Foto: Cortesia ao CM
Aron Hakodesh da comunidade

A comunidade judaica em Maceió viu com receio o episódio envolvendo a fala do então secretário Especial de Cultura, Roberto Alvim, que copiou trechos e ideologia do discurso do ministro da propaganda nazista, Joseph Goebbels. Única comunidade judaica na capital alagoana, a Beit Aharon repudiou o fato e revelou detalhes de como os judeus ainda enfrentam preconceito e até ameaças.

Ao Cada Minuto, a diretora de comunicação da comunicação Maryse Hannah disse que o discurso do secretário deixou a comunidade temerosa. “Nós naturalmente ficamos revoltados. O nazismo foi uma das ideologias mais assassinas que já surgiu na história; é inaceitável que alguém faça qualquer alusão a essa ideologia, ainda mais em rede nacional”.

Maryse disse que não se surpreende que ainda haja pessoas que simpatizem com esse tipo de “pensamento tacanho”. “Mas vindo de alguém com o cargo que Roberto Alvim ocupava, nos deixou um tanto receosos, explicou.

Após a repercussão negativa da fala, o presidente Jair Bolsonaro decidiu demiti-lo do cargo. Para Maryse, a decisão imediata do presidente foi correta. "Quem recita Goebbels e o nazismo não pode ocupar cargo nenhum no governo”, afirma.

Ataque virtual fez comunidade mudar a rotina

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em  2010 havia nesse ano 107.329 judeus no Brasil, a segunda maior comunidade judaica da América Latina. 

Já em Maceió existe apenas uma: a Beit Aharon. Fundada em agosto de 2017, a comunidade conta com cinco famílias, totalizando 21 pessoas. “Houve tentativas no passado de fundar uma comunidade em Maceió, mas nunca deu certo”, conta Maryse.

Por causa do preconceito que ainda existe em algumas pessoas, e para se proteger de ataques, o endereço da comunidade não é divulgado nas redes sociais. Maryse contou que a comunidade já sofreu ataques por meio virtual.

“Um rapaz entrou em contato conosco há cerca de dois anos atrás solicitando nos fazer uma visita. Depois começou a enviar conteúdos pornograficos e neonazistas por meio das redes, criou um fake e passou a adicionar alguns membros como forma de perseguição. Não nos intimidamos com esse tipo de comportamento”, explicou a diretora.

O suspeito foi descoberto após uma investigação. “Se tratava de um adolescente, provavelmente portador de algum transtorno porque ele falava estranho. Vimos que não seria nenhuma ameaça de fato”, disse Hannah.

Após esse ataque, os membros estão utilizando uma forma para evitar outra situação assim: os interessados que querem visitar devem enviar por e-mail documento de identificação.

“Então fazemos uma análise prévia de quem se trata e marcamos uma entrevista, dependendo do que a pessoa realmente esteja buscando nós podemos, ou não, aceitá-la como membro”, explicou Hannah.

Crescimento da comunidade judaíca

Apesar da comunidade ter poucos membros, Maryse vê um crescimento e interesse maior por parte das pessoas. “Muitas pessoas não judias estão se interessando bastante sobre judaísmo, estudando e até pagando aulas com rabinos. É um movimento crescente”.

Ela disse ao Cada Minuto que as pessoas ficam curiosas sobre a religião, mas que é importante ressaltar que o judaísmo não é apenas uma religião, e sim de um povo com uma cultura diferente. 

“A gente tem que sentir que a busca da pessoa é sincera. O judaísmo não é só religião, é um povo com uma cultura totalmente diferente, com estilo de vida diferente. Nós já recebemos lá na sinagoga pessoas apaixonadas pela religião, mas na hora de se adequar ao que o judaísmo pede, elas desistiram”, enfatizou a diretora. Segundo ela, ao todo, são 613 mandamento a serem cumpridos.