Todos os prêmios para Petra Costa, cineasta no Oscar com “Democracia em Vertigem”

  • Redação
  • 13/01/2020 16:29
  • Blog do Celio Gomes

A seita que idolatra Jair Bolsonaro recebeu uma péssima notícia nesta segunda-feira. Como os fanáticos nada podem fazer para mudar a realidade, terão de engolir a indicação do documentário Democracia em Vertigem ao prêmio de melhor filme no Oscar 2020. É um feito inédito da cineasta Petra Costa (foto), que escreve seu nome na história do cinema ao emplacar a produção brasileira na corrida pelo troféu mais badalado do mundo. Na imprensa e nas redes sociais, os doentinhos da direita extrema vomitam ódio.

Ana Petra Costa faz um cinema fora dos padrões. Prestei atenção em seu jeito de filmar quando assisti a Elena, obra lançada por ela em 2012. Três anos depois, a mineira apresentou seu segundo longa, Olmo e a Gaivota. Nos dois casos, a diretora se revela uma artista avessa a facilidades. Seu cinema não se preocupa em contar historinhas água com açúcar para agradar ao público noveleiro.

Quem confunde cinema com piruetas de super-heróis e comédias caça-níqueis não vai entender nada ao se deparar com as imagens, o roteiro, a montagem e as ideias nos filmes da diretora. Aos 36 anos, Petra é uma criadora de outra linhagem no panorama nacional. É difícil comparar seu estilo a outros cineastas brazucas, de ontem e de hoje. É um olhar sem concessões, provocador.

Democracia em Vertigem, num resumo apressado, seria um filme sobre o impeachment da presidente Dilma Rousseff. A cineasta acompanha todos os lances daquele processo, com cenas inéditas dos bastidores de Brasília. Mas é muito mais que isso. Ela também segue as manifestações de 2013, a prisão de Lula e finalmente a eleição de Bolsonaro. E tudo isso ainda não explica o filme.

O documentário tenta apresentar uma visão do Brasil dos últimos 50 anos – atravessando governos, crises políticas, a ditadura militar, greves e os lances da redemocratização. Além dos depoimentos, numa escolha sempre perigosa, Petra opta por uma narração em off. É sua voz que ouvimos ao longo das duas horas de cenas e sequências sobre uma saga brasileira. Temos um documento sobre o país.

Como seria previsível, desde o lançamento no Brasil o documentário atraiu dois tipos de reações barulhentas. De um lado, os que enxergam no filme uma defesa da esquerda, de Lula e da versão de que o afastamento de Dilma foi um golpe político. No outro lado, estão os “cidadãos de bem”, a turma que não suporta essa ditadura comunista que ameaça os valores cristãos da família brasileira.

As duas visões não ajudam no debate, não ajudam também a entender as opções da cineasta em sua abordagem sobre a história recente do país. Aliás, que ela faça, neste documentário, uma ou outra escolha ideológica em sua interpretação, não é um problema em si. Desde que isso seja levado à tela com honestidade, é legítimo que defenda seus pontos de vista. Este, afinal, é um filme político.

No lamaçal do mundo bolsonarista, é adequada a explosão do secretário especial de Cultura do governo, Roberto Alvim. Sempre raivoso, o quadrúpede tentou uma ironia. “Se fosse na categoria ficção, estaria correta a indicação”, escreveu o elemento. Para completar a erudita análise, ele acha que tudo isso tem a ver com a “guerra cultural”. Coisa do marxismo globalista que destrói o mundo.

Não tenho apreço nenhum pela premiação americana. O Oscar é um convescote para vender mercadorias de todos os modelos, para os variados tipos de consumidor. Quase nada fora do padrão amplo, geral e irrestrito do chamado gosto médio. Dos dramalhões ao herói voador, das denúncias históricas ao desenho animado, cabe tudo. O que importa é manter o negócio, encher bilheterias.

Mas claro que nada é assim, exclusivamente isso ou aquilo, preto ou branco, azul ou encarnado. Vemos camadas e gradações. E sempre haverá, mesmo no concurso festivo, as obras que, sim, merecem nossa atenção. É por isso que, na seleção deste ano, mais de uma obra escapa à mesmice do cinemão. O Irlandês, Parasita e Dois Papas, cada um na sua, é arte maior do cinema.

Vi muita gente na imprensa reclamar que o filme de Petra Costa é “chato”. Tirando a hostilidade decorrente daquela “guerra cultural”, entendo esse tipo de opinião. O Som ao Redor, o fenômeno de Kleber Mendonça, também recebeu esse veredito. E o que dizer de todo o cinema de Glauber Rocha, Bergman, Bressane, Herzog... Chutar o balde da linguagem consagrada tem um preço. E é alto.

Como falei antes, a diretora de Democracia em Vertigem está fora das receitas que anestesiam a vida dos fãs de aventuras animadas. E olhe que, neste filme, ela pode até ser chamada de “popular”, se comparada aos dois longas anteriores, que citei lá no começo. O cinema brasileiro ganhou, nos últimos aos, uma diretora como jamais tivemos. Se ela ganhar o Oscar, será muito bom. Para o Oscar.