou filósofos de envergadura, inclusive no século XX.

Entre os fenômenos do novo milênio, destaca-se de maneira acentuada o Relativismo, não confundir com a teoria da Relatividade de Einstein e outros, cujo objetivo foi a tentativa da compreensão da Astrofísica, da matéria e da energia etc., mas de um relativismo pueril, raso, sem fundamentos.

O “presente contínuo”, o “Relativismo pós-moderno”, como é denominado, representa a negação dos acontecimentos Históricos do passado, e do presente, mesmo os mais recentes.

Mas o passado é real e se encontra no inconsciente individual das pessoas, na sua infância, adolescência, fase adulta. Em documentário exibido no Canal Curta, o cantor e compositor Alceu Valença afirmou que toda a sua produção resulta das suas vivências, em são Bento do Una, Pernambuco, na primeira vez que viu o mar em Olinda, em Recife, no Rio de Janeiro, São Paulo e pelo mundo afora.

Assim também é com o inconsciente coletivo, que se revela nas tradições orais, populares ou eruditas, como igualmente nos episódios que compõem a História de um povo. A crítica historiográfica, assim, só pode vingar se partir dos fatos acontecidos. Precisos e rigorosos.

O relativismo “pós-moderno” é o esfumaçamento da verdade, individual ou coletiva, o que nos faz lembrar a pergunta da famosa estagiária universitária nas crônicas de Nelson Rodrigues, ao lhe indagar o que ele achava do “nada absoluto”. Enfim, representa a negação de tudo acumulado nas referências concretas de qualquer sociedade.

É por isso que o cientista político Roberto Mangabeira Unger afirmou: nas Humanidades, ou ciências sociais, o escapismo está na ordem do dia. A ciência social vai passear numa montanha russa de aventuras, desconectada da reconstrução da vida prática.

Não é sem razão a “consagração” de certas palavras “códigos” em vários extratos de setores médios, tais como: a “narrativa” do movimento tal, o “lugar de fala” de determinadas “tribos” sociais urbanas, a apologia do conceito “diversidade” em substituição à ideia da Democracia, que significa a conquista universal e maior da Igualdade para todos, sem exceção.

Porque o que importa para o capital financeiro parasitário é a fragmentação e não o esforço social em comum na busca de soluções para as necessidades reais de uma sociedade.

Essas e outras formulações estão embutidas no ideário do relativismo pós-moderno das agendas multiculturais e identitárias, sob a capa de um pretenso marxismo cultural, que na verdade mais se assemelha a um “marxismo caricatural”.

O relativismo pós-moderno indica a tentativa de esmagamento da memória, do pertencimento em comum, a aspiração da igualdade para todo um povo, uma nação.

Em seu lugar buscam introduzir a fragmentação, uma sociedade de dissidências de origens irreconciliáveis, a abdicação de um projeto coletivo de uma comunidade nacional.

Cria-se, dessa maneira, uma sensação esmagadora de orfandade no indivíduo, como também no social, gerando uma epidemia de neuroses e depressões em escala geométrica, que com o tempo passou a ser assimilada como “normal”. E isso nada tem a ver com a importância da psicologia, psiquiatria ou a necessidade de uma psicanálise mais democratizada, para quem a desejar ou precisar.

Na verdade as neuroses ou patologias mentais são atualmente uma pandemia cuja origem reside no abandono do individual, ou do social, na falta de rumos ou de causas ensejadas nesse presente contínuo, nas exigências definidas pela ordem financeira especulativa, violenta, implacável, massivamente excludente.

Não se pode abstrair também dessa realidade, aí sim, realidade mesmo, a proliferação das “religiões midiáticas”, que se espalham profusamente por todos os lados, revelando uma carência, não sobre as grandes reflexões teológicas, mas o sentimento de abandono do indivíduo e da coletividade.

Porém, de todos os movimentos religiosos midiáticos existentes, que continuam a surgir, é possível afirmar que a maior religião monoteísta deste novo milênio do pós-modernismo relativista, é a adoração à Tecnologia. Não como um instrumento fundamental ao desenvolvimento da humanidade, mas como se ela fosse, em última instância, um fim em si mesmo, um Deus substituto e definitivo. Um ente a ser cultuado, preenchendo vazios existenciais. O que jamais será possível.

Quanto à pandemia das neuroses e outras patologias, nessa sociedade sem rumos, o que manda é a lógica do ultraliberalismo financeiro excludente das maiorias sociais.

Você pode estar com a cabeça totalmente louca, mas tem que funcionar para o sistema. E quem não conseguir, mesmo à base de fármacos, então você está fora. E já existe um exército de dezenas ou centenas de milhões de excluídos ou precarizados no mundo.

A Nova Ordem financeira mundializada é selvagem, caótica, mas tem suas agendas que incutem um corolário de “causas” sempre diversionistas, segregacionistas, disfuncionais, quando não alarmistas, várias delas se encontram nessas chamadas “pautas identitárias”.

As chamadas “Distopias” e constituições das famosas “realidades paralelas” fazem parte de uma construção hegemônica jamais vista antes, dada a sua massiva difusão através da grande mídia hegemônica. E isso nada tem a ver com ficção, seja ela científica, como recurso de linguagem, literatura, cinema futurista etc. etc.

Os atores das grandes mídias passam a ser os novos filósofos rasos, os jornalistas na grande mídia hegemônica, esses, narcisistas, substituem a própria notícia, que raramente é uma notícia verdadeira, os pop stars nativos ou internacionais possuem a última palavra sobre qualquer assunto circulante, sejam eles reais ou inventados.

