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O nome da atriz Regina Duarte para a Secretaria de Cultura do governo Bolsonaro nos lembra que o Brasil é o país da novela. E isso, gostemos ou não de novela, dá a medida das coisas. E novela é com a Globo, emissora que foi a cara da ditadura militar instalada no golpe de 1964. (Garotões apaixonados por Bolsonaro negam o golpe – foi apenas reação ao comunismo globalista). Como eu dizia, meio mundo tratou de encaixar aspectos noveleiros nas análises sobre os rumos da cultura sob Dona Regina.

Talvez a melhor declaração sobre a quase nova secretária tenha sido de Lima Duarte, o veterano ator que ostenta, em seu currículo, um papel para sempre vinculado à colega bolsonarista. É Sinhozinho Malta na Presidência e Viúva Porcina na Cultura, disse ele. A sacada é uma referência à Roque Santeiro, talvez a novela de maior sucesso da Globo. Parou o país na remota década de 1980 (foto).

Apesar do estrondo que foi a história de Dias Gomes, há quem aponte Selva de Pedra como sendo ainda melhor – e de maior sucesso. Pois na trama de Janete Clair, de 1972, lá está Regina Duarte, arrasando corações, a escrever seu nome definitivamente como a “namoradinha do Brasil”. Ali, no “Brasil Grande”, quem diria que, quase meio século depois, ela chegaria ao que chegou agora.

A atriz está em dezenas de outros enredos que ao longo das décadas a Globo apresentou ao grande público. Como se sabe – e de novo não importa a nossa preferência –, a produção massacrante da emissora em teledramaturgia forjou no brasileiro uma maneira de entender a ficção e as coisas da vida real. Mais ou menos por aí, e não apenas isso. Sim, novos tempos. Mas as novelas ainda resistem.

Voltando à repercussão da escolha da atriz para o comando da Cultura no governo federal, há outras referências a personagens marcantes de sua carreira. Muitos lembraram, sempre com piadas, de Rainha da Sucata, de 1990, e de Malu Mulher, série de vanguarda exibida uma década antes das aventuras da sucateira, em 1979. Hoje, Regina renega a pauta feminista de suas heroínas.

Porque o Brasil é o país da novela, a escolhida disse “sim” ao convite, mas não foi uma resposta definitiva. Segundo suas palavras, vai a Brasília conhecer o possível local de trabalho. Pretende fazer um “teste”. Como se fosse um roteiro de Janete Clair, Dias Gomes ou Glória Perez, a namoradinha revelou que está “noivando” com Bolsonaro. O casamento ainda não é certeza para o casal.

A Globo tratou de soltar uma nota avisando que sua funcionária tem contrato em vigor. E, caso aceite o cargo do presidente, terá de se desligar sem mais delongas – como é a regra para todo e qualquer colaborador. Mas como fazer se ela diz que está num noivado, ainda com aliança na mão direita? A circunstância inusitada deixa a direção da TV em dúvida. Tensão e suspense a cada cena e capítulo.

Uma coisa é certa no desfecho reservado aos personagens dessa novelesca presepada: não esperemos romantismo, reviravoltas redentoras e final feliz. Desde sempre, a trama varia entre o macabro, o grotesco e a patetice. Basta lembrar de Roberto Alvim, o nazista que foi embora após aquele vídeo inacreditável. Não importa o nome do sucessor, a luz não alcança esse buraco.

Cultura não é propriedade do Estado. A turma de doentes do governo Bolsonaro pretende “recriar a arte nacional”. É um projeto típico dos regimes totalitários e assassinos, que perseguiram artistas não alinhados com os piores ditadores da História. E Regina Duarte foi parar no meio desse pântano – com gosto, com disposição pra guerra. É o personagem mais perverso em toda sua carreira.