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Quando explodiu a repercussão sobre o vídeo nazista, a primeira falácia do então secretário de Cultura do governo Bolsonaro foi dizer que tudo não passava de “coincidência retórica”. As frases plagiadas de Joseph Goebbels, ministro da Propagada de Hitler, teriam surgido misteriosamente do nada e, sem explicação racional, invadiram a cabeça de Roberto Alvim (foto). Logo depois, o sujeito partiu para nova teoria ao insinuar a sabotagem por parte de algum assessor. Era outra brincadeira que também não colou.

Coincidência de ideias não apenas pode existir como é mais comum do que se pensa. Este é um tema que atravessa a história da arte. Haverá sempre um precursor do que hoje se apresenta como inovação e originalidade. Os exemplos estão em todas as manifestações estéticas, da música à literatura, do cinema à pintura. Quem é o “pai” do romance moderno? Há controvérsia de sobra.

Um mesmo tema pode ser localizado em diferentes lugares, ao mesmo tempo ou em épocas diferentes, sem que tenha havido contato entre seus formuladores. Um dia desses li texto do poeta e diplomata Felipe Fortuna sobre poesia visual. Ele contesta a versão que atribui a Mallarmé, o poeta francês, a primazia do que se poderia chamar de poética da visualidade. Aponta origens milenares.

Tudo bem, deixemos a poesia de lado. Ao menos por agora. O fato é que, não há dúvida, Roberto Alvim pode ter uma ideia que julgue original e revolucionária, mas que, na verdade, já pintou na cabeça de outro, um dia antes, meses atrás, nos séculos remotos. Eu e você também podemos ser invadidos por algo dessa natureza. Isso é uma coisa. Repetir um texto, palavra por palavra, aí não.

Como deixamos a poesia de lado, vamos falar da nova explicação que o ex-secretário apresentou para sua filosofia hitlerista. Num texto distribuído aos que fazem parte de seu círculo mais próximo, ele aponta uma possível armação do Capeta: “Começo a desconfiar não de uma ação humana, mas de uma ação satânica em toda essa horrível história”. Seria o Brasil nas artes do satanismo.

No YouTube há vídeos estranhíssimos deste senhor que um dia já foi um diretor de teatro com algum respeito. É cada um mais deplorável do que outro. O cara deixou os textos da dramaturgia, clássicos e contemporâneos, e adotou o palavreado de supostos pastores que vivem da pregação de preconceitos e do assalto a fiéis de cabeça oca. Nas cenas, vê-se que aquilo é um perigo e tanto.

Dirigismo cultural. Os rapazes da extrema direita repetem, como papagaios, que essa é a terrível ideia na cabeça de esquerdistas do marxismo globalista. Por isso, o governo do Jair veio para eliminar esse terrível mal que até então tomava conta do Brasil. Para isso, os intelectuais da turma tramam a “arte nova” – que afinal ou será assim, ou então “não será nada”. Que avanço no horizonte!

O que pregam o doente Bolsonaro e sua gang é um padrão que despreza a diversidade das manifestações da arte e da cultura de um povo. Defendem uma coisa e fazem exatamente o que dizem combater. Como no fascismo mais duro, o que interessa é a uniformidade, a obediência aos ditames de um projeto bruto e excludente. Ou seguimos os princípios totalitários ou será a morte.

Como já escrevi, Roberto Alvim não é caso isolado nesse governo de milicianos e ignorantes. Contrariado, o presidente teve de descartar alguém que ele admira profundamente. Mas o projeto segue intocado, a ser levado adiante pelos que continuam na máquina estatal. Com ou sem retórica plagiada, o que há do mais evidente “satanismo” no Planalto é o modelo autoritário de poder.    

Acabo de ler sobre a resposta de Regina Duarte ao convite para assumir a Secretaria de Cultura. Pelo que entendi, ela aceitou, mas ainda não aceitou completamente. Diz que está “noivando” com o governo. Numa rede social, a atriz chama Bolsonaro de “homem santo”! Como se vê, do Satanás de Alvim à beatificação do presidente, o terraplanismo invadiu todos os recantos da vida brasileira.