Na verdade a grande mídia hegemônica mundial, quase que abandonou a notícia, mesmo que parcial, e em seu lugar adotou as “narrativas” ideologizadas das agendas inclusive as “identitárias”, salvo a linha econômica do neoliberalismo radical, e a criminalização da política, que é um elemento chave da vida democrática na sociedade. Justiça se faça, ela está no seu papel doutrinário.

Mas também não é sem fundamento que as pesquisas de opinião pública apontam para um enorme descrédito da grande mídia. Afirmar que as causas desse descrédito se devem unicamente às redes sociais, é tergiversar sobre os fatos.

Disfuncionais, alguns setores progressistas incorporam-se, paradoxalmente, ao “pós-relativismo” e à “pós-verdade” mesmo que vários não o saibam. Daí, as famosas “bolhas das redes sociais”, desconectadas das aspirações das grandes maiorias sociais.

Já os ultra conservadores, reacionários, pró sistema financeiro especulativo, como no Brasil, mas não apenas aqui, passaram a encarnar, pelo menos, durante algum tempo, a figura da rebeldia antissistema, quando na verdade eles representam e são o próprio sistema.

Basta usar algumas palavras chaves, caras ao imaginário popular. Assim, a desrealização é tamanha que muitos jovens acreditam que jamais existiu o golpe civil-militar de 1964, que durou vinte e um anos, pleno de matérias jornalísticas, arquivos, fatos publicados, fotografias, depoimentos de pessoas vivas, documentários filmados etc. etc. Interpretar o golpe civil-militar sob um ângulo, conservador, retrógrado é uma coisa. Negá-lo, é mais que espantoso, é um exemplo da chamada “realidade paralela” em ação. Ainda mais quando o ex-secretário nacional de cultura do governo Bolsonaro resolve citar Goebbels, ministro da propaganda de Hitler, como paradigma cultural. Um psicopata, facínora genocida, da Alemanha nazista.

Porém, de outro lado, alguns setores de “esquerda” já consideram que a ditadura jamais terminou e que o governo Bolsonaro seria um exemplo cabal de tal “narrativa”.

Ou seja, desde 1985, passando pela Assembleia Constituinte, as diversas eleições presidenciais, o País sempre esteve sob uma ditadura disfarçada. É preciso considerar que tal ideia, até alguns anos atrás seria até risível. Hoje, não mais. Qual nome podemos dar a esses fenômenos tão distintos dos fatos reais e da vida?

O cientista político norte-americano Mark Lilla, em entrevista no Brasil, afirmou que os mitos várias vezes são benignos na História. Quando o general Charles De Gaulle exigiu, na libertação de Paris, durante a Segunda Guerra Mundial, marchar em primeiro lugar sobre os Campos Elísios à frente das tropas francesas no exílio, que eram minoria em relação à vasta dimensão dos exércitos aliados, ali ele criou um mito para os franceses sobre a real importância do exército francês para os seus compatriotas.

Restituiu o orgulho para uma França ocupada e humilhada pelo colaboracionismo do governo de Vichy. Após o fim da guerra a França estava dividida e ameaçada por uma larga conflagração civil entre a resistência e os ex-colaboracionistas, numa espécie de ajuste de contas contra os simpatizantes do nazismo.

Mais uma vez o general, herói nacional, declarou que o colaboracionismo tinha sido uma aberração de minorias. Ele sabia que isso não era verdade, mas o seu gesto evitou uma guerra fratricida interna e unificou a França. Aqui temos o exemplo do Estadista político e do mito em prol do bem comum a uma nação, afirmou Mark Lilla.

Ao erguer a bandeira do Brasil como símbolo de sua campanha, o presidente Bolsonaro criou um falso mito de candidato patriota, no entanto, a sua agenda econômica é a mesma do capital financeiro, pior ainda, ultra neoliberal, que não se aplica mais nem nos Estados Unidos.

Ao alinhar a diplomacia brasileira à norte-americana, além de manchar a História extremamente competente do Itamaraty, subordinou a nossa política externa ao governo Trump, também conservador e de direita.

Parte da esquerda, ao se negar a abraçar as cores nacionais na última campanha presidencial, contra o adversário Bolsonaro, abriu mão da emblemática questão nacional e sua simbologia incontornável ao imaginário popular. E incorporou em seu discurso eleitoral uma agenda global que podia ser usada em todas as partes do planeta, porque ela é internacional e hegemônica.

Abstraindo a realidade nacional, distanciou-se dos grandes problemas do País, e por fim enredou-se nas “bolhas” das redes sociais, cuja manipulação ficou mais que evidente com as denúncias feitas pelo ex-agente da NSA, espécie de uma sucursal da CIA, Edward Snowden, exilado na Rússia. Aliás, as redes sociais estão exatamente no topo da pirâmide das nocivas fake news.

Ao insistir em uma retroalimentação política contra os arrivismos, muito bem calculados, do presidente Bolsonaro, essa mesma esquerda deixa de abordar como centrais as grandes questões que afligem a sociedade brasileira, a necessidade de rumos concretos ao Brasil, a retomada do desenvolvimento econômico e soberano da nação, o seu protagonismo diplomático internacional, o combate às abissais desigualdades sociais etc.

Enfim, na era de “mitos negativos” como disse Mark Lilla, “realidades paralelas”, “visões distópicas”, o País necessita pensar, com a máxima amplitude e capacidade política, espírito prático, amplo entendimento entre diversos setores sociais, em construir caminhos para o futuro, motivar e empolgar com projetos factíveis, 210 milhões de cidadãos, órfãos de perspectivas na atualidade.

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