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Victor, cantor sertanejo, foi condenado a 18 dias de prisão

Já escutei de mulheres que foram vítimas de agressão que denunciar não dará em nada. Combato diariamente esse tipo de pensamento e reforço a importância de denunciar os casos, mas percebo que a maioria dos agressores não são punidos como merecem.

A prova é quando observamos o caso do cantor sertanejo, Victor Chaves, da dupla Victor e Leo. Divulgaram essa semana as imagens das agressões dele contra a ex-mulher, Poliana [que estava grávida de dois meses] dentro de um elevador, no ano de 2017. As cenas são chocantes.

A justiça condenou o cantor a 18 dias de prisão, respondendo em liberdade e o pagamento de R$ 50 mil para ex. Como se esse valor e o tempo de prisão apagassem o que Poliana passou. Os advogados de Victor já recorreram. Acho que não preciso comentar sobre esses 18 dias de prisão... os 18 dias por si só já falam.

Outro exemplo de que a impunidade é um dos grandes desafios: quando vemos o caso do jogador do São Paulo, Jean, que vai voltar a jogar bola. O jogador foi acusado pela mulher, Milene Bemfica, de espancá-la durante as férias dos dois nos Estados Unidos. Ele chegou a ser preso, mas de volta ao Brasil tudo voltou a ser como antes.

O nosso país registra casos de feminicídios e de agressões todos os dias. São inúmeros homens agressores que estão soltos, fazendo novas vítimas, destruindo mulheres que depositaram neles a confiança de um bom relacionamento. Cansei de escrever casos assim, cansei de ouvir relatos e de me chocar em todos eles. Mesmo aos prantos, nós continuamos.

São casos assim, como o de Victor, de Jean, do João, do Paulo, que passam a sensação (principalmente para eles) que pode agredir, pois não acontece nada. Questiono também se a lei realmente vale para todos: e se Victor não fosse um cantor reconhecido? E se Jean não fosse um jogador? E se ambos fossem moradores de periferia, lá do bairro do Benedito Bentes, por exemplo? Será realmente que a "pena" deles seria assim?

A sensação que tenho como mulher é que não adianta denunciar porque não se tem uma justiça ao nosso lado. A sensação é essa: que a justiça não está olhando por nós e que ela menospreza as nossas dores.

É triste perceber que times querem contratar um goleiro que encomendou a morte da namorada e que jogou o corpo para os cachorros. Triste saber que muitas pessoas apoiam o que Victor fez ou que acham “normal” uma agressão cometida por Jean, que deu oito socos no rosto da namorada.

Não sei o que é mais triste: perceber que a Justiça deu livre acesso para que esses homens cometam novamente outras agressões ou saber que existem pessoas que acham isso “besteira”, “mimimi de quem é feminista”. Quando a Justiça não pune, abre margem para que outros homens façam a mesma coisa.

A violência contra mulher é crime e merece ser denunciada. Por mais sensação de impunidade que a gente tenha e por mais difícil que seja, nós temos umas as outras, nós temos algumas autoridades que estão lutando por nós. Que o nosso grito ecoe por todos os ouvidos porque é lutando que conseguimos mudar esses casos. Por menor que seja a mudança, a nossa dor merece ser ouvida e os culpados penalizados verdadeiramente. Não podemos naturalizar um crime.

Se a Justiça que deveria nos proteger não condena o culpado, quem deverá nos proteger?

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Estou no Twitter: @raissafranca