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Na última década, ano a ano, um canto da geografia praieira alagoana se transformou em point de bacanas do Brasil. É São Miguel dos Milagres, no litoral norte do estado. E os bacanas que escolhem esse lugar para seus passeios e aventuras ficam tão maravilhados, e empolgados, que mudam o nome do município. Todos se referem ao recanto apenas como Milagres. Forasteiros que adotam a lindeza daquelas praias têm uma marca em comum: são podres de rico. E isso atrai a indústria do turismo predador.

Esta semana, um morador da região denunciou a construção de uma espécie de duto para despejar esgoto direto nas águas do mar de Milagres. Seria obra de algum hotel ou pousada. Vi o caso na TV Gazeta na noite desta terça-feira. Procurados pela emissora, os órgãos ambientais disseram que não é bem assim. O troço seria apenas uma passagem para escoar água da chuva, explicou o velho IMA.

Ainda segundo o Instituto do Meio Ambiente, que atua sob a gestão do governo do estado, os trabalhos com o duto foram autorizados após avaliação técnica. O IMA também informou que o ICMBio, da esfera do Ministério do Meio Ambiente, autorizou a obra. As imagens capturadas pelo morador e exibidas pelo AL2, da TV Gazeta, são intrigantes. Aquilo precisa de mais apuração.

Leio aqui no CADAMINUTO a seguinte reação do governador Renan Filho após tomar conhecimento da notícia: Todas as providências cabíveis serão tomadas e, se houver descumprimento da legislação ambiental, os responsáveis serão punidos. Como o governador está longe da filosofia Bolsonaro, sabe que ninguém precisa de uma nova Cancún. Isso é coisa de mercenário.

Cancún Brasileira, vocês devem lembrar, é o “projeto” do presidente miliciano para Angra dos Reis, no Rio de Janeiro. Se a ideia fosse adiante, seria a destruição de uma vastidão do mapa, até agora devidamente protegida pela legislação ambiental. A presepada foi rechaçada, a ponto de o capitão da tortura nunca mais ter voltado ao assunto. Mas nada está a salvo neste abismo.

Voltando a Milagres, a prefeitura do município também se manifestou sobre o caso das escavações na areia da praia. Informam as autoridades que a tubulação vista na área pertence a um tal Condomínio dos Milagres, que está sendo erguido naquele paraíso. É o resultado da badalação a que me referi. Não será o primeiro empreendimento a mudar completamente o visual e a rotina do lugar.

No último dia 11, a Folha de S. Paulo publicou uma reportagem que resume o desastre em andamento que atinge aquela parte de Alagoas. É um relato pra lá de preocupante, com vários exemplos de como as praias estão sendo privatizadas. A atração turística resulta num velho processo tantas vezes visto – em Alagoas e em outras regiões do país. O texto da Folha começa assim:

As praias paradisíacas da cidade de São Miguel dos Milagres, um dos destinos mais procurados no litoral norte de Alagoas, sofrem com a escalada de construções desordenadas e implantação de grandes empreendimentos à beira-mar. O efeito prático é a restrição cada vez mais acentuada dos acessos. Na praia do Toque, uma das mais famosas, o visitante só consegue alcançar a areia com facilidade se estiver hospedado em uma das pousadas de frente para o mar. Tá feia a coisa.

Como se vê, perto do que a reportagem descreve, a obra flagrada pelo morador não é nada. O monstro é muito mais voraz. A força da grana é capaz de dobrar todas as regras legais e princípios de administração pública. Os milionários donos das grandes pousadas e hotéis seduzem prefeitos, vereança e doutores do meio ambiente. Se nada for feito, a degradação será o futuro do paraíso.

O que se passa agora em São Miguel dos Milagres já ocorreu em outros pontos do litoral alagoano. Caso emblemático atinge o litoral sul, nas areias do Francês, da Barra de São Miguel e do Pontal do Coruripe. Nesses lugares, sobram sinais de como o turismo predador baniu o povo das praias. Como na pré-história do país, senhores do dinheiro ergueram muros e se apossaram das terras públicas.

Se a preocupação do governador com as notícias sobre Milagres vai resultar em ações concretas, sua gestão pode se preparar para um trabalhão e tanto. Sim, não resta dúvida, a indústria da turistada mirou naquelas praias do litoral norte e, agora, é salve-se quem puder. Até os turistas sem tanta grana estão sendo impedidos de chegar às águas mansas dos lugarejos. A ver o que vem por aí.