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No ano passado, o ministro das Relações Exteriores, Beato Salu, também conhecido como Ernesto Araújo, garantiu que o nazismo foi um movimento de esquerda. O ridículo chanceler – que a cada ato ou declaração achincalha mais um pouco as tradições do Instituto Rio Branco e do Itamaraty – é um terraplanista ideológico. Mas ele, é claro, não está sozinho no governo miliciano de Jair Bolsonaro. A turma se esforça pela primazia em boçalidade, ignorância e hipocrisia na distorção da realidade.

O Brasil acordou nesta sexta-feira sob o impacto de mais uma manifestação absurda desses doentes que ocupam os poderes da República. E desta vez foi o secretário Especial de Cultura, Roberto Alvim, que reproduziu, num vídeo oficial, um discurso de Joseph Goebbels, o ministro da Propaganda de Hitler. A repercussão do episódio foi um estrondo, como se vê nas manchetes da imprensa nacional.

Não vou aqui repetir o palavrório delinquente do secretário. O leitor pode conferir tudo nos sites nacionais. Enquanto escrevo, saiu a informação de que o sujeito será demitido ainda hoje. Se fosse seguir seus instintos e seu coração, Bolsonaro não tomaria tal decisão, não afastaria o nazista tupiniquim. Mas, como falei, a repercussão não deixa alternativa para o capitão da tortura.

Por que digo que o presidente não demitiria o secretário, caso dependesse de sua vontade exclusiva? Porque mais cedo, quando o tema já havia incendiado o noticiário, Bolsonaro apareceu nas redes sociais passeando de moto aquática. Ele postou a imagem, com a mensagem de “bom dia a todos”, numa evidente ironia diante do caso, que também repercute em âmbito internacional.

Outro sinal de que, pelo desejo do presidente, nada aconteceria com seu nazista de estimação, foi uma resposta do governo à Folha de S. Paulo. Procurada pelo jornal, a Secretaria de Comunicação da Presidência informou, por meio de nota, que o Planalto não comentaria o vídeo de Roberto Alvim. Mas a presepada do elemento é indefensável – até para os mais depravados soldados da tropa.

E agora, quem é fã dos métodos nazistas – que mataram milhões de pessoas durante a Segunda Guerra? A imagem do alto reproduz a desprezível cena do secretário. Ele se fantasiou como o ministro de Hitler, com um cenário que emula o clima do regime que envergonha a Alemanha para todo o sempre. A gravação também tinha a trilha sonora que era a favorita do tirano maior da História.

Até Olavo de Carvalho se manifestou, mostrando desconforto, ainda que sem bater no governo, naturalmente. Para o guru de Bolsonaro, que influencia os garotões “liberais” até no uso de cachimbo, Alvim “não está bem da cabeça”. Outras vozes que se pretendem representantes de uma extrema direita limpinha também condenaram a criminosa iniciativa do secretário. Por isso, ele cai.

Alvim é o mesmo que chamou de “sórdida” a atriz Fernanda Montenegro. É o mesmo que ofende sem parar figuras como Chico Buarque e Maria Bethânia, patrimônios da cultura brasileira. É esse tipo de gente que combina com os valores alardeados no governo e que mobilizam os cidadãos de bem. Na linha do beato Salu e outros figurões da seita, temos na Presidência a escória de uma ideologia.

Agora, enquanto chego à reta final deste texto, sai a notícia de que o governo anunciou a demissão do secretário, essa porcaria que tinha a pretensão de reescrever a realidade histórica. Não tenhamos, porém, qualquer expectativa de que algo saudável ocupará seu lugar. Isso é impossível, estaria na contramão do que alimenta a alma podre do bolsonarismo. Tudo aí é um caso perdido.

Roberto Alvim, insisto, não é caso isolado. Toda essa ladainha de patriotismo, família, a Bíblia no lugar da Constituição, o ódio visceral a ideias divergentes... Esse conjunto tem uma base mais ampla, está de acordo com um projeto de poder que se move pelo signo da brutalidade, da eliminação do outro. Sai um nazista, entra alguém do mesmo esgoto. Serei óbvio na pergunta: que Brasil é este? Sigamos.