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Agora não parece haver mais dúvida: o prefeito de Maceió, Rui Palmeira, transformou a tarifa de ônibus num estandarte eleitoral. Em texto anterior escrevi sobre o quanto de demagogia contamina o debate acerca do reajuste da passagem, já aprovado pelo Conselho Municipal de Transporte e Trânsito. O órgão aprovou o aumento dos atuais 3 reais e 65 centavos para 4 reais e 10 centavos. Teoricamente, o Conselho chegou a esse valor a partir de estudos técnicos, baseado em auditoria que avalia os custos das empresas.

Temos, portanto, uma decisão que se apoia em fatos concretos, levando em consideração a quantidade de passageiros, o número de viagens e as obrigações de manutenção da frota por parte dos empresários. Está tudo escrito, preto no branco, num conjunto de informações levado ao conhecimento das partes – a própria prefeitura, transportadores e Ministério Público Estadual.

O reajuste foi aprovado pelo Conselho no fim de dezembro. O passo seguinte seria a sanção do prefeito. Mas aí pesou o componente político. O MP se apressou em manifestar posição contrária. Para não ficar mal na foto, a prefeitura logo seguiu a zoada do MP e passou a negar confirmação da nova tarifa. Lembro que a última correção do valor se deu em fevereiro de 2018, há quase dois anos.

E o estandarte eleitoral do prefeito? Vamos lá. Nesta terça-feira, o prefeito tucano deu entrevista ao AL1, o telejornal do meio-dia da TV Gazeta. Falando direto de seu gabinete, ao vivo, Palmeira disse ao repórter que, “no que depender da prefeitura, não haverá aumento nenhum”. Questionado se poderia propor outro percentual no reajuste, o chefe do município repudiou a hipótese com veemência.

Não é muito comum uma entrevista ao vivo da autoridade máxima da capital. Especulo que a iniciativa atende a uma jogada de marketing. A conversa foi toda simpática com a TV Gazeta. Parecia algo bem combinado entre amigos. Não me surpreenderia se houvesse, por parte da emissora, também uma simpatia pela causa do prefeito. Claro que a eleição de 2020 mobiliza os dois lados.

Os virtuais concorrentes da candidatura a ser apoiada por Rui Palmeira já se manifestaram sobre o assunto – e é evidente que defendem reajuste zero. Naturalmente, essa defesa despreza os dados técnicos em nome dos dividendos eleitorais. É o pior dos cenários para a população. Segurar o reajuste necessário, seja como for, terá um custo alto, mais cedo ou mais tarde. A conta vai chegar.

Não é possível esticar a corda sem que haja consequências mais graves para a prestação do serviço. Dois anos com a tarifa congelada é uma realidade artificial. Mais que isso, sufoca as próprias empresas, que são cobradas por um transporte de melhor qualidade. Em nenhuma parte do país, o segmento segura um valor abaixo de suas condições para cobrir custos e fazer novos investimentos.

O prefeito passa a impressão que resolveu pegar pesado pra segurar a bandeira da tarifa zero. Daqui a pouco, ele é capaz de lançar movimento semelhante àquele que sacudiu São Paulo em 2013. O histórico mês de junho daquele ano começou com o repúdio ao reajuste de centavos na tarifa. Parece brincadeira. E é. Mas quem ouve o prefeito pensa até que ele virou um ativista Black Bloc.

Nesse labafero, o discurso contra as empresas é o atalho mais oportunista para o político cair nos braços do povão. Ao menos é assim que se comportam não apenas Rui Palmeira, mas todos os que já se manifestaram sobre o caso. Quando a meta é a urna eleitoral, a matemática, a lógica e a realidade são miseravelmente espancadas. Eis o centro do palco e o pano de fundo nesse teatro.

Ocorre que, ao contrário de seus adversários, Palmeira tem responsabilidade no cargo de prefeito da capital. Não tem o direito de se meter em aventuras eleitoreiras em detrimento das demandas reais do município. Depois de abandonar megaprojetos vendidos como uma Nova Maceió, embarca numa onda puramente casuística para iludir o eleitor. É o que temos nessa “polêmica” das catracas. 

Que a prefeitura pretenda debater o assunto, tudo bem. Mas não é o que se vê nos discursos oficiais. Está claro que o reajuste da tarifa, reitero, é tratado agora exclusivamente no campo das perspectivas eleitorais. O prefeito bonzinho versus empresários vilões – é a narrativa dos sonhos para o tucano e sua turma de aliados. Vamos ver até quando isso se sustenta. O transporte da cidade não pode parar.